A histórica fazenda Acauã

Foto de Wikimedia Commons

Em plena pandemia, fui convidada pelo sócio Graco Aurélio Câmara de Melo Viana para fazer parte do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte.

Fiquei surpresa, mas, sobretudo, muito honrada com o convite, principalmente porque um dos fundadores do Instituto foi meu trisavô materno, Francisco de Salles Meira e Sá.

Assumi o ofício cheia de responsabilidade. Não tenho o currículo do meu trisavô, mas vou tentar honrar o seu nome no resgate da história do Rio Grande do Norte.

Agradeço ao sócio Graco esse honroso convite para fazer parte da mais antiga casa de cultura do Estado do Rio Grande do Norte.

Hoje post no blog o artigo de minha autoria, publicado no jornal Tribuna do Norte, exatamente sobre a fazenda centenária que pertenceu aos meus ancestrais, antes de sua mudança definitiva para nosso Estado.


A HISTÓRICA FAZENDA ACAUÃ

Ribeira do Piranhas, encontro com o rio do Peixe, o canto marcante ecoou no sertão paraibano, extremo Oeste da Capitania da Paraíba do Norte.

Dessa vez, o pássaro nada agourava. A Sesmaria nº 450, de 06 de julho de 1757, consolidava a posse do Capitão José Gomes de Sá, filho do Capitão-Mor Joseph Gomes de Sá, fundador do Sítio Acauhan.

A fazenda que se fez pelo rastro do gado, tangeu os tapuias da região e firmou a ocupação do homem branco no alto sertão da Paraíba.

Situada no atual município de Aparecida, antigo distrito de Sousa, seu imponente conjunto arquitetônico, composto da casa-grande, capela da Imaculada Conceição e sobrado interligados, representa o poderio rural de uma das mais importantes fazendas do Nordeste brasileiro na criação de gado e plantio de algodão.

A placa encravada na parede ao lado da torre da Igreja contém o nome de seus proprietários: Cel. José Gomes de Sá; Cap. João da Silva de Almeida; Pe. Luiz José Correia de Sá (Revolucionário de 1817); Cap. Mor Francisco Antônio Corrêa de Sá; Tte-Cel. Francisco Antônio Corrêa de Sá; Dr. Olinto José Meira; Senador Meira e Sá; Presidente João Suassuna; Eng. José Rodrigues Ferreira; e Antônio Assis Costa e José Gonçalves de Assis.

O último proprietário da família Sá foi Francisco de Salles Meira e Sá, meu trisavô. Sua mãe, Maria Joaquina de Albuquerque Sá, faleceu muito cedo e o menino veio morar no Rio Grande do Norte com seu pai, Dr. Olinto José Meira, presidente da Província de 1863 a 1866. Meu trisavô herdou da mãe a fazenda secular, mas preferiu fazer o caminho do sertão para o litoral. Formou-se em Direito pela Faculdade do Recife em 1878 e no ano seguinte era nomeado promotor em Ceará-Mirim.

Francisco de Salles Meira e Sá foi ainda juiz municipal em Ceará-Mirim, Deputado, Vice-governador, Desembargador do Superior Tribunal de Justiça, Senador pelo Rio Grande do Norte. Em 1910 foi nomeado juiz federal no Rio Grande do Norte. Presidiu a Liga de Ensino e foi fundador do Instituto Histórico e Geográfico do Estado.

Com uma carreira tão brilhante, a fazenda Acauã ficou relegada a segundo plano. Em 1919, um ano antes do seu falecimento, Francisco de Salles Meira e Sá vendeu a terra para João Suassuna, que a adquiriu juntamente com o engenheiro José Rodrigues Ferreira.

João Suassuna, pai do escritor Ariano Suassuna, ainda não era Presidente da Paraíba, cargo que ocupou de 1924-1928. Após sair do governo, a família foi morar na Fazenda Acauã. João Suassuna foi assassinado em 1930. Impossibilitada de tocar a fazenda com seus filhos pequenos, a viúva Rita de Cássia Vilar Suassuna vendeu sua parte ao Engenheiro José Rodrigues Ferreira.

Eclodiu novo ciclo de desenvolvimento econômico naquelas terras. Dr. Ferreira desenvolveu o cultivo do algodão e a extração de carnaúba e oiticicas, dentre outras atividades que lhes deram momentos de grande visibilidade política e econômica, chegando a estrada de ferro a passar por dentro da fazenda para escoamento de sua produção.

Os investimentos elevados e as secas constantes terminaram por inviabilizar seus negócios. Para quitar as dívidas junto aos irmãos Antônio Assis Costa e José Gonçalves de Assis, Dr. Ferreira perdeu a sua propriedade. Terminava assim o apogeu de uma das mais importantes fazendas do sertão nordestino.

Fazenda Acauã

Hoje o sítio histórico da Fazenda Acauã é tombado pelo Patrimônio Histórico Nacional e pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Geográfico da Paraíba. As terras foram desapropriadas para reforma agrária.

O Apóstolo do Sertão

Para quem gosta de história e sertão, clique aqui para ler a apresentação e o primeiro capítulo do livro “No Rastro das Águas”.

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2 comments

  1. Precisa dizer que adorei. Tenho raízes no sertão do Seridó. Foi importante conhecer a história desta Fazenda Acauã. Nasci em Natal e que eu saiba a fazenda que temos na memória é o “Canaçu” em Florânia. Muito presente a casa da minha avó onde está instalada a Câmara Municipal. Com o passar do tempo vejo as previsões de Deus se confirmar. Minha mãe filha única da minha avó, sempre foi participativa e solidária. Me lembro do cheiro do doce goiaba, da disposição dos cômodos, da cisterna em baixo e de tipo um paiol onde meu avô guardava algodão plantado num sítio que tinha atrás. A Fazenda Canaçu conheci também. Dela saíram muitos ramos. Espero que Espedita se inspire para escrever tudo o que sabe. Recorra a revisores etc.
    Parabéns, Elza você merece está no Instituto Histórico Geográfico. Um abraço.

    1. Muito obrigada Graça! Nós carregamos muitas histórias de nossas raízes. Navegue no blog, tem o livro No Rastro das Águas disponível para leitura. Resgata esse sertão que carregamos dentro da gente. Grande abraço

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