Zefa, a flor da paixão

Toda cidade de interior tem personagens marcantes. Chegando o veraneio, muitos deles chegam junto para ajudar no trabalho de uma casa de praia, que carece sempre de mão-de-obra, diante do movimento multiplicado em época de descontração e diversão no litoral.

As conversas de alpendre trazem à tona pessoas marcantes do nosso cotidiano. Ela era mulher disposta para o trabalho. Alta, pele clara, cabelos tingidos de ruivo, rosto marcado por histórias diversas, uma boca escancarada em sorriso, tanto assim que ganhou o apelido: Zefa bocão. A vida lhe fez assim, não lhe faltava disposição, principalmente para o amor.

Zefa nasceu junto com a efervescência da descoberta do tungstênio no solo de Currais Novos. Ainda adolescente, saiu de junto dos pais na fazenda para morar na casa do padrinho na cidade. Menina moça, muito bem recomendada para não cair em tentação.

Pulou a janela e começou a descobrir o mundo. Para afugentar a tentação, procurou o vigário local; foi quem primeiro ensinou os encantos do amor à donzela.

Bem jovem, arrumou um casamento com um desses trabalhadores da mina, que movimentava a economia da pequena cidade. O tungstênio era extraído daquele solo pedregoso. Precisavam utilizar dinamite. A explosão a deixou viúva, grávida do primeiro filho. 

Nem a viuvez precoce lhe extraiu a alegria. Cheia de vida, seguiu seu destino de mulher parideira. Ainda vieram mais quatorze partos, aliás, treze. Quinze filhos, só dois do mesmo pai porque são gêmeos. O primeiro do marido, o resto dos amigos, como ela mesma dizia.

Amigos de todas as nacionalidades que passaram por Currais Novos. Brasileiros, americanos, até chineses, todos eles embalados pelo abraço da fogosa Zefa.

Sempre trabalhadora, soube criar todos os filhos. Adorava minha avó, a quem se dirigia por madrinha. Trabalhou em sua casa, servindo sempre com boa vontade. Não tinha tempo ruim. Qualquer mandado era cumprido na velocidade do estalar apressado de suas alpercatas.

Jogávamos conversas fora e dela ouvi tudo isso que escrevo. De vez em quando era repreendida por Vovó, tamanha a devassidão dos seus relatos. Ela nem se importava com o carão, dobrava-se em risadas, lembrando dos bons tempos de libertinagem.

Exímia dançarina de forró, podia trabalhar o dia inteiro e dançar a noite toda, estaria bem disposta no dia seguinte para os seus afazeres. Era a alegria em pessoa.

Trabalhou até quase os últimos dias. Sentada no sofá de sua casa, assistindo televisão, deu seu último suspiro. Descansou da labuta incessante, sem sofrimento, levando consigo a história da flor da paixão.


Zé Ramalho – Frevo Mulher

Acesse também: Fazenda em festa e Caminho da infância.

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