O vírus que muda nosso comportamento social

Foto de Carlos Alberto Araújo

Ao completar um ano de blog, decidi fazer algumas alterações para facilitar o acesso aos posts. Além disso, convidei alguns colaboradores para publicar seus escritos. É uma forma de interagir e apresentar novas ideias. Dessa vez, a crônica está a cargo de Carlos Alberto Araújo, médico e cirurgião torácico/HUOL/UFRN, que aceitou o convite e nos presenteia com uma reflexão sobre o momento atual e uma bela fotografia. Vamos ao texto!


O VÍRUS QUE MUDA NOSSO COMPORTAMENTO SOCIAL

Carlos Alberto – Cirurgião torácico/HUOL/UFRN

Considerando apenas as recentes emergências de saúde pública mundial – primeiro a SARS, seguida pela gripe aviária, pelo Ebola e agora a pandemia do COVID-19 – que surgiram no início do século XXI, passou-se a levantar questões preocupantes quanto à inesperada vulnerabilidade da sociedade moderna a surtos repentinos de doenças infecciosas.

O impacto global do COVID-19 tem sido profundo e a ameaça à saúde pública que representa é a mais grave observada por um vírus respiratório desde a pandemia de influenza H1N1 de 1918. A conhecida Gripe Espanhola. 

Mas esse escriba não está usando esse generoso espaço, recentemente cedido, para expressar temor, gerar pânico ou falar de ciência. Não! 

A ideia é relatar que nossa caminhada evolutiva tem nos ensinado que nossa forma de ser, de nos relacionar socialmente e, portanto, de evoluir tem sido moldada, às vezes, por pequenos seres vivos, invisíveis a olho nu, que são inquilinos mais numerosos e mais antigos que nós, os humanos, nesse condomínio que chamamos de Terra.

O primeiro relato que tive sobre a interação entre homens e vírus foi do meu falecido e amigo avô Estevam: “Quem comia alho não adoeceu da gripe Espanhola”. Dizia ele, reforçando sua crença no poder medicinal do alho e detalhando o impacto daquela pandemia na longínqua e familiar Macaíba. Provavelmente, na Macaíba do início do século XX não se falava de isolamento ou afastamento social.

Todavia, o isolamento ou afastamento social é a maneira como a sociedade pode ajudar na mitigação dessa epidemia que já chegou nessa aldeia de Poty. O afastamento social, enquadrado no grupo das intervenções não medicamentosas, tem se mostrado, histórica e cientificamente falando, uma grande arma de mitigar o impacto das epidemias na vida humana e de diminuir a expectativa de exaustão do sistema de saúde. Em qualquer tempo, lugar ou país. 

Então, como leitor assíduo das revistas científicas, passei logo a praticar o tão falado afastamento social. Colocamos a família à mesa para traçar nossa estratégia e assim mudarmos nosso estilo de vida e como iríamos nos relacionar daqui para frente. Sem sabermos, certamente, quanto tempo isso duraria. A gerência das ações para isso foi importante para otimizar ao máximo a exposição social que se teria na compra do que tínhamos definido.

Decerto, o ambiente, a movimentação e utilização do nosso lar mudou radicalmente. Agora, poderia ver antigos e saudosos jogos que me remetiam à adolescência dos veraneios de Pirangi e Cotovelo. Achei, quando de soslaio olhei a ensolarada sala emoldurada pelas orquídeas, que estava diante do famoso fenômeno do déjà vu, pois posto à mesa estavam as caixas dos jogos Banco Imobiliário, War e Detetive. De imediato, transcendi a barreira do tempo e cheguei às tardes dos veraneios de Pirangi. Quando a minha tribo se reunia nos alpendres para jogar esses mesmos jogos enquanto esperávamos o sol amenizar e irmos à praia. Foi, literalmente, uma volta ao passado. 

No nosso confinamento, somos quatro: eu, minha esposa Ana Maria e meus filhos Thais e Arthur. Iniciamos nossa forma de passar o tempo, reclusos em casa, na prática do isolamento social. Confesso que fazia tempo que não interagia tão intensamente e de perto com minha família. Percebi, pela proximidade real que a mesa de jogo permite, como os filhos estão formados. Como cada um já possui um palavreado próprio, influenciado pela formação acadêmica deles. Ela, mestranda em biologia, ele acadêmico do direito. Além de tudo, na minha frente, estava a minha namorada. Aquela mesma que conheci em um longínquo, mas inesquecível verão em Pirangi, ano de 1988. Naquela noite, de fortes sentimentos nostálgicos, comprei a Avenida Vieira Souto, paguei aluguel na Oscar Freire e, também, fui para a cadeia. Assim interagimos e jogamos Banco Imobiliário.

No entanto, os impactos dessa nova relação estavam apenas começando. Na manhã seguinte chegou mais uma surpresa. O velho e familiar tabuleiro do gamão, enviado por minha mãe, a pedido de Arthur, que havia sido aprendiz de meu pai nesse jogo. Olhar para aquele jogo foi ótima lembrança. Lembrei das inúmeras vezes que vi meu saudoso pai jogar gamão com meu avô Fagundes, e de como eles se divertiam naquele tabuleiro. Tinham um palavreado próprio para “cantar” uma jogada. Lembro de meu pai soprando no copo de couro curtido feito à mão, onde estavam os dados, pedindo por uma combinação numérica perfeita. Quando a desejada combinação acontecia ouvia-se uma grande gargalhada. De ambos, não havia perdedor. Os dois se divertiam e interagiam de uma forma harmoniosa e invejável.

Confinado, em isolamento social, virei aprendiz do filho na arte de jogar gamão. Arthur montou o tabuleiro, sincronizei a playlist no arquivo Smooth Jazz, e ao som de Norman Brown, iniciamos o jogo. Nesse momento, ficou difícil estabelecer uma distinção entre passado e presente. O tempo tinha deixado de ter uma relação fiel entre atos, fatos e datas, sejam do passado ou do presente. Arthur, familiarizado com o jogo, usava as mesmas palavras que meu avô e meu pai usavam. Quando passei a “cantar” a combinação perfeita da numeração dos dois dados fiquei preocupado. Quando soprei no copo de couro, assustadoramente, lembrei que nosso comportamento é resultado de dois fatores principais: genética e exemplo. Apesar da sonora e acachapante derrota que o filho me impôs, com os olhos marejados e dificuldades para deglutir, agradeci pelo momento de aprendizado e interação.

Naquela oportunidade, no mesmo ambiente e sobre a mesma influência musical, esposa e filha faziam, ao chão, uma sequência de exercícios e relaxamento. Percebi, ao canto do olhar e com a boca mole, como o cabelo dela estava bonito! Atrevo-me até a dizer que senti um certo clima no ar. Feromônios, endocrinamente falando, estavam nos conectando. 

Engana-se quem pensa que os humanos vencem às epidemias. Nós sobrevivemos a elas, assim historicamente tem sido. Os vírus, esses sim, nos moldam. Ainda bem. 

Até a próxima pandemia!


Acesse também: Comida, música e amor, Entrevista com Marcelo Buainain, Entrevista com Jadson André.

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