Rita, a irreverente roqueira nacional

Uma recém adolescente nas portas do Palácio dos Esportes, driblando o juizado de menores, para entrar no ginásio que, além de receber as disputas esportivas, fazia as vezes de palco para uma capital desprovida de espaços adequados para shows daquele naipe em 1977.

Os olhos quase infantis e inocentes atentos a duas bandas no palco – uma mistura de Tutti Fruti e Refavela que formava a Tuttivela & Refafrutti – acompanhando os vocais de Rita Lee e Gilberto Gil no show Refestança. Uma simbiose perfeita entre o baiano e a paulistana que deixara os Mutantes e começava a se firmar como a irreverente roqueira nacional.

Com um misto de descoberta e admiração, acompanhava a performance daquela figura magérrima, cabelos vermelhos e um macacão de um colorido chamativo (muitos anos depois, descobri que ela comprou o tecido em Paris e sua mãe costurou a peça que está guardada até hoje em seu porão de lembranças).

Conheci Rita Lee Jones (seu nome de batismo depois acrescido de Carvalho) do compacto “Arrombou a festa”, tocado nas vitrolas que animavam os encontros da vizinhança quase toda noite.

Na capa, a cantora de roupa de presidiária (uma sátira à prisão por porte de drogas). A música deboche arrombava a festa, zoando com as celebridades da MPB. No lado B, a Corista de rock, que tem pra valer um ponto de vista que não se limita, de ser ou não ser, e prefere ser os dois.

Depois do compacto, o LP Refestança – gravado durante o show que rodou o Brasil – marcou a decolagem de Rita Lee rumo ao longevo sucesso de mais de 50 anos de carreira.

Porra-louca, irreverente, divertida, rebelde, ousada, dona de um deboche inteligentíssimo, mulher patchwork, vegetariana, amante e defensora dos animais. Uma personalidade poderosa que fez acontecer como mulher, num estilo musical dominado pelo sexo masculino.

A Ovelha Negra paulistana, descendente de americano por parte do pai e de italiana por parte da mãe, deixou de ser mutante, mas a sua carreira é uma metamorfose ambulante na firmação do rock pop nacional. Em quase todo o percurso, Roberto de Carvalho ao seu lado, seu amor-perfeito-muso-parceiro, que lhe deu estabilidade, cumplicidade e os filhos Beto, João e Antônio.

Uma estrada repleta de músicas compostas sob efeito de drogas variadas (ingredientes presentes nas melhores e nas piores), conforme ela mesma confessa em sua autobiografia. Na sua ousada vida, a cantora chegou ao ponto de entrar no Brasil usando um colar de LSD, passando incólume pelo controle da alfândega. Em sua autoanálise, não se culpa de ter entrado nas drogas, mas orgulha-se de ter saído de todas elas.

Rita Lee ainda esteve por diversas vezes na Capital potiguar, tanto a trabalho, quanto a lazer. Imperceptível, vinha desfrutar a companhia do amigo Chico Miséria.

A setentona escolheu se aquietar e morar no mato. Sua casa na Serra da Cantareira é o seu refúgio. Mas ela não fica parada; existe a expectativa de uma música inédita composta por Rita e Roberto, numa pegada mais pop, que pode assustar os amantes do rock.

Sua carreira tem licença para isso, o cabelo prata lua permite. Se por acaso Rita Lee morrer do coração, é sinal que amou demais, mas enquanto está viva, cheia de graça, ainda vai fazer muita gente feliz.

Rita Lee Jones de Carvalho

Enquanto a música inédita não chega, seu filho João Lee lançou nas plataformas digitais três discos “Classix Remix” – uma remixagem dos maiores sucessos da dupla Rita Lee & Roberto de Carvalho.


SAMSUNG ROCK EXHIBITION RITA LEE

Uma exposição histórica desenvolvida pela Dançar Marketing sobre Rita Lee estreiou no dia 23 de setembro no MIS-São Paulo! Com material original selecionado pela própria artista e João Lee, seu filho e curador da exposição, a mostra traz um panorama da carreira e da vida de Rita, uma das artistas mais relevantes e plurais do Brasil, admirada ao redor do mundo.

“Convido você a dar uma espiada nas lembranças que minha mãe guardou dos seus 50 anos trabalhando com música por este mundo afora, quando subia no palco e dividia com o público suas peripécias, cantando e dançando. Tempos inesquecíveis, maravilhosos e divertidos”, diz João Lee.

Composta por centenas de itens originais, entre figurinos e objetos pessoais, a exposição percorre a história da Rainha do Rock em 18 áreas temáticas, com cenografia assinada por Chico Spinosa e direção artística de Guilherme Samora – estudioso do legado cultural de Rita.

Para saber mais, clique aqui: MIS-SP


Dica de leitura: Rita Lee – uma autobiografia


Rita Lee Jones de Carvalho

EGO

Eu, hermafrodita
Da água respirei, a vida
No sangue que bebi, o soro
Nos ares que explodi, em choro
Da gula que comi, a fome
Da fêmea que nasci, homem
Eu me transformei, em mim
Do Deus que duvidei, o sim
Das mortes que vivi, o além
Dos vícios que virei, refém
Dos bichos que sou, felina
Na velha que estou, menina

Rita Lee – “Agora Só Falta Você” (Ao Vivo) – Multishow Ao Vivo
Luz Del Fuego – Rita Lee e Cássia Eller

Acesse também: Não nasci passarinho, Sonhando juntos, e Música e adolescência.

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4 comments

  1. 👏👏👏👏👏👏👏👍👍👍😄
    Como não abdico de ser Jurássica e, portanto, bem anterior à guerra entre os Millenials
    e os Geração Z, continuarei usando emojis… rsrsr…
    Minha Geração é quase a Geração S, de Sobrevida (aqueles que compõem o grupo de idosos que atingiram a expectativa de vida em seu país)… rsrsr… Tenho 73 anos de idade, mas ainda com autonomia.

    1. Denise, vc é contemporânea de Rita Lee e sabe bem o que ela vivenciou.

      Sou da geração seguinte e comentava com meu irmão que levamos vantagem em relação aos Millenials e a geração Z, pq temos versatilidade para transitar entre o mundo analógico e digital, rsrsrs.

      Bom domingo! Abraços

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