Andorinhões errantes

Essa crônica está publicada no livro Sertão, Seridó, Sentidos. Em tempo de isolamento social, sinto vontade de ser um andorinhão, percorrer o mundo sem destino, apenas voando. Embebida pela curiosidade e pelo desafio, topo a escalada. No início, sigo seu passo firme sem muita dificuldade. À medida que a subida toma forma, o coração acelera, fazendo ecoar um batido forte, ritmado. Um tanto preocupada, diminuo a velocidade e me concentro na sua história. O sonido do celular toca insistente, uma mão sonolenta o faz calar. Lá fora, o galo bate as asas antes de fazer ecoar seu canto madrugador. São […]

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No Rastro das Águas – Prefácio, Nota da Autora e Agradecimento

PREFÁCIO Diógenes da Cunha Lima Mais que história pessoal, familiar, biográfica, é este um livro etnográfico, reconstitui práticas de uma das regiões culturalmente mais ricas do país. O Seridó é uma civilização solidária. As características comuns da sociedade seridoense, em seu conjunto, tornam o seu povo único. Os fenômenos sociais religiosos (Santana, a Padroeira maior), os fenômenos estéticos (as belas moradias, cores, flores e animais saídos das mãos das artistas bordadeiras), o melhor artesanato de alimentos (queijos, manteiga, doces, massas), o fenômeno técnico de aproveitamento do solo seco, das vazantes e, sobretudo, as condições morais fortes do seridoense, limpo e […]

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No Rastro das Águas – Capítulos 70 e 71

(…) O dia findava-se nas horas tristes do pôr-do-sol, quando o crepúsculo encobria a beleza infinita do mar, fazendo surgir a escuridão, aplacada pela beleza da lua sobressaindo às estrelas. José Bezerra não gostava daquela hora; sua alegria era estar em contato com a água, fosse na correnteza dos rios cheios dos invernos sertanejos ou nos deliciosos banhos nas sangrias, fosse ante a ilusão de dispor da imensidão do oceano. Para aquele que vivia no rastro das águas, a noite significava privar-se da visão infinita do mar; mas reconfortava-se, pois sua audição e seu olfato se tornavam mais apurados ao […]

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No Rastro das Águas – Capítulos 68 e 69

(…) Lá embaixo, a música começou a tocar. A casa do casal José Bezerra e Yvete estava toda preparada para receber os familiares e amigos de meio século. Era a última grande festa que eles patrocinariam na avenida Hermes da Fonseca, antes da troca de endereço. Os convidados já deveriam estar chegando, eles não se importaram. Inebriados no clima de cumplicidade, prolongaram os momentos tantas vezes compartilhados na intimidade daquelas quatro paredes; afinal, não era todo dia que um casal completava bodas de ouro. Deixassem a música tocar mais um pouco, os convidados podiam esperar. Capítulo 68 De longe pôde […]

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No Rastro das Águas – Capítulos 66 e 67

(…) O Brasil reza pelo restabelecimento de seu Presidente, mas sua saúde não resiste e ele vem a falecer. Emocionado, o povo vai dar seu último adeus. A eleição de Tancredo, ex-Ministro de Getúlio Vargas e ex-Primeiro Ministro do Brasil, representou o fim da ditadura e dos anos de opressão; a despedida dos brasileiros foi um gesto de decepção e desalento. Decepção, por não verem aquele que tanto lutara pela abertura política tomar conta dos destinos da nação; desalento, por temerem que a sua morte colocasse tudo a perder. Os mais novos nem se dão conta do momento histórico, mas […]

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No Rastro das Águas – Capítulos 64 e 65

(…) Mas chegou o dia do retorno a Natal. Os carros deveriam passar a qualquer custo pelo rio. Foi montada uma verdadeira operação de guerra, com os poucos recursos existentes. A profundidade nem era tanta, mas a correnteza estava forte. Juntaram os homens da fazenda, trouxeram cordas e deram início à travessia. Um a um, os carros foram atravessando, molhando os distribuidores, engasgando afogados. As crianças foram atravessadas de charrete e no lombo dos animais, mas, ao final, tudo deu certo. Mesmo água em excesso era melhor que estiagem. Capítulo 64 Lá vinha Yvete de novo com suas propostas de […]

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No Rastro das Águas – Capítulos 62 e 63

(…) O cargo que assumiu adequava-se muito bem a suas pretensões profissionais. A direção da Acauan não consumia muitas energias, as diretrizes da empresa e as ações a serem executadas estavam previamente determinadas pelos acionistas majoritários. Já passando dos sessenta, José Bezerra adaptou-se bem à nova atividade e pôde dispor de tempo para cuidar de suas fazendas. A Acauan começou a produzir no final de 1970, quando o currais-novense Cortez Pereira tinha acabado de ser eleito indiretamente para o governo do Estado do Rio Grande do Norte. Capítulo 62 Os noventa milhões de brasileiros vestem a camisa da Seleção Canarinha, […]

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No Rastro das Águas – Capítulos 60 e 61

(…) José Bezerra assistiu a tudo entusiasmado, mesmo temeroso pelas transformações sociais; era característica sua colocar-se a par dos episódios marcantes da História. Sabia que aquele passo era grande demais para humanidade, reflexo do desenvolvimento da tecnologia. Acompanhou a volta dos heróis mundiais e se perguntou até onde o homem iria aventurar-se. Ao mesmo tempo, sentia-se diminuto em face dos acontecimentos. Se para ele, a ida do homem à Lua era um feito extraordinário, imaginem a reação dos habitantes rurais, isolados das transformações ao seu redor. Muitos deles nem acreditariam na epopeia. Capítulo 60 Sempre que não suportava acompanhar o […]

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