Sob as sombras das árvores

A chuva veio e encobriu o rio, fez a telha resmungar os dias de sol pleno e calor intenso. Caiu forte, desabou ligeiro e rareou, também, de repente. Deixou no ar um cheiro de terra molhada, de asfalto exalando o mormaço sufocante dos últimos dias. O entardecer chegou mais cedo, tingindo de cinza a cidade marinha.

Carnaval partiu e o ano começou no Brasil! Em terras banhadas pelo mar, o vento resolveu descansar. Árvores em quietude, sem farfalhar, nem balanço sensual, enquanto as copas inertes assimilam as gotas da chuva.

Estrondo de trovão e elas ali, mesclando de verde a concretude de casas e edifícios, assimilando o líquido precioso que lhe traz vida, flores e frutos. E eu as vendo de cima, percorrendo meus arquivos de fotografia, onde estão registrados belos exemplares. 

Tenho fascinação por árvores, são seres vivos por demais fotogênicos. Feito coração de mãe, elas têm raízes bem fincadas; seu nome é feminino por derradeiro. Se lhes falta a água ou alimento, estendem-se até onde encontrá-los, para alimentar seus galhos e crescê-los frondosos. Se lhes podam um galho, faz brotar um novo, mais forte, mais vivo. Crescem na direção da luz, repousam na falta do sol, enquanto trocam energia para nos fornecerem oxigênio, frutos, flores, sustento, sombras e histórias.

Árvore – Animação de Andrea Ebert

Quando menina, brincávamos em galhos fortes, sem medo de queda. Nada mais divertido do que um balanço improvisado. No umbuzeiro da fazenda de meus avós paternos, minha prima caiu e bateu a cabeça com força no grande seixo rolado, ganhou uma cicatriz para marcar suas peraltices.

Nada traumático, porque criança sabia subir, descer, apanhar frutas e esconder-se sob a copa das árvores, mas não estava imune à queda, corte e, até, um braço quebrado. Era parte da infância junto à natureza, que foi uma constante em minha vida.

Junto às grossas paredes do curral, um juazeiro fornecia o fruto para guerra da criançada – só depois soubemos das propriedades adstringente e antisséptica de sua casca. Fruta se comia apanhada do pé, no ponto certo da maturação, exalando cheiro e sabor. Goiabas com bichos, jambeiros colorindo o chão, castanhas extraídas da polpa travosa dos cajus e assadas na hora, em latas sobre uma trempe improvisada. Voltávamos para casa com as unhas tisnadas, mas cheios de energia para mais brincadeiras.

Passados os anos da menina sapeca, uma viagem em busca de duas cajazeiras centenárias rendeu um suco saboroso, inigualável e uma crônica para meus leitores: Macambira e cajás completará um ano e já pensamos em repetir a dose.  

Mas não são somente as fruteiras que me fascinam. Observo boquiaberta o renascer da caatinga. Árvores adormecidas, cinzentas, despidas de folhas, quase mortas, enfrentam resistentes a seca severa. Bastam as primeiras gotas de chuva para fazer brotar um verde novo nos galhos desnudos, vários tons colorindo e reverberando o sertão. Uma capacidade inacreditável de renascer das cinzas.

Admirando as árvores antigas, lembro-me da velha matriarca abraçando seus filhos (não é à toa que se utiliza o termo árvore genealógica para representar a família e seus descendentes). Dizem que o ser humano precisa ter filhos, escrever um livro e plantar uma árvore. Já me encarreguei das três funções. Tive um filho e uma filha maravilhosos, escrevi livros (continuo nessa minha sina) e plantei árvores.

Da última vez, recolhi as sementes de uma palmeira rabo de raposa, sequei-as em casa, plantei-as em pequenos vasos, reguei-as, adubei-as e levei-as para transplantá-las na casa da serra, juntamente com outras fruteiras ali plantadas.

Quem sabe um dia meus netos e netas brincarão sob a sombra das árvores, repetindo as minhas brincadeiras de infância, fazendo renascer a cultura da criança!


Confúcio

Se quiser ter prosperidade por um ano, cultive grãos. Por dez, cultive árvores. Mas para ter sucesso por 100 anos, cultive gente.

E porque hoje é dia internacional da mulher, acesse: Memórias Roubadas, Tarsila Popular, Frida Kahlo, Cinco mulheres e uma viagem, Bicho esquisito, Entrevista com Gracita Lopes, Entrevista com Palone e Prêmio Pritzker de Arquitetura, posts que envolvem mulheres e suas histórias no mundo.


The Power of Trees – Artur Homan e Saturnina Homan

As Árvores – Arnaldo Antunes e Jorge Benjor

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2 comments

  1. Esse lindo texto relembra parte da minha infância. Morei 6 anos em um sítio, nada melhor do quê ter à mão uma variedade de árvores e seus frutos/flores maravilhosos.
    Conseguir subir o mais alto possível, toda aquela liberdade não tem preço.
    Parabéns por ativar minhas boas memórias e pelo novo lay-out do blog.

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