Pausa para recarregar

Flor na pedra

O café passado manualmente, exalando o cheiro pela casa, despertando os sentidos saborosamente. O pão quentinho derretendo a manteiga para azeitar a refeição. Pessoas sentadas à mesa, compartilhando a primeira refeição matinal. Almoço em família com direito a cochilo reparador. Final de tarde, cadeiras nas calçadas, encontro vespertino para colocar em dia as novidades do dia. Jantar com mesa posta, televisão e conversa entre amigos, olho no olho, antes da pausa para o descanso.

Onde foi parar tudo isso? O tempo encurtou ou fomos nós que lhe apressamos?

Os ponteiros aceleram, as horas passam rapidamente, os dias se tornam mais curtos, os anos findam e a sensação de que algo restou por fazer permeiam o nosso imaginário. A vida passa como uma câmera com o obturador em longa exposição, deixando rastros de cores variadas.

E o corpo responde à alta velocidade, desgastando-se em igual proporção. Surgem doenças inexplicáveis, impossíveis de serem contidas com os conservantes e estabilizantes.

Nadando contra a maré, pessoas retomam hábitos milenares. Retornam à natureza, fogem do ritmo frenético das grandes cidades. Muitas vezes, após um surto do estresse diário, outras, por uma percepção mais aguçada de que a alta velocidade pode não trazer tantos benefícios. Pausa para recarregar, reformatar.

Decisão complicada, ponderação pelo desapego ao materialismo sedimentado. Valorização do que é simples e descomplicado torna a vida mais bela. Muito mais saborosa, porque fruta amadurecida naturalmente no pé leva tempo para apurar o sabor. Flores cultivadas ao natural exalam aromas perfumados. Floração estimulada embeleza, mas não perfuma.

Movimentos de volta às origens rurais, minimalismo, veganismo, pausa para meditação, ioga, pilates. Novas comunidades, velhos hábitos. Formas de encarar a realidade alternativamente, mais ser e menos ter. Sentir o tempo passar no devido tempo.

O Slow Food de Carlo Petrini surge, ganha adeptos e espalha a ideia do retorno à produção em pequena escala, ressaltando as aptidões naturais de cada terroir, seguindo a filosofia do bom, limpo e justo.

A vida desacelera, sobra tempo para o corpo e a mente. Curtir as pessoas, aprender a identificar o trinar dos pássaros, alegrar-se com o desabrochar de uma flor, ressurgir com o alvorecer e recolher-se com o entardecer, para reacender o brilho no olhar.


Apanhador de Desperdícios – Manoel de Barros

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.


Over the rainbow – interpretação de Israel “IZ” Kamakawiwoʻole

Acesse também: Rituais cotidianos, Camuflagem, Tempo de aprendizado e Celebrando a vida.

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4 comments

  1. Adorando, Elza. Me vi em vários textos. Suas crônicas são um bálsamo em meio a uma época Imediatista e superficial, como a que estamos vivendo.

    1. Oi amiga, a intenção é realmente proporcionar prazer ao leitor nesse mundo tão cruel. Fico muito feliz em contar com essa leitora assídua. Beijo grande.

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