Tempo sem se perder de si

Ela foi se formando com o passar dos anos. Uma hiperpigmentação de quem já passou dos cinquenta na cidade do sol. Tentei retirá-la, por duas vezes, com o auxílio do laser em consultório dermatológico. Do lado esquerdo do rosto, a mancha é renitente; daqui não saio, daqui ninguém me tira. Alguém me chamou a atenção: ela tem o formato de um coração. Tomei uma decisão, deixei os dois marcarem o compasso da minha vida.

Basta um sorriso mais demorado, uma contrariedade ou mesmo uma indignação, para as linhas se expressarem na mais natural demonstração do estado de espírito ou da idade. Muitos preferem chamá-las de rugas – que palavra mais indiscreta!

São marcas estáticas e dinâmicas de quem percorre uma longa estrada. E os sulcos são diferentes; alguns mais leves e outros bem mais profundos, a depender das pelejas de cada ser.

Com tantos tratamentos estéticos, alguns preferem deletar as reações da pele ou quem sabe suavizá-las, por vez, paralisá-las. É direito de todos a escolha entre mostrar ou não as expressões da idade. Independente da aparência, internamente as alegrias e tristezas da vida ficam registradas no corpo.

Quando criança, as brincadeiras de ruas deixaram muitos joelhos ralados, unhas topadas, cicatrizes de quedas, ossos remendados – sinais de quem soube aproveitar a alegria da infância na rua. O tempo encarregou-se de apagá-las. As mais profundas permanecem como ensinamento. Pois a vida é assim mesmo; a dor ensina a gemer.

Tentando aprimorar meus dotes culinários, comprei uma luva bem resistente às altas temperaturas. Na hora da compra, dois tamanhos disponíveis: um curto e outro longo. Achei a longa exagerada e optei pela mais curta. Fui retirar uma placa do forno com o auxílio do meu novo utensílio de cozinha, a grelha bateu na pele e a queimadura deixou uma marca logo depois do cano da luva curta. A mais longa não tinha nada de exagerada, era a opção correta para quem manipula placas no forno. Aprendi rápido e troquei o tamanho da luva, mas a cicatriz permanece lá para registrar o aprendizado.

As marcas e cicatrizes cumprem uma missão secular. Registram o abrir e fechar das janelas da alma na passagem das coisas que nascem de outras, enroscam-se, desatam-se, confundem-se, perdem-se, enquanto o tempo vai andando sem se perder de si; palavras de Machado de Assis.

Nessas andanças, as cores mudam, os cabelos ganham novas texturas e nuances, num suave dégradé até o branco se instalar em definitivo. Tentativas de preservar a originalidade, mudar o tom, abrir, fechar, iluminar. Os mais corajosos, principalmente as mulheres, andam a preferir a liberdade, no corpo, na alma e na cabeça. Assumem os fios brancos e dão um grito de emancipação; sinais inexoráveis de uma trajetória de vida.

Ainda estou acovardada, tentando disfarçar em tons e mil tons na cabeça.

Mas onde fica o olhar? Em tempo de pandemia, está com o ar mais realçado do que nunca. As máscaras escondem o sorriso, mas os espelhos da alma transparecem todos os sentimentos, revelados no brilho certo a cada instante.


Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa), em “O Guardador de Rebanhos”

O MEU OLHAR

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás…

E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem…
Sei ter o pasmo essencial

Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras…
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo…

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender…

Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…

Eu não tenho filosofia; tenho sentidos…
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar…

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar…

Mário Quintana

Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso

Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)

E talvez de meu repouso…
(Trecho do poema O MAPA)
Patricia Marx & Seu Jorge – Espelhos d’Água

Acesse também: Celebrando a vida, Camuflagem, Voos largos e Pausa para recarregar.

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