Permanente robustez

O mês de julho é bastante significativo para o seridoense, que não o conhece pelo nome, mas como mês de Santana.

Para mim, era sempre a época de aproveitar a festa de Santana e percorrer as terras dos meus antepassados, marcadas pela robustez das pedras que sedimentam a devoção ao Seridó.

Este ano, por causa da pandemia, as festas religiosas e pagãs estão suspensas. Para marcar esse momento, relembro a geografia dessa região tão especial, transcrevendo a crônica Permanente Robustez, publicada no livro Sertão, Seridó, Sentidos.


Pedra do Caju | Açude Totoró | Currais Novos/RN

Rente ao chão, observo os contornos que me circundam do alto. A visão estende-se à linha do horizonte, seguindo o traçado escuro, ondular, serpenteando de sertão adentro, fundindo-se ao céu de dia nublado, com chuva desfiando ao longe, em pleno mês de Santana.

Percorro as terras do Seridó, pisando no solo pedregoso, recolhendo seixos e visões das pedras que abundam na região, expostas nas variadas figuras que a imaginação fértil concebe em ousadia.

Reveladas em suas formas, recebem os nomes de acordo com o formato, batizando lugares, serras, chapadas, cavernas, lajedos, furnas, sítios arqueológicos. Abrigando montes, cruzeiros e a fé do seu povo.

Pedras do Tubarão, do Caju, do Sino, da Santa, do Avião, do Sapateiro, da Baleia, Bico da Arara, Serra da Rajada, Serra do Chapéu, Pico do Totoró, Monte do Galo. As pedras identificam a região, expondo facetas diversas.

Apinhadas ou isoladas, equilibram-se pela força da natureza rude, servindo de abrigo para os habitantes de hoje e de ontem, formando tanques nas serras, acolhendo animais.

O homem também soube explorá-las. Utilizou-as como armas, amontoou-as aprumadamente para delimitar suas terras, extraiu-lhe riquezas, deu-lhe novas formas que encantam por sua beleza austera.

Na maior parte do tempo, a caatinga revela-as facilmente no solo árido. Mas quando a chuva chega, cobrindo de verde os galhos secos, as pedras deixam de reinar solitárias, acobertadas por uma folhagem de tonalidade ímpar. Aliás, vários tons de uma cor escassa, surgindo reluzente para os olhos cinzentos do sertanejo.

Com o olhar atento, vislumbro de longe a Pedra do Chumbo, sobressaindo dentre os pés cobertos desse novo manto. Do alto do seu trono, ela reina majestosa sobre o sertão verde.

Não me contento com a visão de baixo, procuro novas perspectivas. Decido subir aos céus, para visualizar o Seridó do alto de suas serras. A de Santana é por demais chapada, prefiro a ondulação da cordilheira que protege a cidade de Acari.

Dirijo o carro na companhia de uma mãe cuidadosa, mas igualmente curiosa. Ladeira íngreme, vereda que nos leva a uma paisagem fascinante.

Vertendo os derradeiros fachos de luz, o sol lança uma sombra sobre parte do Gargalheiras, realçando as serras rochosas que acolhem o imenso espelho d’água.

Os contornos materializam-se, abandonam as vagas silhuetas, concretizando toda sua existência. O relevo acentuado estende-se para a Paraíba. Lá embaixo, a cidade branca, diminuta, insignificante frente à vista infinita que se descortina.

Na quietude, duas almas observam um sertão desalmado. O espírito voa sobre o berço de tantas histórias, na cumplicidade das cores de um final de tarde sobre rochas que exalam sua permanente robustez.

O sol cai vertiginosamente, alterando a luminosidade. O anil esmaece, um laranja tímido mescla-se às nuvens parcas. Vista de cima, a terra adormece numa cor única, com proeminências reveladas no entardecer.

Um pássaro voa solitário, retornando ao aconchego do ninho. Hora de retomar a estrada, antes que o breu da noite caia em definitivo, apagando imagens de uma imensidão a ser descoberta.


Acesse também: Sorriso de menino, Andorinhões errantes, Fé inabalável e Caminho da infância.

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