Um novo dia

Nascer do sol sob a rede de um gol

Hoje é um dia especial para mim. Depois de mais de trinta anos de serviço público, dei meu último dia de expediente. A partir de segunda-feira (toda segunda é uma nova semana – no meu caso, uma nova etapa de vida) estarei de licença prêmio e, na sequência, uma programada aposentadoria.

De qualquer forma, ainda posso me arrepender no caminho, porque só quem tem ideia fixa é louco e, como nosso eterno maluco beleza, eu quero ser uma metamorfose ambulante.

Deixo no meu carimbo, uma vida profissional pautada na certeza de que cumpri com responsabilidade o meu papel. Até poderia ter aprimorado aqui ou acolá, como na finalização de um conto, de uma pintura inacabada, em que sempre achamos que podemos fazer um pouco mais.

Até então, tenho absorvido e explorado muito mais o meu hemisfério esquerdo, trabalhando com a lógica e deixando de lado as emoções. A partir de hoje quero aproveitar a ausência dos limites do corpo para uma guinada radical (enquanto há tempo).

Recebi muitas mensagens dos amigos plantados ao longo do caminho. “Talvez você seja muito jovem para parar de trabalhar, pode se arrepender depois”. Sem porteira fechada, mas com convicção, digo que ainda quero aproveitar meus anos fazendo o que der na telha, literalmente. Ter tempo para um encontro casual com os amigos.

Colocar o fone de ouvido e deixar os acordes das músicas prediletas penetrarem a alma. Enxergar o dia ou a escuridão com novos olhos, nova lógica – ou ilógica, pura emoção. Fazer um detox de toda burocracia que me dominou nos últimos anos.

Deixar os sentimentos aflorarem em velhas e novas letras, cores e formas desconhecidas. Plantar e colher nas leituras, músicas e sons um jardim de silêncio e paz. Curtir com o marido, os filhos de cuca legal e os amigos da vida a paz da minha casa de campo.

No fim do ano, sentir o nascer do sol e a força do verão revigorar-me para mais um ano de novas descobertas ou mesmo de reinvenção. Nem que seja para, no final, descobrir que não somos nada diferentes de como foram nossos pais.


Pedro Mariano cantando “Casa no Campo” com sua mãe, a eterna Elis Regina. Música escrita por Zé Rodrix e musicada por Tavito.

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