Olhares refletidos entre seus dedos

Como pano de fundo, o rio deslizando no sentido inverso, mar morto de lua crescente correndo em direção às águas das chuvas que começam a desabar no sertão.

Na caixa de som portátil, os suaves acordes do jazz sem interferir na conversa.

Mãos habilidosas debulham sua produção de um ano de isolamento em tempo de pandemia. Quanto mais as coisas se complicam, maior é a inspiração no processo criativo.

O algodão – ouro branco que povoou nosso chão – tingido com pigmentos naturais, linhas cuidadosamente trançadas, imagens revelando poesias visuais. Trechos de poemas ilustrados, bordados em cores harmoniosas, combinação do olhar de quem sabe enxergar e fazer arte.

A letra A como assinatura de Angela Almeida. Pássaro de muitos pousos, artista plástica multifacetada que transita muito bem entre a fotografia, a escrita, a pintura, a curadoria e, mais recentemente, nas linhas dos bordados.

Trechos de poemas de Paulo de Tarso, Oswaldo Lamartine, Ariano Suassuna, Marise Castro, Fernando Pessoa, Sophia de Mello Breyner e Wislawa Szymborska provocando encantamento, deslumbramento. Muitos olhares refletidos entre seus dedos.

Doutora na estética do sertão, Angela transporta para os bordados a sua formação. O algodão, os pigmentos, os desenhos e o cru mantêm as cores da região e carregam o quintal da sua infância.

O ápice de sua coleção Angela Almeida deixou para mostrar por último: sessenta obras com trechos dos poemas de Zila Mamede.

A menina de Nova Palmeira, de olhos cânticos e aromas apreendidos no entardecer rural, mudou-se para Currais Novos e depois para Natal, onde transformou-se na poeta respeitada e admirada no país inteiro.

Entre o sertão e o mar, os poemas bordados resgatam a obra de Zila, tecidos no navegar de muitos sonhos:

O que fazer com essa linda produção ainda é uma incógnita. A conversa continua entre a produtora de obra tão delicada e expressiva, minha mãe artista plástica e eu, me sentindo honrada em poder apresentar sugestões sobre como expor um trabalho de tanta sensibilidade!

E o rio correndo, desfiando as últimas luzes do dia sobre o Ateliê Pedra do Rosário. Em meio a uma coleção encantada, o cenário foi completamente esquecido.


Zila Mamede

BANHO (RURAL)

De cabaça na mão, céu nos cabelos
à tarde era que a moça desertava
dos arenzés de alcova. Caminhando

um passo brando pelas roças ia
nas vingas nem tocando; reesmagava
na areia os próprios passos, tinha o rio

com margens engolidas por tabocas,
feito mais de abandono que de estrada
e muito mais de estrada que de rio

onde em cacimba e lodo se assentava
água salobre rasa. Salitroso
era o também caminho da cacimba

e mais: o salitroso era deserto.
A moça ali perdia-se, afundava-se
enchendo o vasilhame, aventurava

por longo capinzal, cantarolando:
desfibrava os cabelos, a rodilha
e seus vestidos, presos nos tapumes

velando vales, curvas e ravinas
(a rosa de seu ventre, sóis no busto)
libertas nesse banho vesperal.

Moldava-se em sabão, estremecida,
cada vez que dos ombros escorrendo
o frio dágua era carícia antiga.

Secava-se no vento, recolhia
só noite e essências, mansa carregando-as
na morna geografia de seu corpo.

Depois, voltava lentamente os rastos
em deriva à cacimba, se encontrava
nas águas: infinita, liquefeita.

Então era a moça regressava
tendo nos olhos cânticos e aromas
apreendidos no entardecer rural.

ANGELA ALMEIDA – MITOS ENREDADOS: A ARTISTA

Acesse também: Memórias roubadas, Imaginária, O mercado milionário das artistas plásticas brasileiras, Colcha de retalhos, relíquia que conta histórias.

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1 comment

  1. Gosto de Ângela! Principalmente, porque sempre senti que ela É ELA, por ela e não pelos outros. No que faz e no que se mostra. Como artista me encanta. Bom ter este lugar para expressar isso porque, ao vivo, eu sou muito esquiva.

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