Alma renovada


Meu pai acaba de completar 83 anos, meio desanimado, em razão do avanço da idade. Certo dia encontrei um amigo da família que está em plena atividade – apesar de contar com mais de 90 anos – e me disse estar preocupado com papai. Sugeriu uma viagem para animá-lo.

Nos terraços do veraneio, tomei conhecimento que uma turma de Caicó iria viajar para Piranhas, cidade alagoana às margens do rio São Francisco, que sempre tive vontade de conhecer. Imediatamente, pensei em fazer o passeio e levar papai para percorrer esse mundão de Nordeste do Brasil, que ele sempre apreciou.

Meu marido foi o primeiro a incentivar-me. Em menos de fósforo – como diz o matuto – reservei o hotel, debrucei-me na internet à procura de todas as informações turísticas e fechei a lotação do carro: eu, meu pai, uma tia e minha sogra. Malas fechadas, partimos em direção a Garanhuns/PE, parada estratégica para descanso e refresco no clima serrano, ainda em fevereiro, verão pleno.

No dia seguinte, fomos até Paulo Afonso/BA, para conhecermos a famosa hidrelétrica que abaste de energia essa parte do Brasil. Passagem rápida, retomamos à estrada, apreciando a paisagem do sertão nordestino, procurando sinal de chuva, vendo a babugem ressuscitar em verde novo.

As playlists do Spotify faziam a trilha sonora da viagem, tocando baixinho para não atrapalhar as conversas no longo percurso. Entre Delmiro Gouveia e Piranhas, a placa indicando o restaurante Castanho me chamou à atenção. Sai do asfalto e decidi encarar os 17km de barro até um dos pontos de apoio dos catamarãs que fazem o passeio pelo rio abençoado.

Papai ironizando o tempo todo o trajeto no barro e eu, retrucando, como se ele não tivesse percorrido diversas estradas barrentas ao longo de sua vida. E olhe que hoje temos o conforto do ar-condicionado. Em tempos idos, o quebra-vento trazia um arremedo de brisa, juntamente com a poeira impregnando toda a pele. Apesar das condições da estrada e do calor sufocante, valeu à pena encontrar as águas do São Francisco.

Próxima parada: Piranhas. Acomodação no Hotel Aconchego do Velho Chico. Nome apropriadíssimo à paisagem deslumbrante vista do alto das varandas dos quartos, inundando a visão, abraçando a alma.

Mais abaixo, a encantadora cidade de Piranhas com o São Francisco a lhe banhar. Suas casas exibem fachadas coloridas, alegres por desfrutarem das águas perenes e incansáveis do rio da integração nacional, carinhosamente apelidado de Velho Chico.

Não canso de apreciar a vista do hotel. Madruguei para fotografar o amanhecer espetacular, com as águas alaranjadas serpenteando até bater no meio do mar.

Café da manhã com a mesa farta do sertão, com direito a relembrar o gosto da infância no doce azedo da umbuzada. Passeio pela Rota do Cangaço, conhecer a Grota do Angicos, lugar onde mataram Lampião e Maria Bonita. Banho no rio refrescante após uma caminhada de ida e volta com mais de três quilômetros até o local histórico e calor sufocante de 40 graus.

Terminei meu dia sentindo a paz do final de tarde ao som do sax no pôr-do-sol relaxante do restaurante Caboclo d’Água, à beira da barragem da hidrelétrica do Xingó.

Dia seguinte, novos passeios. No catamarã que percorremos os cânions do Xingó vi de longe uma bolsa em que estava escrita a frase de Mario Quintanaviajar é mudar a roupa da alma”.

Consegui que papai comprasse um calção de banho para se banhar no rio São Francisco, colocasse um colete salva-vidas e tomasse uma canoa para ver a Grota do Talhado (sob ameaça de eu levar um cocorote, se o passeio não fosse bom). No meio do percurso, perguntei se ia levar um cocorote. Ele não disse que sim, nem não, apenas que ainda não chegara ao fim. Quando terminou a deslumbrante, mas rápida incursão, ele pegou um macarrão para flutuar nas águas. Ficou ali agarradinho na corda próximo ao flutuante, mas logo estava enturmado, conversando animado na roda do pessoal de Caicó.

Valeu à pena percorrer mais de 1.680km no total da viagem para compartilhar esses momentos e ver meu pai e todas nós de alma renovada.


Endless Summer – Stand By Me (Ben E. King)

Leia também

14 comments

  1. Por um desejo de conhecer essa região e tão envolvida com a sua narrativa, senti-me viajando com vcs e encantada com a disposição de seu pai. Parabéns Elzinha. Belos escritos os seus. Belas fotografias tbm. Vou seguir acompanhando e até a próxima viagem.

  2. Elzinha, eu não sabia que entre as boas companhias da nossa prazerosa viagem ia uma cronista arguta e inspirada, que depois ia nos proporcionar o prazer da relembrança desse fim de semana. Abraços, Márcio

    1. Pois é Márcio, parece que as palavras estão querendo aflorar e com uma viagem prazerosa daquela, só podia render bons frutos. Valeu pela companhia e pelo apoio na organização. Que venham mais viagens!!!

  3. Ler seus escritos é se estivesse lá, onde com Dulcinha, mamãe,papai conhecer Paulo Afonso com 10 anos é o maior saco!assim me levaram , E agora estou na Pousada, com vocês,olhando o vertente São Francisco que como você descreve, o vejo mais azul!!!!

      1. Ja estou querendo fazer essa excursão Rio São Francisco e levar meus pais, que ja estão idosos. Viajei junto com sua narrativa Elzinha. Parabens!!!!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *