Porteiras do tempo

Ilustração de Andrea Ebert – Visite seu site: www.andreaebert.com

Passei minha infância visitando as fazendas dos meus avós. Aprendi bem cedo a lição da importância do contato com a natureza. A fotografia da infância registra a menina moleca no lombo do boi.

Transitava entre o gado com olhar desconfiado, com medo de vaca parida e touro bravo. Pequenina, era acrescentada à carga do jumento que levava água do açude em seus barris ou, quem sabe, brincando nos caçuás.

Depois ganhei ares de independência, aprendendo a montar sozinha, sem ninguém para puxar o animal. Pernas curtas que não alcançavam o estribo. O jeito era improvisar e prender os pés nas correias dos loros.

Porém, a maior demonstração de independência foi quando consegui abrir uma porteira sem precisar desmontar do animal. Aí sim, ganhei definitivamente ares de amazona, proeza impossível quando me deparava com um colchete; esse, nunca consegui dominar.

A porteira virou símbolo de maturidade. Ainda hoje, adoro fotografá-las, me remetem à infância e à passagem do tempo. Raramente vou à fazenda, mas tenho uma casa na serra, onde posso usufruir o contato com a natureza.

E a vida segue cheia de porteiras, portas e janelas a serem abertas. Às vezes, nos deparamos com alguma incapaz de ser ultrapassada, mas o caminho a seguir reabre em outro espaço, com novas visões, pisando em terra desconhecida e bem mais desafiadora.

Se a dificuldade for grande, abra uma janela, deixe o ar entrar, amplie o campo de visão, avalie a paisagem e o chão que vai pisar, antes de atravessar a porta seguinte. Como nas velhas casas sertanejas, em que a porta dupla cumpria função de arejo, deixe o ar passar por etapas.

A vida é assim mesmo! Um eterno abrir e fechar de oportunidades. Tome as rédeas com firmeza e não tenha receio de abrir trancas, desatar os nós, destravar amarras, desvendar caminhos.

Com segurança na sela, atravesse cercados inteiros, cruze fronteiras, corrija o curso, escolha caminhos; se precisar desviar o percurso, não tenha medo, pode ser um atalho para chegar mais cedo onde espera.


João Cabral de Melo Neto

FÁBULA DE UM ARQUITETO

A arquitetura como construir portas,
de abrir; ou como construir o aberto;
construir, não como ilhar e prender,
nem construir como fechar secretos;
construir portas abertas, em portas;
casas exclusivamente portas e tecto.
O arquiteto: o que abre para o homem
(tudo se sanearia desde casas abertas)
portas por-onde, jamais portas-contra;
por onde, livres: ar luz razão certa.

Até que, tantos livres o amedrontando,
renegou dar a viver no claro e aberto.
Onde vãos de abrir, ele foi amurando
opacos de fechar; onde vidro, concreto;
até fechar o homem: na capela útero,
com confortos de matriz, outra vez feto.

Zeca Baleiro – Quase Nada (Clipe Oficial)

Acesse também: Nadando contra a corrente, Tempo sem se perder de si, Caixas e álbuns de fotografias, Vidas em caixas.

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