No Rastro das Águas – Capítulo 27

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No último mês do ano, em plena efervescência política, Jose Bezerra foi diplomado. Terminou o curso de Agronomia, mas não retornou imediatamente à sua terra. Devido ao desempenho verificado no decorrer do curso, e também por influência da família de sua noiva, foi nomeado para um patronato agrícola no interior de Minas Gerais.


De passagem para fazenda Macacos, parou para observar o trabalho dos homens. Peles queimadas, braços fortes em corpos esqueléticos suados. Pouco a pouco o açude tomava forma. O IFOCS tentava garantir a permanência do homem na região, construindo o Totoró para armazenar água na invernada, com capacidade suficiente para suportar estiagens prolongadas. Era o ano de 1932 e os trabalhos estavam acelerados; deveriam terminá-los antes do inverno de 1933. Ali perto, no município de Caicó, levantavam as paredes do açude Itans.

José Bezerra procurou uma sombra para escapar do sol fustigante, cumprimentou os presentes e deteve-se comparando o trabalho de Deus e o do homem lá embaixo. Levantou a cabeça e observou as formações geológicas naturais próximas ao açude. Pedra sobre pedra, como se tivessem sido colocadas uma a uma, formavam figuras desconexas, num equilíbrio perfeito que perdurava anos a fio, como se a qualquer momento um pequeno sopro fosse capaz de rolá-las na ribanceira; mas permaneciam imóveis, desafiando as leis da física, apoiando-se apenas na sua robustez. Lá embaixo, homens esforçavam-se equilibrando pedras na construção da parede do açude.

Prosseguiu seu caminho; não podia perder muito tempo; estava morando na fazenda Macacos, escapando o gado na estiagem. Sua vida tinha dado uma guinada desconcertante. Não chegou a assumir o emprego no patronato, em Minas Gerais. Uma inquietação tomava conta de seu ser. Não sabia explicar o que se passava. Tinha concluído Agronomia, estava noivo de uma moça de família tradicional mineira, acabava de ser nomeado para seu primeiro emprego, enfim, tudo corria dentro das melhores expectativas, mas alguma coisa lhe angustiava. Talvez fosse saudade, talvez sua sina. Decidiu retornar a Currais Novos para certificar-se.

Ainda em Minas Gerais, soubera que a safra de algodão 29/30 tinha sido excelente, mas a grande crise econômica americana, que ocasionou a quebra da bolsa de Nova Iorque em outubro, gerou consequências no mundo inteiro. José Bezerra, então com vinte e um anos, não imaginava que essas consequências atingissem o seu Estado e muito menos a sua família.

Chegando a Currais Novos, logo se inteirou da situação. Grande parte da produção algodoeira norte-rio-grandense destinava-se ao mercado externo, que estava em grave depressão, e o restante destinava-se à indústria têxtil do Sudeste, que também amargava os reflexos da recessão. A produção estava sobrando e os preços do algodão tinham despencado.

Nessa época, era governador do Estado, Dr. Juvenal Lamartine, seu parente ainda. Dr. Otávio Lamartine, filho do Governador e agrônomo com curso de especialização nos Estados Unidos, dirigia a Estação Experimental na fazenda Bulhão, município de Acari, desde o governo de Dr. José Augusto. Com instalações precárias, fazia-se necessária a mudança da estação para Cruzeta, que tinha como objetivo fazer trabalhos de melhoramento do algodoeiro de fibra longa, através de pesquisas e experiências. Dr. José Bezerra, como passou a ser chamado depois de formado, foi então convidado pelo parente e amigo, Dr. Otávio Lamartine, para ajudá-lo na mudança da estação experimental.

As agitações políticas continuavam no país. O pleito de 01 de março de 1930 tinha dado a vitória ao candidato da situação, Júlio Prestes. A oposição não se conformou com o resultado, alegando fraude, e tratou de articular a Revolução.

Em 26 de julho daquele ano, o Presidente (atual Governador) da Paraíba, João Pessoa, que fora o candidato a vice na chapa da oposição encabeçada por Getúlio Vargas, foi assassinado no centro do Recife, na Rua Nova, precisamente na Confeitaria A Glória, por João Duarte Dantas, seu adversário político, jornalista, cuja residência fora invadida por elementos da polícia, supostamente a mando de João Pessoa, que culminou com a publicação nos jornais da capital do estado de cartas íntimas trocadas com a professora Anaíde Beiriz. A Paraíba e o país ficaram comovidos.

Os revolucionários conseguiram levar a comoção para o lado político, armando a revolução. Desse modo, no início de outubro, a rebelião espocou em diversos quarteis do país. Aqui no Rio Grande do Norte, o Governador Juvenal Lamartine partiu para o Rio de Janeiro, sendo em seguida exilado do país. Seu filho Otávio foi demitido da Estação Experimental. Em 3 de novembro, o gaúcho Getúlio Vargas tomou posse no Palácio do Catete. José Bezerra continuava empregado no Ministério da Agricultura, mas logo foi demitido devido às ligações políticas e por denúncia de Plínio Lemos, que se tornou seu amigo posteriormente.

A crise econômica comprometia seriamente os negócios de seu pai, os quais continuavam em queda acentuada, chegando ao ponto de ter sua falência decretada, tamanha a situação de insolvência perante seus fornecedores. O espírito alegre, divertido, expansivo e amigo de Antônio Bezerra foi tomado por uma tristeza generalizada, desencadeando uma sensação de fracasso, de depressão. Ele parecia debilitado e buscou consolo onde menos devia: pouco a pouco, foi encontrando alento na bebida. José Bezerra presenciou todos esses fatos e, ante um clima de desânimo, os contatos com a noiva foram escasseando; ainda que recebesse muitas cartas, não as respondia; a crise por que passava lhe deixava desestimulado; desse modo, o noivado chegou ao fim.

Para um rapaz que sempre estivera em ascensão, sem passar por privações, era a primeira grande crise que enfrentava. Como filho mais velho, a condução dos negócios passara para seu comando; a diversão da juventude foi trocada por sérias responsabilidades: era, agora, um homem de verdade. Não conseguia entender como os negócios chegaram a tal ponto.

A estiagem prolongou-se e o êxodo rural foi inevitável. José Bezerra sempre presenciara a partida dos mais humildes, com os rostos desprovidos de qualquer emoção, parecendo mortos-vivos; agora era ele que passava por um momento delicado. Seu pai parecia um retirante, tão diferente de sua alegria costumeira. José teve que buscar a coragem do sertanejo para superar a crise.

O ferro esquentava nas brasas, a cor alaranjada indicava o ponto certo. Um mugido forte, o cheiro de couro queimado no ar e a rês estava ferrada; mesmo com a estiagem, ainda nasceram algumas cabeças. O gado era sua garantia de continuação dos negócios. Observando o rebanho, foi tomado pelo sentimento de posse: não podia abandonar sua terra; diferentemente daqueles que nada possuíam, ele ainda dispunha de bens preciosos.

Decidiu levantar a cabeça e os negócios. Seu pai era uma figura muito querida em seu meio e ainda podia contar com vários amigos influentes. Depois da estiagem de 1932, José foi convidado a trabalhar como agente da firma de exportação de algodão, Lafayette & Lucena, mantendo a antiga freguesia de seu pai, com quem se associava. A época coincidiu com a retomada da valorização do algodão, que passou a ganhar terreno no mercado externo. Devido à grave crise americana, os Estados Unidos criaram o plano de revitalização, “New Deal”, que limitou a produção agrícola, fazendo subir, artificialmente, os preços dos produtos. Em consequência, o algodão norte-rio-grandense abocanhou a fatia do mercado deixada pelos americanos, permitindo um novo surto de crescimento do algodão. José Bezerra soube aproveitar a ocasião, reerguendo os negócios de seu pai, com bastante equilíbrio. Combinou com seu pai a hipoteca das fazendas.


Acesse também: No Rastro das Águas – Capítulo 23, Capítulo 24, Capítulo 25 e Capítulo 26.

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