Voos largos

Foto de obra de arte francesa

Ociando. Gramaticalmente falando, será que o verbo ociar pode ser resgatado do latim? De todo jeito, é como estou me sentindo. Acordando sem o barulho insistente e irritante do despertador. Levantando, sem pressa, para uma caminhada matinal, testemunhando o despertar de uma cidade.

A luz das primeiras horas da manhã tropical é mesmo revigorante. Ela não surge sorrateira. Aos primeiros raios solares, expõe sua força, rasgando a escuridão com uma intensidade estonteante para despertar o corpo letárgico.

Seres humanos em caminhadas e corridas, trabalhando o corpo para alimentar a alma, ou vice-versa. Calçadas sendo varridas, lixo recolhido. O cheiro do pão quentinho, o transeunte que estanca no carrinho de lanche improvisado para um rápido café. Passos apressados para chegar na hora, passos lentos daqueles que nem bem despertaram. Passos cansados daqueles que voltam para casa, depois do serviço na madrugada. Passos titubeantes dos que encerram a noitada.

Carros que passam ligeiros para o horário de entrada dos filhos nos colégios. Infelizmente, a geração da “pronta entrega”. Nem mesmo a caminhada até o colégio – uma constante na minha infância e adolescência – a insegurança permite aos filhos de pais protetores.

Casas e edifícios iluminados refletem sombras em formas variadas espraiando-se no chão do asfalto. E eu ali, gastando tempo. Em cada passo, um pensamento, registrando tudo para descobrir o que fazer na sobra de tempo. Mas até isso, toma tempo.

Hora de replantar, semear a mente para colher novos infindáveis conhecimentos, no seu devido tempo. O verdadeiro ócio criativo de Domenico de Masi. Sonhos fervilhando, ansiando por voos largos, saltar do plano abstrato para o concreto, produzir novas ideias, novos conceitos, novas formas.

Melhor me apressar. Seguir os conselhos de Fernando Pessoa sobre o tempo e fazer com ousadia, para que a travessia não me deixe à margem de mim mesma. Escrever e reescrever, será essa a minha sina?


Pies para qué los quiero
Si tengo alas pa’ volar

Frida Kahlo, 1953

Caetano Veloso – Oração ao tempo

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4 comments

  1. Elzinha, mais uma vez, parabéns. Estou me deliciando com suas crônicas. Cada uma melhor que a outra e cada uma é vocé. Me vi viajando, no Alma Renovada.
    Bravo, continue. Beijão

  2. Elzinha, parabéns!!! Delicia de leitura!!!
    Crônicas maravilhosas, muito bem escritas, leves e muito gostosas. Algumas eu até tinha lido em primeira mão(rsrsrsrs), mas a releitura me proporcionou o mesmo prazer da primeira vez. Parabéns mesmo!!!
    Continue nos presenteando com estes momentos especiais, que alegram a nossa alma!
    Beijo carinhoso!
    Kk

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