Piquenique

Na minha infância, fui leitora assídua de revistas em quadrinhos. Li de Walt Disney a Hanna e Barbera, passando por Bolinha e Luluzinha e a Turma da Mônica. Aguardava as revistinhas chegarem na cigarreira da esquina. Ninguém aqui chamava de banca, era cigarreira mesmo. Ainda influência do cigarro como moda nos anos 50/60, tempo de James Dean, o rebelde sem causa de Juventude Transviada.

Zé Colmeia e Catatau, de Hanna e Barbera, nem estavam entre os meus personagens preferidos, mas um fim de semana na serra, compartilhado entre oito amigas que o pilates reuniu, bem que renderia um animado piquenique, com o cuidado para ninguém surrupiar a nossa cesta.

A ideia passou por minha cabeça e logo a coloquei em prática. Fui até o centro da cidade comprar um tecido vermelho e branco – todo piquenique que se preze tem uma toalha xadrez. Depois foi só colocar no grupo do fim de semana e o programa estava aceito. Que pegada vintage!

Faltava definir o local. O dia amanhecera com ares de inverno. A serra estava coberta por neblina e um chuvisco persistente durou toda manhã. A chuva deu uma trégua, mas diante do chão encharcado, melhor ficar perto de casa. O lajedo de pedra, onde um banco de madeira rústica desnuda o horizonte, era o lugar perfeito.

A cesta foi abastecida com vinho O Bento – rótulo personalizado por vinícola do Rio Grande do Sul para Serra de São Bento, no Rio Grande do Norte – taças inquebráveis, sanduíches carinhosamente preparados na noite anterior, mix de castanhas e frutas. Uma caixa de som com bluetooth e celulares para fotografias – modernidade que substituem o toca-fitas à pilha e as câmeras analógicas.

Tirando a ausência de uma integrante do grupo – que levou falta por questões profissionais – e a minha playlist que não rolou, porque meu celular não reconheceu a caixinha de som, tudo estava em sintonia com o universo. As amigas logo providenciaram outras seleções musicais.

Toalha estendida, piquenique iniciado, garrafinha do café ou do chá da tarde substituída pelos vinhos bento e rosé. Poses e mais poses para fotos, incluindo até um chapeuzinho de palha (hoje em dia, ninguém escapa da câmera do celular!).

A vista abraçou as sete amigas. A luz calmante do entardecer levou-as às alturas, pássaros planando no céu de inverno potiguar, contato direto e integral com a natureza, abelhas lambuzando-se e zunindo nas flores dos agaves em riste, friozinho aconchegante. Uma bênção e um brinde à vida e à amizade.

Nenhum urso guloso e expert em roubar cestas de piqueniques nos assustou. Formigas em fileira transportavam os restos mortais de um inseto qualquer, sem nos importunar, aguardando, quem sabe, os nossos rastros.

A tarde caiu ligeira. Luzes das cidades brilharam no horizonte. A baixa luminosidade significava perigo em rolar pedra abaixo, melhor nos recolhermos para aguardar a lua em local mais seguro, deixando esse piquenique bendito bem registrado na memória.


Pharrell Williams – Happy

…Because I’m happy
Clap along if you feel like a room without a roof
Because I’m happy
Clap along if you feel like happiness is the truth
Because I’m happy
Clap along if you know what happiness is to you
Because I’m happy
Clap along if you feel like that’s what you wanna do…

Happy – Walk off the Earth Ft. Parachute (música de Pharrell Williams)

Acesse também: Voos largos e Lusco fusco relaxante.

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10 Comentários

  1. Sua idéia foi genial! Muito bom relembrar hábitos que nos remete a infância. O lugar, o clima, as amizades, foi perfeito! E ainda essa crônica descrevendo tudo com muita sensibilidade e charme, jamais esqueceremos!

  2. Mais uma vez essa leitura me acalma, relaxa e me transporto para a serra com que tivesse feito e vivido como parte do grupo. Bom demais! Já na expectativa da próxima… ler é viajar sem sair do lugar!

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