Pedal histórico-cultural em Natal – Parte II

Solar Bela Vista no ano do centenário – 2007

Após recebermos as bênçãos de Nossa Senhora da Apresentação na Pedra do Rosário, retomamos para a Avenida Câmara Cascudo, passando pelo prédio do jornal “A República” e parando na frente da casa nº 377, lugar onde Luís da Câmara Cascudo viveu grande parte de sua vida, endereço de referência da cultura do nosso Estado, que hoje abriga o Instituto Câmara Cascudo.

Instituto Câmara Cascudo

Nas paredes do Instituto, o muro com a obra do artista plástico Azol e equipe de grafiteiros de Miguel Carcará, numa homenagem aos 30 anos de encantamento do grande Mestre.

Um pouco adiante, o Solar Bela Vista, palacete cuja construção teve início em 1907, em estilo neoclássico, residência do Coronel Aureliano Clementino de Medeiros, rico fazendeiro e comerciante de algodão.

Vizinho, está o Solar João Galvão de Medeiros. Construído em 1908 pelo Sr. João Alfredo, o edifício foi adquirido pelo Coronel Aureliano de Medeiros, que ali fixou residência por dois anos, período em que aguardava a construção do Solar Bela Vista.

Solar João Galvão de Medeiros em 2007

Após se mudarem para o palacete ao lado, dona Olívia Medeiros, filha do coronel, herdou o casarão. Mas como faleceu solteira, deixou a casa de herança para seus dois sobrinhos-netos: João Galvão de Medeiros Filho e Bernardo Galvão Medeiros. Após isto, o casarão se tornaria um hotel até o seu fechamento.

Em frente ao Solar, encontra-se a Capitania das Artes. Hoje é administrada pela Prefeitura de Natal e serve de Espaço Cultural, mas já foi sede do governo provincial, da Companhia de Aprendizes de Marinheiros e da Capitania dos Portos.

Capitania das Artes

As ciclistas seguiram pela bifurcação da Praça das Mães em direção à Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, levantada em 1714 pela irmandade de escravos. Pausa para várias fotos, registrando a Igreja que foi lugar de batismo e casamento de algumas mulheres do grupo.

Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos

No largo da Igreja, um belo visual de Natal e a casa amarela da Viúva Machado em destaque.

Amélia Duarte Machado nasceu em Mossoró, no ano de 1881 e morreu em 1981. Foi casada com Manoel Duarte Machado, rico comerciante português, proprietário da firma M. Machado & Ca. – A Despensa Natalense –, localizada na Ribeira.

Praça Dom Vital e a casa da Viúva Machado

Ficou viúva em 1934, aos 53 anos. Assumiu os negócios do marido com mãos rígidas e fortes. Herdou grande parte do território da cidade, além de extensas propriedades em Parnamirim, São Gonçalo do Amarante e Macaíba, mas teve que enfrentar a lenda construída em seu nome, como se fosse papa-fígado de crianças. Na verdade, foi uma grande empreendedora, rompendo com o papel tradicional na mulher e injustiçada pela população.

Quem sabe a história de Amélia Machado não se compara à Madame Nicole-Barbe Ponsardin Clicquot – a Veuve Clicquot?! Não por acaso, o famoso champanhe era vendido na Despensa Natalense em 1921.

Deixamos o largo da Igreja do Rosário e continuamos até o Ateliê Pedra do Rosário, lugar de inspiração e produção da artista plástica Selma Bezerra, minha mãe. Uma pausa para fotos das amigas ciclistas e contemplação do Rio Potengi margeando a Cidade do Natal.

Ateliê Pedra do Rosário – Rua Paula Barros, 556 | Natal | RN

Uma volta na Praça André de Albuquerque (fechada para reforma), uma parada em frente à Igreja Matriz – lugar de fundação da Cidade – e o retorno na Praça 7 de Setembro.

Como diz Gustavo Sobral, o modelo de cidade portuguesa inclui a sede político-religiosa na parte alta; enquanto o porto e comércio ficam na parte baixa. E na Praça dos Três Poderes estão a sede da Assembleia Legislativa, o Tribunal de Justiça e a Pinacoteca do Estado em reforma, que já foi o Palácio Potengi, sede do Poder Executivo.

Uma volta ao redor da Pinacoteca até o Museu Café Filho, uma fotografia do lindo edifício que abriga o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte e de lá seguimos para a Igreja do Galo – Santo Antônio – e o Memorial Câmara Cascudo.

Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte
Igreja do Galo
Memorial Câmara Cascudo

Uma rápida passagem pelo Beco da Lama, porque a marquise do antigo Cinema Nordeste e as lojas ao longo da Rua João Pessoa viraram abrigo para drogados e miseráveis. Melhor não facilitar, enquanto o cheiro da erva queimando se espalhava no ar.

O próximo destino foi a nova Catedral Metropolitana, projeto do arquiteto Marconi Grevi, inaugurada em 21 de novembro de 1988 e construída sob a administração de Dom Antônio Soares Costa, Bispo Auxiliar de Natal.

Catedral Metropolitana de Natal

Ao atravessarmos a Avenida Deodoro, uma integrante do grupo teve a ideia da fotografia na faixa de pedestre. Uma referência à capa do álbum Abbey Road dos Beatles. Bem longe de Londres, um passeio ciclístico resgata uma boa parte da história de Natal.

As ciclistas na Avenida Deodoro | Natal | RN

Oito ciclistas felizes em ter a capacidade e o preparo físico para encarar as ladeiras da cidade que, por poucos anos, foi chamada de Nova Amsterdã, sob domínio holandês no século XVII, mas que não tem nada de plano como Amsterdã. Ao contrário, seus morros foram ocupados e ondulam ao longo do caminho.

Para finalizar o passeio com chave de ouro, uma fotografia da sede da Dois A Engenharia, que restaurou o Casarão 479 da Av. Deodoro da Fonseca, em Petrópolis.

Sede da Dois A Engenharia

Construído em 1916, para servir de residência ao comerciante Irineu Pinheiro, passou para as mãos do desembargador Joaquim Ferreira Chaves e depois foi adquirido pelo médico Varela Santiago.

Que essa iniciativa seja repetida por outros natalenses, no esforço comum para preservação da memória da cidade.

O pedal histórico-cultural em Natal chegou ao fim. Como era dia de eleição, desejamos que o Prefeito e os Vereadores eleitos saibam resgatar a memória da cidade, cuidar do seu presente e zelar por nosso futuro.


Acesse também: Pedal histórico-cultural – Parte I, Natal, 420 anos, Natal, Hope e SCBEU, Cidade marinha, Memórias roubadas e Olhar Potiguar.


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4 comments

    1. A nossa história não é cuidada como deveria. A ideia do pedal foi justamente chamar a atenção dos nossos monumentos, tão maltratados. Navegue no blog, tem muito material para leitura. Muito obrigada!

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