Tarsila Popular

O Touro - Tarsila do Amaral

Tarsila do Amaral

Encontrei em Minas as cores que adorava em criança. Ensinaram-me depois que eram feias e caipiras. Segui o ramerrão do gosto apurado… Mas depois vinguei-me da opressão passando-as para minhas telas: azul puríssimo, rosa violáceo, amarelo vivo, verde cantante, tudo em gradações mais ou menos fortes conforme a mistura de branco. Pintura limpa, sobretudo, sem medo de cânones convencionais. Liberdade e sinceridade, uma certa estilização que adatava a época moderna. Contornos nítidos, dando a impressão perfeita da distância que separa um objeto de outro“.

Ainda adolescente, tive um caderno com a capa do “Abaporu”. Não tinha qualquer conhecimento sobre a criadora e sua criatura, mas as formas e cores me impressionaram desde então. Hoje, eu e minha filha tivemos a oportunidade de apreciar o quadro ao vivo e a cores. Ficamos extasiadas.

O Museu de Arte de São Paulo – MASP – reuniu 92 obras da artista plástica Tarsila do Amaral, figura marcante do movimento modernista no Brasil, dando ênfase ao “popular”, manifestado através das paisagens do interior ou do subúrbio, da fazenda ou da favela, povoadas por indígenas ou negros, personagens de lendas e mitos, repletas de animais e plantas, reais ou fantásticos.

Logo na entrada, encontramos os retratos, da própria Tarsila, de Oswald de Andrade (seu segundo marido) e de Mário de Andrade. Estrategicamente posicionados estão o “Autorretrato” (Manteau rouge, 1923) e “A Negra” (1923), que retrata uma ex-escrava da fazenda da família da artista, nos quais se nota a semelhança da posição da mão e do braço direito das duas figuras.

Seguimos imersas na paisagem rural, nas imagens de ferrovias, trens, bondes e na tecnologia dos anos 1920, tudo em geometria elementar.

As cores vão ganhando vida e formas até explodirem em “Carnaval em Madureira”, depois que a artista visitou o Rio de Janeiro, onde passou o carnaval e conheceu uma réplica da Torre Eiffel que chegava a 18 metros de altura, construída pelo comerciante e cenógrafo de coretos José da Costa como forma de promover as festividades do carnaval de rua de 1924.

Carnaval em Madureira - Tarsila do Amaral
Carnaval em Madureira – Tarsila do Amaral

Transitar pela exposição é um deleite para os olhos. O Rio de Janeiro inspira ainda os quadros “Cartão-postal” (1923) e “Morro da Favela” (1924). Nas obras “Romance” (1925), “Religião Brasileira” (1927), “Manacá” (1927) e “A Boneca” (1928) encontramos o rosa violáceo, citado por Tarsila.

Manacá – Tarsila do Amaral

Passamos pela fase social, fruto de seu casamento com o psiquiatra paraibano Dr. Osório César e sua viagem à URSS e outros países da Europa, terminando em Paris, onde viveu dias de operária.

Operários – Tarsila do Amaral

Chegamos ao ápice da exposição. Na sala ao fundo, depois de percorremos as demais, encontramos as obras “A Feira” (1924), “A Cuca” (1924), “Urutu” (1928), “Antropofagia” (1929) e o famoso “Abaporu” (1928), com as paletas vivas de Tarsila de azul puríssimo, rosa violáceo, amarelo vivo e verde cantante.

Abaporu - Tarsila do Amaral
Abaporu – Tarsila do Amaral

Em contraponto à capital paulista, enevoada, cinzenta, dominada pelos pretos em suas vestimentas, encontramos uma interiorana, nascida na Fazenda São Bernardo, em Capivari, interior de São Paulo, autêntica representante da oligarquia cafeeira paulista, que soube tão bem representar as cores da brasilidade em suas obras.

Antropofagia – Tarsila do Amaral
Urutu – Tarsila do Amaral

Descobri, finalmente, a essência do Movimento Antropofágico dos anos 1920, que propunha a digestão de influências estrangeiras, como no ritual canibal (em que se devora o inimigo com a crença de poder absorver suas qualidades), para que a arte nacional ganhasse uma feição mais brasileira. Parabéns aos MASP por nos proporcionar a apreciação dessa extraordinária pintora brasileira.


Maternidade – Tarsila do Amaral

Entrevista Revista Veja (23/02/1972) – Leo Gilson Ribeiro

O famoso Aba-Puru partiu daí?

Tarsila: Não, eu quis fazer um quadro que assustasse o Oswald, sabe? que fosse uma coisa mesmo fora do comum. Aí é que vamos chegar no Aba-Puru. Eu mesma não sabia por que que eu queria fazer aquilo… depois é que eu descobri. O Aba-Puru era aquela figura monstruosa que o senhor conhece, não é? a cabecinha, o bracinho fino apoiado no cotovelo, aquelas pernas compridas, enormes, e junto tinha um cacto que dava a impressão de um sol como se fosse também uma flor e ao mesmo tempo um sol e então quando viu o quadro o Oswald ficou assustadíssimo e perguntou: Mas o que é isso? Que coisa extraordinária! Aí imediatamente telefonou para o Raul Bopp, que estava aqui, e disse: Venha imediatamente aqui que é pra você ver uma coisa! Aí o Bopp foi lá no meu atelier, ali na rua Barão de Piracicaba, um solar muito bonito que meu pai tinha comprado recentemente, o Bopp assustou-se também e o Oswald disse: Isso é como uma coisa como se fosse um selvagem, uma coisa do mato, e o Bopp foi da mesma opinião. Aí eu quis dar um nome selvagem também ao quadro, porque eu tinha um dicionário de Montoia, um padre jesuíta que dava tudo. Para dizer homem, por exemplo, na língua dos índios era Abá. Eu queria dizer homem antropófago, folheei o dicionário todo e não encontrei, só nas últimas páginas tinha uma porção de nomes e vi Puru e quando eu li dizia homem que come carne humana, então achei, ah, como vai ficar bem, Aba-Puru. E ficou com esse nome.


MASP – Tarsila Popular, curadoria de Fernando Oliva e Adriano Pedrosa. Em cartaz de 05/04 a 20/07/2019, em São Paulo/SP.


Lina Bo Bardi

“O Museu de Arte é dedicado ao público em massa, não se dedicando portanto a colecionar somente ‘obras-primas’, não obstante conte em suas coleções com obras de importância; não é um Museu de Arte Antiga nem um Museu de Arte Moderna – é um Museu de Arte.”

Leia também

2 comments

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *