Rituais cotidianos

Houve um tempo em que o despertar surgia com as primeiras luzes do amanhecer. E o corpo inerte já levantava-se disposto para o trabalho braçal. Corpo descansado da noite anterior, relaxado nem bem o entardecer anunciava a escuridão.

O progresso chegou e a noite estabelecida abdicou de adormecer o ser humano. A luz postergou o recolhimento noturno, retardou o descanso reparador. Surgiram os aparelhos eletrônicos e a demora em adormecer prolongou-se ainda mais um pouco. Às vezes, por quase toda a madrugada.

Hoje então, o corpo demora a reagir aos primeiros acordes do despertador. Quando se dá conta, levanta-se no automático, sem tempo para o necessário espreguiçar. Passa a seguir novos rituais cotidianos.

Aciona o botão do fogão para o cozimento do ovo, enquanto toma um banho apressado. Liga a cafeteira, enquanto a torrada é posta no grill. Um suco ou leite plastificado é sorvido de um gole. Uma mão na comida e a outra no celular, teclando agilmente, necessidade de nada perder na tela iluminada, a não ser a tranquilidade. Mas esta está desabilitada ou fora de área.

Passos apressados no transporte para o trabalho. Um olho no trânsito e outro no celular, porque relógio de pulso é aparelho em desuso. Adrenalina diária para chegar no horário, em meio à vida corrida. Bater o ponto, trabalhar, almoçar rapidamente e bater a saída. Os franceses sintetizam na expressão “métro, boulot, dodo (metro, trabalho, dormir)”.

Saída do trabalho, trânsito novamente, pegar filho na escola, arrumar a casa, preparar o jantar. Em cada folguinha ou mesmo na ausência dela, o ser humano conecta-se ao mundo por via eletrônica. WhatsApp, Twitter, Facebook, Youtube, Instagram, Spotify, são novos termos incorporados. Bem-vindos ao mundo virtual.

Cabeças curvadas, dedos ágeis, horas e horas na pequena tela iluminada. Relacionamentos virtuais, leituras resumidas, mensagens ligeiras, textos curtos, abreviações, emojis. Quartos fechados, computadores ligados, tempo consumido em jogos eletrônicos, relacionamentos humanos falidos. Socialização esquecida. Necessidade de recarregar.

Serão mesmo novos rituais cotidianos? Pela repetição, padrões e ações comuns, diria que sim. Na contramão, por ser fugaz, efêmero, transitório, volátil, veloz, não tenho tanta certeza, carece da essencial maturação. O tempo dirá…


Acesse também: Efeito polarizado e Pausa para recarregar.


TomChris – Paciência ( Lenine Cover ) (Do Fundo da Alma Ao Vivo)

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13 comments

  1. Muito boa avaliação da nossa vida atual. O avanço tecnológico que nos aproxima da informação e do conhecimento é o mesmo que nos afasta das pessoas. Parabéns Elzinha!😘😘

  2. Estamos tão automáticos quanto os aparelhos usados. E essa mecanização dos atos nos deixam mais solitários e egoístas.
    Faz lembrar o filme de Chaplin- Tempos Modernos.
    Bom texto para reflexão .

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