Uma Páscoa diferente

Quando eu era criança, costumava passar a Semana Santa na fazenda, aproveitando o verde trazido pela estação das chuvas. Família reunida, os insetos rodopiando ao redor das lâmpadas, as moscas exigindo cuidado, o coaxar dos sapos e as conversas do alpendre no Sábado de Aleluia, depois de malhar o Judas e comentar os roubos de galinha.

No dia seguinte, a criançada acordava cedo para a brincadeira preferida do Domingo de Páscoa: procurar os ovos de chocolate que os pais tinham escondido em pontos estratégicos do terreiro. Tarefa fácil para quem estava acostumado a encontrar os ovos verdadeiros das galinhas poedeiras. Repeti a brincadeira na infância dos meus filhos.

Páscoa era sinônimo de verde, que traz esperança e renovação. Esse ano, no feriado religioso, seguimos para Serra de São Bento, para fazermos companhia a minha sogra e duas primas que estão confinadas, mas abraçadas pela bela vista.

Fomos recepcionadas por um Judas por elas fabricado, criatividade sobrando em tempo de isolamento. No Sábado de Aleluia, o meu encontro com Deus aconteceu ao cair da tarde, observando e sorvendo a natureza do lugar. Hora de paz, reflexão, gratidão e pedido de Graças. Sempre preferi rezar junto à obra maior do Criador.

A luz propícia à fotografia, o silêncio mudando de dono, o trinar dos pássaros trocando de lugar com as cigarras, os sapos e as pererecas. No horizonte, o reflexo do Sol parecendo os raios da imagem de Jesus Misericordioso, como comentou uma amiga.

Não satisfeita com a overdose de bênçãos recebida no dia anterior, despertei antes do Sol. Quis testemunhar o dia raiando e fotografar o renascimento da natureza.

Postei-me no mesmo lugar do entardecer e tentei capturar cada momento divino. A luz revelando pedaços de chão após o recolhimento da noite. Frações de segundo modificam a paisagem, revelando surpreendentemente uma Pedra da Boca iluminada. Privilégio para o olhar dos que cedo madrugam. Natureza revigorada após o merecido descanso.

Penso no recolhimento imposto à humanidade. Tempo de aprendizado, menos ter e mais ser, uma Páscoa diferente, sem ovos de chocolate e tantas outras coisas, com muito mais vontade de estar junto. Para muitos, um jejum que pode demorar a passar, enquanto encontram uma forma de se reinventar.

Mais do que nunca, é hora de renovação, de amor ao próximo, de seguir os ensinamentos do Senhor. Tento capturar o nascimento desse novo dia, rezando para que a humanidade renasça fortalecida após esse momento.

O verde inundando o olhar, trazendo a esperança de um mundo melhor. Feliz Páscoa a todos!


Bolero (Maurice Ravel) – London Symphony Orchestra, regência Maestro Valery Gergiev

Acesse também: Serra de São Bento, Noite na Serra, Piquenique e Um Domingo Diferente.

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2 comments

    1. Oi Kaká! Ainda é tempo de renovação, fico feliz em mexer com sua sensibilidade (sempre tão evidente), mas o confinamento faz as emoções aflorarem ainda mais. Muito obrigada e beijo de saudade!

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