Sabor preservado

Ler é um passatempo gostoso. Seguindo as linhas do livro “Comer é um sentimento”, do crítico gastronômico François Simon, deparei-me com a frase seguinte: “Ao concentrar-se em um lapso de tempo reduzido, um prato revela todo o seu sabor, o seu sal e a sua verdade”. As palavras ecoaram na minha mente e levaram-me à crônica sobre a comida sertaneja tão presente na memória gustativa da infância, revelando todo o sal daquela terra chamada sertão. Resgato para os leitores o sabor da mesa sertaneja através da crônica “Sabor preservado”, publicada no livro Sertão, Seridó, Sentidos. Despertei com um desejo infantil […]

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Aboiando

A crônica “Aboiando” faz parte do livro Sertão, Seridó, Sentidos. O terceiro domingo do mês de julho foi escolhido como o “Dia do Vaqueiro Nordestino”. Compartilho com você leitor a minha homenagem a essa figura tão importante da cultura do Nordeste. O vaqueiro veste orgulhoso a perneira marcada pelos estribos e passa as correias do guarda-peito pelo pescoço. Do lado de fora da casa, calça as esporas e dirigi-se ao animal selado. Verifica se a cilha está bem apertada, segura forte o arção, testando a segurança da sela. Desamarra o cabresto, prendendo-o sob a sela, segura as rédeas e monta […]

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Permanente robustez

O mês de julho é bastante significativo para o seridoense, que não o conhece pelo nome, mas como mês de Santana. Para mim, era sempre a época de aproveitar a festa de Santana e percorrer as terras dos meus antepassados, marcadas pela robustez das pedras que sedimentam a devoção ao Seridó. Este ano, por causa da pandemia, as festas religiosas e pagãs estão suspensas. Para marcar esse momento, relembro a geografia dessa região tão especial, transcrevendo a crônica Permanente Robustez, publicada no livro Sertão, Seridó, Sentidos. Rente ao chão, observo os contornos que me circundam do alto. A visão estende-se […]

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Andorinhões errantes

Essa crônica está publicada no livro Sertão, Seridó, Sentidos. Em tempo de isolamento social, sinto vontade de ser um andorinhão, percorrer o mundo sem destino, apenas voando. Embebida pela curiosidade e pelo desafio, topo a escalada. No início, sigo seu passo firme sem muita dificuldade. À medida que a subida toma forma, o coração acelera, fazendo ecoar um batido forte, ritmado. Um tanto preocupada, diminuo a velocidade e me concentro na sua história. O sonido do celular toca insistente, uma mão sonolenta o faz calar. Lá fora, o galo bate as asas antes de fazer ecoar seu canto madrugador. São […]

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No Rastro das Águas – Prefácio, Nota da Autora e Agradecimento

PREFÁCIO Diógenes da Cunha Lima Mais que história pessoal, familiar, biográfica, é este um livro etnográfico, reconstitui práticas de uma das regiões culturalmente mais ricas do país. O Seridó é uma civilização solidária. As características comuns da sociedade seridoense, em seu conjunto, tornam o seu povo único. Os fenômenos sociais religiosos (Santana, a Padroeira maior), os fenômenos estéticos (as belas moradias, cores, flores e animais saídos das mãos das artistas bordadeiras), o melhor artesanato de alimentos (queijos, manteiga, doces, massas), o fenômeno técnico de aproveitamento do solo seco, das vazantes e, sobretudo, as condições morais fortes do seridoense, limpo e […]

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No Rastro das Águas – Capítulos 70 e 71

(…) O dia findava-se nas horas tristes do pôr-do-sol, quando o crepúsculo encobria a beleza infinita do mar, fazendo surgir a escuridão, aplacada pela beleza da lua sobressaindo às estrelas. José Bezerra não gostava daquela hora; sua alegria era estar em contato com a água, fosse na correnteza dos rios cheios dos invernos sertanejos ou nos deliciosos banhos nas sangrias, fosse ante a ilusão de dispor da imensidão do oceano. Para aquele que vivia no rastro das águas, a noite significava privar-se da visão infinita do mar; mas reconfortava-se, pois sua audição e seu olfato se tornavam mais apurados ao […]

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No Rastro das Águas – Capítulos 68 e 69

(…) Lá embaixo, a música começou a tocar. A casa do casal José Bezerra e Yvete estava toda preparada para receber os familiares e amigos de meio século. Era a última grande festa que eles patrocinariam na avenida Hermes da Fonseca, antes da troca de endereço. Os convidados já deveriam estar chegando, eles não se importaram. Inebriados no clima de cumplicidade, prolongaram os momentos tantas vezes compartilhados na intimidade daquelas quatro paredes; afinal, não era todo dia que um casal completava bodas de ouro. Deixassem a música tocar mais um pouco, os convidados podiam esperar. Capítulo 68 De longe pôde […]

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No Rastro das Águas – Capítulos 66 e 67

(…) O Brasil reza pelo restabelecimento de seu Presidente, mas sua saúde não resiste e ele vem a falecer. Emocionado, o povo vai dar seu último adeus. A eleição de Tancredo, ex-Ministro de Getúlio Vargas e ex-Primeiro Ministro do Brasil, representou o fim da ditadura e dos anos de opressão; a despedida dos brasileiros foi um gesto de decepção e desalento. Decepção, por não verem aquele que tanto lutara pela abertura política tomar conta dos destinos da nação; desalento, por temerem que a sua morte colocasse tudo a perder. Os mais novos nem se dão conta do momento histórico, mas […]

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