No Rastro das Águas – Capítulo 2

Há dias, Ritinha vinha sentindo algo diferente, porém não sabia se era o peso da barriga ou a aproximação do momento tão esperado, já que por suas contas não chegaria à segunda quinzena de agosto. As últimas providências tinham sido tomadas: o enxoval estava lavado, passado, desinfetado no braseiro com alfazema, guardado no baú junto à cama, deixando um cheiro agradável no quarto. A parteira estava de sobreaviso e as galinhas trancadas, sendo cevadas para o mês do resguardo. Enquanto verificava cada detalhe em sua mente, sentiu uma fisgada no pé da barriga, não era a primeira nas últimas horas. […]

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Caminho da infância

O caminho encurtando e o frio na boca do estômago acentuando-se. Silenciosamente, temia não reconhecer o traçado tantas vezes percorrido na infância. Consciência pesada pelos anos de ausência. Procurei não transparecer a incerteza quanto ao momento certo de largar o asfalto, tomar a estrada de barro e seguir pouco menos de dois quilômetros, na terra seca batida, até chegar à fazenda dos meus avós maternos. A paisagem alimenta a alma saudosa. De um lado e de outro, a caatinga entrelaçada, despida de folhagem. Nem a tristeza da estiagem afasta a alegria do retorno. Céu anil desanuviando a rocha no alto […]

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No Rastro das Águas – Capítulo 1

Faíscas saltavam das brasas; labaredas eram atiçadas ao abano; a lenha estalava espalhando cinzas ao redor do fogão; terrinas eram trocadas num vai-e-vem ligeiro, que refletia a agitação da casa da fazenda. Não era pra menos, o primeiro filho de Antônio Bezerra estava a caminho. Ritinha esforçava-se, com a ajuda da parteira, para dar à luz a seu primogênito. Por pouco não dera à luz no mês de Santana; teria sido uma graça, mas o importante era nascer com saúde. Aquele não tinha sido um bom ano de inverno; na realidade, eram dois anos seguidos de seca, mas a alegria […]

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Fé inabalável

Novembro escaldante, final de tarde de uma terça-feira. Aos pés do monte, nenhum movimento de peregrinos. Barracas desarmadas, apenas uma lojinha aberta, expondo os artigos religiosos para as almas agraciadas que habitam o lugar. As demais permanecem fechadas, aguardando a chegada dos fiéis em romaria, especialmente na Semana Santa. Na quietude, subo os degraus e as rampas inclinadas, tentando assimilar a aura sagrada do lugar. Ao longo do trajeto, as estações da Via Sacra, doações das famílias de Carnaúba dos Dantas. As imagens sagradas são adornadas por flores coloridas de plástico, únicas capazes de resistir ao clima seco da região. […]

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Fazenda em festa

Verdes, brancas, azuis, amarelas, vermelhas. Os dedos, impregnados de cores e sujos de cola, pregavam, uma a uma, as bandeirinhas coloridas no cordão esticado entre um pilar e outro do alpendre. Sentadas no chão, recortávamos revistas velhas, com fotos bem coloridas, em formato de bandeirinhas ou de pequenos balões. No alpendre lateral, mãos não vadeavam. Quebravam a ponta da vagem, puxavam o fio até o final e, com a ajuda da unha afiada do polegar, retiravam todos os grãos da vagem. Enquanto a conversa corria solta, as bacias grandes de alumínio aparavam a debulha do feijão bem verdinho. A chuva […]

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Invernada

Invernada

Escrevi essa crônica em 2008, quando o inverno chegou abundante em nosso sertão. De lá para cá, a chuva resolveu dar uma trégua, a estiagem assolou toda uma região. Passamos sete anos com pouquíssimas chuvas, chegando até a secar o açude Marechal Dutra, conhecido por Gargalheiras, no município de Acari/RN. Esse ano de 2019, as águas estão voltando com força e parece que teremos um bom inverno, com os reservatórios acumulando água, as plantações brotando, a fartura chegando. Decidi postar a crônica “Invernada”, publicada em 2014 no livro “Sertão, Seridó, Sentidos”, de minha autoria, como forma de manifestar a satisfação […]

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