Embarque imediato

Céu ao entardecer

Embarcar não é tarefa fácil nos dias de hoje. Sempre lembro do gado entrando no brete, pura recordação dos meus dias na fazenda dos meus avós. A classificação dos passageiros e o modo de embarque variam em função das normas regulamentares dos voos.

Algumas companhias adotaram o embarque em ordem decrescente do final para o início da cabine. Com as novas regras sobre bagagens, efetuaram alterações. Imaginei se a logística estaria correta. Despois das prioridades, embarcaram os passageiros com mochilas ou bolsas de mão, que deveriam ser acomodadas sob a poltrona à frente. Por último, os passageiros com bagagem de mão.

Conhecendo a “ética” do brasileiro em desafiar as regras, apostei que não sobraria lugar para a bagagem de mão, porque as mochilas e bolsas criariam asas até o compartimento superior. Dito e feito. Até que tentei sugerir ao funcionário da companhia a inversão do embarque, mas a proposta de uma atitude proativa perante a empresa foi rechaçada.

Devidamente instalada em meu assento, passo a observar o espaço. Depois que a comida passou a ser cobrada exorbitantemente nos voos nacionais, os passageiros ingressam na aeronave com sorvete, milk-shake, refrigerante, pão de queijo ou qualquer outra guloseima para amenizar a “fome” no tempo de voo até o destino.

Melhor ficar bem atento ou fazer contorcionismo para evitar surpresas. Os passageiros ingressam na aeronave com um olho no cartão de embarque e outro no compartimento superior onde está a indicação do assento. Desligam-se de tudo que estão carregando e pode sobrar para quem já está devidamente instalado. Um refrigerante derramando sobre sua roupa ou um golpe de bolsas e mochilas excessivas de quem quer escapar de pagar bagagem de porão podem acontecer.

Depois que todos se acomodam, vejo uma senhora muito fina e educada – do tempo em que viajar de avião era sinal de glamour – com gestos delicados ajudando sua acompanhante, pouco familiarizada com os apetrechos aeronáuticos. Na fileira de trás, a passageira retira sem qualquer pudor os sapatos e coloca os pés sobre o braço da poltrona da frente, quase tocando no cotovelo da outra.

Por meio do sistema de som da cabine, o comissário alerta que o uso de equipamentos eletrônicos está permitido no modo avião, mas sugere que utilizem os fones de ouvidos. É de bom tom não ficar ouvindo o filme, as mensagens de voz, os joguinhos eletrônicos dos vizinhos, se é que captaram a mensagem.

Falando nisso, de vez em quando você pode se deparar com um(a) companheiro(a) de poltrona debulhando toda sua vida, sem qualquer cerimônia, com se você fosse seu eterno confidente, mesmo que seja a primeira e última vez que o encontrará.

Com o estreitamento dos espaços, podemos nos sentir como sardinhas enlatadas. Mas como tudo é questão de adaptação, os lanches nos voos nacionais são reduzidos, evitando o uso de garfo e faca com os braços limitados pelo corpo ao lado. As crianças, então, rendem uma crônica isolada.

E assim vamos cruzando céus, mares, montanhas e oceanos, idas e vindas por motivos diversos, a trabalho, de férias, para encontrar um parente ou um grande amor, para um tratamento médico, por puro lazer ou qualquer outro motivo que nos faça embarcar no avião, espaço democrático para todos os gostos.


Big Mouthers – My Way

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