No Rastro das Águas – Capítulo 8

(…) O solo seridoense, embora ressecado e castigado por constantes estiagens, é um solo potencialmente fértil e suficientemente vigoroso para fazer brotar, se suas entranhas, as sementes que permanecem, por tanto tempo, adormecidas. As secas fazem-no descansar, mas o certo é que com a chegada da água tudo renasce. O tempo agora era de roçar, plantar, limpar e colher! Em janeiro ainda, caíram mais algumas poucas chuvas. Embora finas, fizeram brotar a babugem, que transformou em verde o triste cinza. O gado, acostumado a comer uma minguada porção de ração e a ralar o focinho na terra batida à procura […]

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No Rastro das Águas – Capítulo 7

(…) No retorno para casa, muito cansaço, depois de um dia de festividades. O passo marcado do cavalo embalava os sonhos do pequeno José, que se aninhara nos braços de sua mãe. Aos poucos, acostumava-se com o lombo do animal, peça fundamental na vida de todo sertanejo, pois atuava como principal meio de transporte e como importante ferramenta de trabalho, percorrendo os caminhos mais espinhosos, no encalço do gado e desbravando serras e caatingas. O dia escurecera mais cedo. As nuvens encobriram os derradeiros raios de sol. Um vento poente esfriou o final da tarde. As galinhas subiram mais cedo […]

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No Rastro das Águas – Capítulo 6

(…) Enquanto esperava pelo almoço, sentado no tamborete na porta de casa, observando o sol castigando a paisagem e acompanhado de seu fiel cachorro, Tano viu Antônio Bezerra aproximando-se ligeiro, com um sorriso nos lábios. Conhecendo aquela cara desde menino e deduzindo do que se tratava, esboçou um certo ar de sabedoria. Segurou os estribos e as rédeas do cavalo, enquanto Antônio apeava. Na cumplicidade de experiência e instinto, trataram logo de organizar as tarefas dos próximos meses, na esperança de um ano regular de inverno. Sinhá Cândida abanava o ferro a carvão, esperando as brasas esquentarem para passar a […]

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No Rastro das Águas – Capítulo 5

(…) Antônio Bezerra percebera esta realidade. Na expectativa de recuperar as perdas provenientes dos dois anos consecutivos de seca, já planejava a poda e limpa dos campos. Retiraria o gado dos algodoeiros e sustentá-lo-ia, até chover, com o cardeiro, vegetação resistente à seca que era encontrada com frequência na caatinga; bastava apenas cortá-lo e queimá-lo, para que os espinhos não machucassem as reses. Chegando à fazenda, apeou ligeiro do cavalo e foi tratar com Tano. Nem bem o galo cantara, Salustiano já estava de pé. O chuvisco da madrugada despertara seus ânimos. Levantou-se mais cedo para a ordenha, tomou o […]

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No Rastro das Águas – Capítulo 4

(…) Aos cafus, uma rodada de coalhada, adoçada com raspas de rapadura, encerrava o dia. O silêncio da escuridão era quebrado, ora pelo chocalho do gado, ora pelo pio da coruja. Era um momento revelador de quanto o homem rural estava interligado à natureza e de quanto o progresso iria distanciá-lo de suas origens. À medida que o mês de dezembro se desenrolava, mais ansiosos ficavam os seridoenses. Os sentidos eram aguçados à procura dos mínimos sinais exalados pela fauna, flora, ventos ou astros. Em dias de feira, quando os fazendeiros se encontravam na cidade, qualquer viajante era logo indagado, […]

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No Rastro das Águas – Capítulo 3

Já se passavam três meses desde o nascimento. A vida transcorria normalmente na fazenda. Sem energia elétrica, o sol encarregava-se de determinar o horário das tarefas diárias. Acordava-se bem cedo. Às três horas da manhã, o silêncio da madrugada era quebrado pelos primeiros mugidos dos bezerros que clamavam por um pouco de leite, não sem antes escutarem o galo que desde a uma hora da madrugada fazia seu primeiro canto ecoar pelo terreiro. Antônio Bezerra levantava-se para comandar o trabalho de ordenha no curral, pois como todo proprietário de terra da época, participava diretamente das atividades da fazenda, junto com […]

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No Rastro das Águas – Capítulo 2

Há dias, Ritinha vinha sentindo algo diferente, porém não sabia se era o peso da barriga ou a aproximação do momento tão esperado, já que por suas contas não chegaria à segunda quinzena de agosto. As últimas providências tinham sido tomadas: o enxoval estava lavado, passado, desinfetado no braseiro com alfazema, guardado no baú junto à cama, deixando um cheiro agradável no quarto. A parteira estava de sobreaviso e as galinhas trancadas, sendo cevadas para o mês do resguardo. Enquanto verificava cada detalhe em sua mente, sentiu uma fisgada no pé da barriga, não era a primeira nas últimas horas. […]

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No Rastro das Águas – Capítulo 1

PARTE UM: ENTERRANDO O UMBIGO NO MOURÃO DA PORTEIRA (1908-1935) Faíscas saltavam das brasas; labaredas eram atiçadas ao abano; a lenha estalava espalhando cinzas ao redor do fogão; terrinas eram trocadas num vai-e-vem ligeiro, que refletia a agitação da casa da fazenda. Não era pra menos, o primeiro filho de Antônio Bezerra estava a caminho. Ritinha esforçava-se, com a ajuda da parteira, para dar à luz a seu primogênito. Por pouco não dera à luz no mês de Santana; teria sido uma graça, mas o importante era nascer com saúde. Aquele não tinha sido um bom ano de inverno; na […]

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