Um domingo diferente

Acordamos cedo e saímos de Serra de São Bento com destino a Lajes Pintadas, para assistir à prova D3S Bike Race, organizada por RN100 Sports. Carro acelerado, porque o motorista é ciclista e, mesmo sem participar da prova, recuperando-se de um calcanhar fraturado na iniciação ao stand up, não quer perder a passagem dos atletas na Ladeira da Piaba, em Serra Verde, trecho mais difícil do percurso.

O verde novo alegrando o olhar, pincelado de branco pelo nelore comendo solto a fartura do pasto que chegou com as chuvas constantes dos primeiros meses de 2020. Se fosse assim todo ano…

Guiados pela trilha marcada no GPS, fomos até o ponto de apoio após a difícil ladeira. Carro estacionado, seguimos a pé. Eu, iludida, pensando que a ladeira estava bem próxima ao lugar onde deixamos o veículo. Nem sequer levei uma bateria extra para câmera fotográfica, achando que seria bem ali.

Henrique Cirne, meu marido, andava acelerado, pisando no chão irregular, sem ligar para a fratura. Eu, com olhar de fotógrafa, fui me distraindo com a paisagem, clicando o verde que inundava o olhar. De repente, o perdi de vista, continuei o caminho seguindo as marcas da prova no chão.

Caminhava sozinha no terreno acidentado, sentindo o cheiro do mato molhado, vendo o baile das borboletas alegres com a nova estação, pisando no chão encharcado, observando o gado no cercado. Um motoqueiro passa por mim e indago sobre um homem de camisa verde que seguia apressado. Me disse que já estava longe, próximo das algarobas lá no alto e recebo um aviso: cuidado que tem gado brabo no caminho. Era só o que me faltava, levar carreira de vaca parida e touro bravo nessa altura da vida!

Sigo por 1,5km, atenta ao barulho do chocalho, até encontrar Ivo, o fotógrafo oficial dos eventos de ciclismo. Decido ficar ali com ele, porque perdi Henrique de vista, que preferiu assistir à passagem dos competidores ao pé da ladeira.

Os ciclistas começaram a surgir. Estávamos no final da subida e testemunhamos o esforço extremo, tanto físico, quanto psicológico. Muitos conseguiram subir pedalando, outros tiveram mais juízo e empurraram a bike até o topo. Melhor escapar vivo, do que sair morto de uma competição. Vendo as faces esgotadas, indago até que ponto vai o desafio do ser humano (na verdade, um pouco da loucura de cada um).

Loucura vomitada nos comentários dos atletas. JP Saraiva passou por mim e disse que ia ficar calado, para não ouvir a minha réplica, como no Desafio da Serra no ano anterior. “Oh sofrimento”, “minha alma ainda não voltou para o corpo”, “vendo a bike bem baratinha, se não tiver comprador, dou de graça”, “estou com nojo da bicicleta”, são alguns pensamentos que vêm à cabeça diante do esgotamento físico. Muitos pedalam em silêncio, não têm força para mais nada, muito menos para falar. Guardam energia para a finalização da prova.

As várias categorias passando e eu ali, só clicando. Quando meu filho surgiu, veio junto um pelotão de homens empurrando; alívio para o coração de mãe (pelo menos não corre o risco de uma exaustão). Depois surgem as primeiras competidoras em pleno dia internacional da mulher, fortes e guerreiras, seguindo firmes, sem precisar empurrar a bike.

Henrique sobe a ladeira de volta, bem suado, diante do esforço com o pé machucado. Começamos a retornar e eu dizendo que aquele percurso entrava para meu caderno de contabilidade. Depois de eu passar por uma cirurgia, era o primeiro dia liberado para atividade física e encontro logo uma caminhada em terreno tão acidentado. Caminho mais alguns metros, deixando os ciclistas passarem ao lado, mas termino pegando uma carona na garupa de Ivo até o lugar onde o carro estava estacionado. Melhor não facilitar!

Na estrada de barro, a organização recolhia as garrafas de água, esvaziadas por atletas sedentos, respeitando o meio ambiente, indispensável para quem pratica mountain bike.

Voltamos à rodovia e seguimos na direção de Acari. Queria retornar ao rio da fazenda Ingá, onde brinquei quando criança e não o via correr há muitos anos. Molhei meus pés na água corrente e seguimos para ver o Gargalheira tomando água. Uma multidão teve a mesma ideia. Fotografei o açude e retornamos para um almoço em Currais Novos.

Lá recebemos a notícia que meu filho se machucou numa queda e não pôde concluir a prova. Braço e corpo arranhados, recebeu prontamente o atendimento do pessoal de apoio da prova e voltou para Natal. Graças a Deus passa bem, mas o corpo ainda está todo dolorido e ganhou marcas para sua história pessoal de ciclista.

Antes de voltarmos para casa, ainda fomos ver a sangria do açude Dourado, em Currais Novos, depois de um domingo diferente, percorrendo trilha no mato, acompanhando ciclistas e seguindo o rastro das águas no Seridó.


Confira o resultado da prova D3S Bike Race em www.apcrono.com.br


The Beauty Of Mountain Biking 2016 | IcompilationTV

Acesse também: Desafio da Serra, Motorista de Ciclista, Minha in(A)miga, a bicicleta, Mont Ventoux – parte I e Mont Ventoux – parte II.

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