Partiu Carnaval

E partiu Carnaval! Uma festa tão brasileira, sucesso no mundo inteiro, marcada pela descontração, irreverência, alegria, improviso, espontaneidade e pluralidade, transformou-se num corredor de regras, polarização, controvérsias, censuras e tantas outras coisas que lhe cassam a essência e desbotam o seu colorido.

Dos salões onde os foliões giravam fantasiados nos antigos carnavais, saíram marchinhas que se eternizaram nas bandinhas de sopro. No carnaval do ano passado, essas canções foram alvo de polêmicas diversas e até proibições, mesmo sendo marcas registradas do Carnaval brasileiro, desde 1899, quando Chiquinha Gonzaga lançou “Ó Abre Alas”.

Mamãe Eu Quero, Cachaça, Turma do Funil, Aurora, Me Dá Um Dinheiro Aí, Cidade Maravilhosa, Allah-Lá-Ô, O Teu Cabelo Não Nega, A Jardineira, Maria Sapatão, Sassaricando, Maria Escandalosa, Saca-rolha, Chiquita Bacana, Taí (P’ra Você Gostar de Mim), Bandeira Branca e Cabeleira do Zezé passaram a ser rotuladas entre politicamente corretas ou incorretas. Canto ou não canto? Toca ou não toca? Espontaneidade de ladeira abaixo.

Esse ano, a discussão deslocou-se para as fantasias. Antigamente, a escolha do tema era motivo de diversão, não de discussão. Com um mercado fornecedor reduzido, o difícil mesmo era encontrar material bem alegre e colorido para as costureiras esbanjarem a criatividade. Ainda não havia a invasão da fantasia pronta-entrega.

Por diversas vezes me vesti de índia, descendência que trago no DNA, olhos puxados, cabelos escuros e lisos. Lembro bem da encenação dos índios e o caçador quando criança na praia de Muriú. Morria de medo de ser atacada, não sei se pelos índios ou pelo caçador, mas, ao final da apresentação, o que eles queriam mesmo era a cachaça que vem do alambique.

Não cresci traumatizada por pular as marchinhas de Carnaval, nem por ouvir as canções e histórias de ninar. Atirei o Pau no Gato, A Canoa Virou, Marcha Soldado, Boi da Cara Preta, Samba-lelê e outras tantas eram entoadas sem qualquer questionamento. Cantávamos nas rodas e a alegria espalhava-se no ar. Sorriso inocente de criança, descontraído, escancarado nas brincadeiras.

Susto mesmo causavam os papangus. Nunca esqueci o pranto de meu irmão caçula, porque mamãe saiu totalmente irreconhecível na praia, invadindo as casas dos amigos, modificando a voz, fazendo de tudo para não ser descoberta.

Eu mesma já virei papangu no Carnaval, mas baixinha, perna grossa e um bumbum meio saliente (olha minha herança negra sobressaindo), ficava difícil disfarçar. Os preparativos da fantasia já valiam uma festa! A máscara, as luvas, as meias, a peruca, o calor, a maquilagem escorrendo, tudo era motivo de riso e diversão. As casas invadidas também tinham que ter espírito carnavalesco para receber com folia aquele grupo de intrusos. Caso contrário, seguíamos para a próxima; com muita irreverência e improviso.

Não sei onde foi parar toda nossa miscigenação, cores e corpos alimentando a folia… Quero mesmo é ver o bloco na rua repleto de alegria, espontaneidade, irreverência, respeito e muito confete e serpentina. Que a fantasia seja eterna, que a paz vença a guerra e que viver seja só festejar, pelo menos nos quatro dias de folia.

De qualquer forma, pelo sim, pelo não, melhor sair de papangu (cuidado com a máscara escolhida) ou buscar uma praia sossegada para passar o Carnaval, enquanto os blocos se agitam em polêmicas para repartir uma festa plural!


Allah-la-ô – Haroldo Lobo e Nássara
Mamãe Eu Quero – Música de Vicente Paiva e Jararaca
Cachaça – Música de Marinósio Trigueiros Filho
Se a Canoa Não Virar – Música de Antônio Almeida e Oldemar Magalhães

Leia também

2 comments

  1. Elzinha, que perfeição, o contar bonito e verdadeiro, Relembrando os grandes poetas carnavalescos, homenageando a história do eterno carnaval.sem acusar ninguém , só a beleza eterna que ficou na alma da gente. Obrigada minha lindona por tanta ternura!
    👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *