Tiradentes e uma vila russa

Quem escolhe como destino turístico a cidade de Tiradentes, em Minas Gerais, vai se surpreender a cada esquina, ou a cada telhado, se a história começar de cima para baixo. Eira, beira e tribeira representavam o poderio econômico dos proprietários dos casarios. Podia ser também sem eira, nem beira, mas aí o desafortunado não tinha literalmente nada no bolso.

Praça de Tiradentes

A arquitetura colonial é preservada nos casarios, casas, igrejas e museus da cidade, além das fazendas da região. O chão de pedras continua como foi assentado, fazendo o carro trafegar devagar, enquanto range o sistema de amortecimento. Melhor caminhar por entre as ruas e ruelas, absorvendo a sua história, voltando no tempo onde o ouro dominava as minas gerais, reluzia nas igrejas, escoava para Portugal e de lá era entregue de mão beijada aos ingleses.

Esgotadas as minas de ouro, a pecuária assumiu os pastos e trouxe o sabor do leite para os queijos. A goiabada encontrou seu eterno companheiro e o pãozinho de polvilho sai quentinho para acompanhar o café passado na hora. Tutu à mineira, feijão tropeiro, baião de dois, porco na pururuca, frango com oro-pro-nóbis e tantas outras delícias festejam a hospitalidade mineira. As mãos das doceiras garantem a sobremesa de uma culinária que tem cheiro e sabor de fogão a lenha.

Mas para falar em culinária, temos que começar pela ferramenta indispensável a todo grande chef de cozinha: a faca. Numa das visitas que fiz a Tiradentes, a convite de uma amiga, descobri o Atelier de Artes e Ofícios Burza.

Com visita agendada, fomos recepcionados pelo proprietário Woldy Zacarowyskini – Russo (seu apelido) soa mais fácil. Filho de cossacos que dominam o ofício há nove gerações, desde 1692; ele veio para o Brasil em 1951, instalou-se na cidade de Castro, no Paraná, e depois montou uma cutelaria em São Paulo. Surtou um dia com o trânsito infernal da capital paulista e decidiu levar a fábrica para Tiradentes.

Encontrou na cidade histórica mineira o espaço ideal para continuar a sua história. Decidiu construir uma réplica de uma vila russa do século XVII, onde instalou a ferraria, a marcenaria, a loja e a casa de morada. Sua filha Misha dá continuidade aos negócios, representando a 10ª geração familiar.

A construção da vila recebeu a interferência manual de sua esposa, Dona Zharya. O mestre contratado queria deixar o piso todo certinho; não satisfeita com o serviço, ela assumiu a função, fixando manualmente cada pedacinho do mosaico para dar a rusticidade que a réplica exigia. O resultado é uma atração extra no Atelier de facas artesanais Burza, um verdadeiro museu das peças ali produzidas com todo esmero.

Russo nos explicou cada um dos diversos modelos de faca por ele produzidos. A conversa fluiu e terminou na culinária nordestina. Nos prontificamos a enviá-lo uma boa peça de carne de sol.

A promessa foi cumprida e ainda retornei outra vez à cutelaria. De lá, partimos para descobrir a culinária e o artesanato mineiro, mas isso é assunto para um outro post.


Cutelaria Burza – Facas Artesanais

Acesse também: Officina della Bistecca, Sabores da terra, Reinventando a cozinha e Herança saborosa.

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4 comments

  1. Estivemos em Minas a uns 3 anos. Ah se tivesse sabido deste atelier na ocasião. As peças são verdadeiras obras de arte. E o lugar nem se fala. Tiradentes abriga um museu dedicado a nossa padroeira Sant’Ana. Linda cidade

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