Velha roupa descolorida

Em tempo de pandemia e isolamento, ela vem reinando exclusiva. Acostumada a ser usada apenas durante algumas horas do dia, agora é quase uma segunda pele. Chegou com cheiro de nova; bem passada, foi exposta vaidosamente. Depois foi virando comum, guardada e retirada esporadicamente do guarda-roupa. Demarcou seu espaço e passou a ser usada com mais frequência. Com fibras maleáveis, foi adaptando-se ao contorno do corpo e não o deixa em aperto. É suficiente sábia para trazer conforto e aconchego. Em tempo de quarentena, está sendo muito mais demandada. Como a frequência exige, uma só não é suficiente. Ganhou companheiras, […]

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Música e adolescência

Ilustração de Andrea Ebert – Visite seu site: www.andreaebert.com Outro dia passando por um sinal, deparei-me com um vendedor de pirulito de tabuleiro. Dei uma volta no tempo e fiquei imaginando se teria o mesmo sabor da infância, mas não ousei experimentar, achei mais prudente resgatar nos furinhos da tábua da memória o sabor daquele doce infantil. Vasculhando leituras e ouvindo podcasts, deparei-me com tentativas da neurociência em explicar o porquê de a comida ser tão marcante na formação do paladar quando criança e a música da adolescência permanecer tão enraizada na memória dos idosos, sem ser atingida pelo desgaste […]

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Uma Páscoa diferente

Quando eu era criança, costumava passar a Semana Santa na fazenda, aproveitando o verde trazido pela estação das chuvas. Família reunida, os insetos rodopiando ao redor das lâmpadas, as moscas exigindo cuidado, o coaxar dos sapos e as conversas do alpendre no Sábado de Aleluia, depois de malhar o Judas e comentar os roubos de galinha. No dia seguinte, a criançada acordava cedo para a brincadeira preferida do Domingo de Páscoa: procurar os ovos de chocolate que os pais tinham escondido em pontos estratégicos do terreiro. Tarefa fácil para quem estava acostumado a encontrar os ovos verdadeiros das galinhas poedeiras. […]

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Banksy, surpresas e mistérios

Banksy me chamou a atenção no leilão realizado pela Sotheby’s em outubro de 2018. “Menina com Balão” foi arrematada por 1,02 milhão de libras esterlinas, mas tão logo o martelo foi batido, o quadro entrou automaticamente em processo de autodestruição, com uma serrilha embutida na parte de trás picotando metade da obra. A venda foi mantida e o quadro subiu alguns degraus no seu valor de mercado. O quadro reproduz o grafite pintado no muro de Londres, em 2002. No seu Instagram, Banksy postou um vídeo sobre a venda da obra, onde faz a seguinte confissão: “há alguns anos atrás, eu secretamente […]

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No Rastro das Águas – Prefácio, Nota da Autora e Agradecimento

PREFÁCIO Diógenes da Cunha Lima Mais que história pessoal, familiar, biográfica, é este um livro etnográfico, reconstitui práticas de uma das regiões culturalmente mais ricas do país. O Seridó é uma civilização solidária. As características comuns da sociedade seridoense, em seu conjunto, tornam o seu povo único. Os fenômenos sociais religiosos (Santana, a Padroeira maior), os fenômenos estéticos (as belas moradias, cores, flores e animais saídos das mãos das artistas bordadeiras), o melhor artesanato de alimentos (queijos, manteiga, doces, massas), o fenômeno técnico de aproveitamento do solo seco, das vazantes e, sobretudo, as condições morais fortes do seridoense, limpo e […]

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No Rastro das Águas – Capítulos 70 e 71

(…) O dia findava-se nas horas tristes do pôr-do-sol, quando o crepúsculo encobria a beleza infinita do mar, fazendo surgir a escuridão, aplacada pela beleza da lua sobressaindo às estrelas. José Bezerra não gostava daquela hora; sua alegria era estar em contato com a água, fosse na correnteza dos rios cheios dos invernos sertanejos ou nos deliciosos banhos nas sangrias, fosse ante a ilusão de dispor da imensidão do oceano. Para aquele que vivia no rastro das águas, a noite significava privar-se da visão infinita do mar; mas reconfortava-se, pois sua audição e seu olfato se tornavam mais apurados ao […]

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No Rastro das Águas – Capítulos 68 e 69

(…) Lá embaixo, a música começou a tocar. A casa do casal José Bezerra e Yvete estava toda preparada para receber os familiares e amigos de meio século. Era a última grande festa que eles patrocinariam na avenida Hermes da Fonseca, antes da troca de endereço. Os convidados já deveriam estar chegando, eles não se importaram. Inebriados no clima de cumplicidade, prolongaram os momentos tantas vezes compartilhados na intimidade daquelas quatro paredes; afinal, não era todo dia que um casal completava bodas de ouro. Deixassem a música tocar mais um pouco, os convidados podiam esperar. Capítulo 68 De longe pôde […]

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Perfumes da vida

Meu nome é sentido, ninguém me toca, vê ou escuta. Estou no ar, às vezes, despertando o paladar que me agasalha em cumplicidade. Um banho demorado em tempos de sobra de tempo, finalizado com uma tolha limpinha – se fosse quarada nos lajedos do sertão, me levaria de volta no túnel do tempo. A tardinha cai e me arrisco a caminhar até à padaria da esquina, seguindo o aroma do pão que marca as horas do entardecer e do amanhecer. O bolo no forno avisa que está quase pronto. O sabor do brownie de chocolate provocando e adoçando a cozinha, […]

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