Vamos falar de trovão

Esse ano, o inverno está diferente. Por aqui, chamamos inverno a estação das chuvas, que inicia ainda em dezembro, lá pras bandas do Maranhão e Piauí, vem descendo no mapa, passa pelo Oeste do nosso Estado – o Rio Grande do Norte –, depois pelo Seridó até chegar mais forte ao litoral, em meados de abril.

Fazia muito tempo que não escutava o retumbar dos trovões. Há alguns dias, com certa timidez, eles deram o ar de sua graça, mas, essa madrugada, chegaram forte reverberando o som da natureza com toda potência, a eletricidade explodindo em raios que fizeram nossos aparelhos elétricos reclamarem a luz dos relâmpagos.

O estrondar foi tão forte e assustador, que mesmo os corajosos se recolheram à cama (estou nessa categoria, amo a claridade dos relâmpagos, seguida do estrondo do trovão, me faz lembrar a invernada no sertão). Acho que estava no epicentro da explosão, medida que se tem ao vislumbrar a rapidez da descarga elétrica do relâmpago e o tempo do pipocar do trovão, mais lento e mais barulhento.

A chuva correspondeu parcialmente ao estrondo exagerado, sinal que o aquecimento na atmosfera está em evidência, chocando-se com a necessidade do resfriamento dos ânimos. Estamos todos em ebulição, em estado de suspense, aguardando qualquer modificação para descarregarmos um raio de esperança.

E a chuva traz esperança! O dia amanheceu meio preguiçoso com a cidade nem bem acordada, um tanto quanto adormecida; muitos recolhidos aos lares. Em meio à tempestade de informações, a natureza ressurge exuberante. Como dizia Raul Seixas, a chuva voltando para Terra traz coisas do ar.

Enquanto muitos buscam respirar com a ajuda de aparelhos, a Terra respira melhor com a drástica redução dos gases de efeito estufa. Os canais de Veneza voltaram a exibir águas transparentes, a desaceleração permite ouvir o canto dos pássaros, as árvores crescem livremente, uma parada para o ressurgimento, uma mudança de hábito.

Alguns teóricos já preconizavam a necessidade de uma revolução que favorecesse o trabalho em casa, reuniões por videoconferências, jornadas semanais mais breves ou horários de trabalho alternados para reduzir o tráfego. Em 2020, a revolução instantânea pegou o mundo de surpresa, tem nome e foi provocada por uma doença, aproximando-se da teoria de Thomas Malthus.

Vamos falar de trovão e esperar que a tempestade traga como bonança uma nova forma de pensar e agir da humanidade.


Medo da Chuva – MAGUJAM (Raul Seixas – Cover)

Acesse também: Tempo de aprendizado, O vírus que muda o comportamento social e Museus em passeios virtuais.

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