Sertão noturno

Porque tem dias que a vontade de voltar às raízes bate com força. Saudades do Sertão, Seridó. Sono e sonhos embalados pelo chocalho dos ruminantes…


Casacas de couro chegam aos ninhos vistosos, ecoando de sertão afora um canto inconfundível, avisando o cair da tarde. No poente, o sol derrama um laranja intenso, derradeiro esforço de luminosidade, esmaecendo rapidamente até revelar apenas vultos de serra, de árvores, de gente.

Ao surgir solitária no céu, a melancólica Estrela D’Alva enfatiza a tristeza da hora. As cores esgotam-se na ausência de luz. Os matizes plurais são substituídos pela sombra única. A visão perde sentido para a audição aguçada.

A hora da Ave Maria é reverenciada com o terço diário, entoado em coro defronte aos oratórios das casas sertanejas. Um banho repousante, a ceia noturna e a conversa no alpendre.

A energia elétrica trouxe a televisão e o mundo exterior pôde entrar nos lares rurais. Os conservadores ainda preferem o paleio noturno, alimentando a imaginação amedrontada nas estórias de trancoso. Um filete de lua nova dobra os encantos dos mal-assombros.

Nas casas ainda iluminadas pela luz tremeluzente dos candeeiros, as sombras vagueiam no imaginário, transpassando as meias paredes, criando seres misteriosos.

Do lado de fora, uma noite quase infindável na imensidão, realçada nas estrelas brilhantes, que só o Seridó é capaz de revelar. No mais, tudo é escuridão. Uma trégua merecida para os olhos, cansados da claridade ofuscante do dia.

Em tempo de lua cheia, o sertanejo enche-se de esperança, aguardando a bolandeira – prenúncio de chuva para os próximos dias. Mas se a lua surge reluzente, sem qualquer anel em seu entorno, o jeito é conformar-se com a própria sina e aproveitar o luar nos braços de sua Maria.

Corpos silentes repousam na rede estirada, embalados pelos gemidos dos velhos armadores de madeira. O badalar intermitente dos chocalhos dos ruminantes acalenta o sono restaurador. O espírito ocupa-se dos sonhos que permeiam o inconsciente, almas livres para voos incensuráveis, desejos ocultos, fantasias secretas.

Ao longe, um latido avisa que tem gente em surdina. Se a mortalha rasgar os céus com seu canto, é sinal de mau agouro. O tetéu emite um som característico, mantendo-se em sentinela. O caboré aproveita a escuridão para caçar a sua presa.

Deitada em meu canto, ouço o sussurro do sertão noturno. Silêncio que não se cala.

A cruviana esfria a noite. Uma hora da manhã, o barulho abafado das asas do galo madrugador soa antes do primeiro canto espaçado, até o amiúde, quando é hora de levantar para o serviço.

Corpos despertam antes do amanhecer. Sertanejos madrugam para o trabalho da ordenha. Nos currais, os bezerros reclamam famintos, antes mesmo da alvorada. A noite afasta-se suavemente, pro lado do nascente, com a barra quebrando em tons violáceos.

O orvalho sacia uma terra sedenta. As primeiras horas da manhã são aproveitadas ao máximo, antes que o sol forte fustigue a terra, a pele e a alma do seridoense.

Crônica publicada originalmente no livro Sertão, Seridó, Sentidos.



Wescley Gama

A espera de um aboio
Que me amanhecerá
Como o sol

Sonata ao Luar do Sertão/Brazilian Moonlight Sonata – Tutti & Derico

Acesse também: Sorriso de menino, Caminho da infância, Sabor preservado, Aboiando, Permanente robustez e Wescley Gama, sons, poesias e histórias.

Leia também

3 comments

    1. Muito obrigada! Um sertão que não nos deixa…navegue no menu / livros / sertão, Seridó, sentidos e leia mais sobre essa região em crônicas diversas. Abraço

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *