Sorriso de menino

Chegando à casa do seu bisavô, sede do esplendor de antanho, quando o Coronel José Bezerra guiava as rédeas do seu povo, buscou no velho limoeiro sinais de uma fotografia antiga, secular, na qual a família reunida deixava sua identidade para as gerações vindouras.

O tambor e a caixa azuis de plástico são os únicos sinais de modernidade, contrastando com as marcas que o tempo impregnara na casa malcuidada. No alpendre estreito, assentado nas pedras cuidadosamente perfiladas em um alicerce sólido, apenas um banco tosco e duas cadeiras sob a janela. Nenhum sinal das conversas que alimentavam os temores da noite e preparavam o sono dos moradores.

Casa da Fazenda Aba da Serra, Currais Novos/RN

Duas janelas e duas portas duplas arrematavam a fachada da casa, abrigada sob duas águas cobertas de telhas fornidas, que começam a quebrar a resistência das ripas enfraquecidas. No telhado, o xiquexique encontrara um solo fértil para vicejar. Dois tempos em um só lugar.

Entrando na casa, a tristeza pelo abandono fez-se presente. Nada lembra o movimento de outrora. Na sala ampla e nos demais cômodos, os velhos armadores de madeira, fincados em paredes sólidas, silenciados do embalo das redes.

Uma escada estreita leva ao sótão, cuja porta, incapaz de resistir à ação do tempo, foi substituída por uma cortina improvisada que oscila à mercê do vento, deixando traspassar uma luz fugidia. De viés, pode-se vislumbrar a serra que batizou o lugar, permanentemente embelezando os olhos contemplativos de hoje e de outrora.

Na cozinha, as paredes tisnadas pelo suspiro do fogão a lenha não absorvem mais os aromas dos sabores peculiares. A janela, estrategicamente debruçada sobre o curral contíguo, recebe o leite recém-ordenhado; mas, no quarto de fazer queijo, há muito os grandes tachos sumiram sem deixar uma raspa sequer.

Melhor continuar a viagem em busca de novas paragens. Destino certo, na procura de um lugar sagrado. Dali, só se alcança a pé ou a cavalo; carro não chega lá. A informação é de que distam uns cinco quilômetros – medição em légua é coisa do passado.

Retornou à estrada com ar melancólico, descontentamento por uma nova geração privada dos antigos costumes do Seridó. Incerto quanto ao caminho, tinha a Serra do Chapéu a guiá-lo, com as abas cobrindo de verde as terras do Coronel.

Não foi difícil de achar. A várzea do rio corta as serras da região e, de longe, avistam-se os sopés que dão nome ao local: Apertados. Seguiu de carro até encontrar o leito arenoso do rio, as águas correndo tranquilas, lentamente.

A paisagem é arrebatadora. Confluência das serras abrindo passagem para o curso das águas, que vão, paulatina ou vigorosamente, esculpindo e polindo as pedras que o reverenciam. No alto das margens, brota entre as frestas as rochas a macambira de flecha empertigada. O xiquexique e o mandacaru tomam o prumo do céu, realçando a beleza sertaneja.

Apertados – Currais Novos/RN

Pôs os pés em contato com o líquido translúcido. Descalço dos anos que o separavam da infância, caminhou extasiado. Tomou o sentido oposto à corrente, desbravando o interior, no sentido da Paraíba. Embevecido, nem percebeu o tempo passar. Viu o Picuí estreitar-se, alargar-se, curvar-se, apertar-se, cantar entre as cachoeiras de pedras.

Aqui e acolá, as sombras das algarobas, do mulungu, da jurema, debruçadas sobre o leito do rio vivo. Viu as rochas que não resistiram à força das chuvas e desabaram do alto. Vã tentativa de deter o curso das águas: trouxe-lhe novos encantos e quanta imponência!

Cânion dos Apertados, Currais Novos/RN

Aflorou, na face do seridoense de coração, o sorriso do menino acostumado a banhar-se livre nos rios de Ceará-Mirim, iluminado pela maravilha sempre presente, mas que levou setenta e dois anos para ser descoberta.

Na volta para casa, a promessa do regresso. O êxtase levou para longe a saudade da Aba da Serra, afastada pela alegria contida, mas denunciada no espírito de criança que cada qual traz dentro de si.


Dominguinhos – Riacho do Navio

Acesse também: Alma renovada, Caminho da infância e Fazenda em festa.

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2 comments

  1. Caríssima Elza,
    Estou encantada com a poesia dos seus textos e fotografias. Obrigada por dividir conosco um trabalho tão delicado e profundo.

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