Ser criativa

Ingá – obra de Selma Bezerra

O Uber parou em frente ao prédio, eu desci do carro e me deparei com um monte de adolescentes, ou recém-saídos da adolescência. Tive vontade de dar uma gargalhada gostosa, mas seria ainda pior, pagaria um grande mico. Deixei pensarem que se tratava de mais uma professora, quando, na verdade, a aluna cinquentinha chegava para uma Oficina de Escrita Criativa, promovida por Belas Artes de São Paulo.

Com essa minha curiosidade e constante vontade de aprender, parece que de tempo em tempo, tenho que dar uma guinada na vida profissional. Entrei na faculdade de Ciências Econômicas antes de completar dezoito anos, me formei aos vinte e um; um pouco antes de completar quarenta e um, conclui o curso de Direito e tornei-me advogada. O ano passado veio a aposentadoria no serviço público. E agora, prestes a completar cinquenta e cinco, estou de volta aos bancos de uma universidade para me debruçar sobre as letras.

Cheguei um pouco adiantada e fiz a credencial: aluna de curso livre da instituição Belas Artes, válida durante uma semana. Pronto, passei pela catraca e retornei ao mundo universitário. As instalações físicas dão uma mostra do que aquela Escola oferece. Móveis modernos e decoração descolada, dignos do espírito vanguardista ali presente. Estudantes de todas as tribos voltadas para a arte. Estava no lugar certo para incentivar minha criatividade.

A sala de aula não destoava das que já tinha frequentado. Sete alunos e duas professoras revezando os seis dias de encontros. Faixa etária dos colegas: entre 24 e 34 anos. E eu ali, no meio deles, me sentindo da mesma idade – quem dita a idade da mente somos nós mesmos, já o corpo, se for bem cuidado, faz a parte dele também, rsrsrs.

Recebemos uma sacola ecológica, um lanche e um bloquinho, onde está escrito o lema de Belas Artes: “A criatividade é a grande riqueza deste século”. Tenho lido e refletido bastante sobre o assunto. Em todas as matérias, uma unanimidade sobre a importância da criatividade no mundo digital. Serão eles, os criativos, que passarão intactos e valorizados na substituição do homem pela máquina.

Mas criatividade não é sinônimo de vagabundagem. Ao contrário, para ser criativo, a pessoa tem que trabalhar muito o seu talento, ser bastante persistente, não desistir diante de supostos fracassos (caminhos para chegar ao resultado final esperado), sair da bolha, pensar fora da caixa e abraçar com coragem a sua produção.

Isso mesmo! Todo artista tem que ser corajoso. Produzir arte é alimentar a alma de todos os elementos possíveis, conectá-los e despejá-los na forma escolhida. É despir-se perante a opinião pública, colocando para fora tudo aquilo que está dentro da mente. Não há espaço para timidez ao produzir uma obra de arte.   

E eu ali, absorvendo os ensinamentos e tomando coragem para ser criativa. Pensando que nunca é tarde para recomeçar e sempre há tempo para realizar. Louca para traçar palavras, colocar para fora tudo aquilo que só digo por escrito. Perder a vergonha, escrever e escrever e compartilhar meus escritos com o leitor.


Mario Quintana

O Autorretrato

No retrato que me faço
– traço a traço –
às vezes me pinto nuvem,
às vezes me pinto árvore…

às vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança…
ou coisas que não existem
mas que um dia existirão…

e, desta lida, em que busco
– pouco a pouco –
minha eterna semelhança,

no final, que restará?
Um desenho de criança…
Corrigido por um louco!

Acesse também: Um novo dia e Voos largos.


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