Queda do avião em Muriú

Imagem do avião semelhante ao do acidente aéreo

No alto do pequeno morro próximo à casa de veraneio, o menino disputava com os amigos quem avistava mais jangadas na linha verde esmeralda do horizonte.

Confundidas com as marolas de alto-mar, as velas brancas das embarcações enganavam os observadores, mas algumas já descansavam na praia sobre troncos roliços de coqueiros no final da tarde.

Os pescadores separavam o apurado em dois dias de pesca, quando se assustaram com o voo rasante de uma aeronave. 

O pai do menino estava escolhendo peixe fresco para o jantar e sentiu o forte calor sobre sua cabeça.

Para espanto do menino e dos demais frequentadores da praia, a aeronave tocou no mastro da vela de uma jangada, arrancou a copa de um coqueiro e espedaçou-se no chão, seguida de uma grande explosão e uma imensa bola de fogo.

Os moradores e veranistas de Muriú correram para o local do acidente, por trás das casas da Cafuringa.

O menino magrinho botou sebo nas canelas e foi um dos primeiros a chegar. Seu pai também acorreu para tentar salvar alguém. Depararam-se com os corpos carbonizados.

O acidente ocorreu em 10 de janeiro de 1946, época de veraneio, que se estendia do início de dezembro até próximo ao carnaval. 

O mundo acabava de sair da Segunda Guerra Mundial. Os alarmes dos treinamentos militares e os blackouts nem bem finalizaram e a pacata praia de pescadores se assustou com o acidente de um Boeing B-17 Flying Fortress da Força Aérea Americana.

O menino de nove anos olhava espantado para aquele imenso bombardeiro espatifado no chão, com sua tripulação morta e vários pedaços do avião intactos ao redor.

Mesmo sem sobreviventes, o pai do menino decidiu comunicar o acidente às autoridades americanas. Dirigiu seu carro por duas horas e meia até Parnamirim Field.

O acordo entre Brasil e Estados Unidos permitiu a construção da maior Base Aérea americana fora do seu território, justamente em Parnamirim (ainda bairro de Natal), em razão da nossa posição estratégica global.

A Segunda Guerra mundial acabara em agosto de 1945, mas os americanos ainda permaneciam no comando de Parnamirim Field.

O pai do menino foi recebido pelo Comando da Base Aérea e acompanhou o comboio que veio até a praia de Muriú, para fazer o rescaldo do incêndio.

A praia não dormiu naquela noite. Foram mais de oito horas de trabalho de traslado dos corpos e resgate dos destroços da aeronave.

Ainda em janeiro, o pai do menino recebeu uma carta de agradecimento do Coronel Thomas D. Ferguson, Comandante do Corpo Aéreo do Exército Americano, datada em 21 de janeiro de 1946.


Personagens da história

O menino da história é meu pai, Haroldo de Sá Bezerra; o pai do menino, meu avô José Bezerra de Araújo.

O comandante do Boeing B-17 Flying Fortress prefixo 44-83580 era o oficial americano Dale A Mickens, falecido aos 22 anos.

A esposa do oficial americano era Marie J. Jennings Ulseth, falecida em 06 de janeiro de 2021 aos 94 anos.

Meu pai cresceu e viveu temperado pelo sal do mar de Muriú e Jacumã até os seus 84 anos. Faleceu em 17 de janeiro de 2021 em Natal/RN.

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12 comments

  1. Elza, sua escrita nos transfere para o lugar descrito como viajem no tempo. É uma prôsa de poesia comteporânia com pitadas de romances juvenis. Doce, simbólico e Vivo!

  2. Muito bom!!! Eu estive várias vezes em Muriu pra saber dessa história. Sou o curador do Centro Cultural Trampolim da Vitória em Parnamirim, o Fred. Queria conversar mais sobre isso.

    1. Excelente texto, Muriú fez parte da minha vida durante o tempo que morei em Natal, 30 anos aproximadamente, conhecia de nome e de vista seu pai.
      Já até ouvi essa história do avião, mas ler assim com riqueza de detalhes e personagens foi extremamente atrativo e enriquecedor.
      Parabéns você escreve muito bem.

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