Partiu veraneio

Esse ano, as compras de Natal foram deixadas para última hora. Coisa difícil de acontecer comigo que gosto de planejar tudo com antecedência.

Correria de véspera de Natal, organizar mudança para praia e chega o grande dia.

Almoço e jantar com a família para compartilhar o espírito natalino e fecho às portas para o estresse. É tempo de esperança, de renovação, de luz para um novo tempo.

Acordo disposta para os ajustes finais antes de partir para o veraneio, ansiosa para ver a primeira temporada do primeiro neto na praia.

Parto sozinha na frente, porque a bagagem é grande e o marido vai ajudar o filho a encontrar espaço. Primeira viagem de Henrique, pais de primeira viagem.

Dirijo sem pressa, paro na padaria para comprar um pão quentinho. Deu vontade de um cafezinho e a manteiga para lambuzar.

Na padaria, a lentidão dominava o sistema do caixa e a caixa, ainda com ressaca da festa da noite anterior.

Pé na estrada com a playlist cuidadosamente escolhida. Lembrei de “Melhor é Impossível”, quando Jack Nicholson apresenta a sua coleção de fitas cassetes para uma trip com Helen Hunt.

Saí de Natal debaixo de chuva, no dia da comemoração dos seus 422 anos. Segui o caminho de Porto Mirim pela antiga estrada por Genipabu. Esse caminho é muito mais humano. 

Famílias sentadas na porta de casa, beira da estrada, aproveitando a aragem de uma tarde abafada.

Pancadas de chuva que não são mais de cajus, porque esses estão espalhados sobre o asfalto. Flores secas dos ipês esparramadas no chão, agora é tempo das sementes.

Galinhas ciscando na água que escorre depois da chuva; roupas penduradas abanam cores ao olhar; uma mulher cata a pulga do cachorro de estimação; mais à frente, a cabeça de uma criança é vasculhada à procura de piolho; bacias de mangas expostas para os compradores.

Eu saboreando a visão, dirigindo devagar, relembrando as antigas mudanças quando criança para o veraneio em Muriú. Quando estava aprendendo a dirigir fui com papai pela beira da praia. No maceió de Pitangui estanquei o buggy, atolei o carro e fiz papai andar a pé à procura de reboque.

Sobre minha cabeça, uma nuvem pesada de chuva. Nem precisei ir ao alto do antigo morro onde vovô José Bezerra procurava os torreames que trazem a água para o sertão.

Graças à tecnologia, recebemos o vídeo da chuva de emendar goteiras na fazenda Queimadas, em Currais Novos. Um valioso presente de Natal para o sertão sedento.

Cheguei à casa da praia saudada por um mar de água limpíssima, vento quase poente, sinais de bom inverno. Assim seja!

Crianças brincando à beira-mar, e eu aguardando meu neto. Ansiosa para lhe ensinar o que meu pai me ensinou e o que ele aprendeu com meu avô.

E assim seguimos as estações da vida!


Cássia Eller | Por enquanto

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10 comments

    1. Oi Zé Neto! É quase a música “Que apesar de termos
      Feito tudo o que fizemos
      Ainda somos os mesmos
      E vivemos
      Ainda somos os mesmos
      E vivemos
      Como nossos pais”… 😘

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