Descobrindo Portugal – Alentejo

Fazendo o caminho inverso da Era dos Descobrimentos, aportamos em Portugal, situado na Península Ibérica, que já abrigou romanos e muçulmanos, sedimentou o catolicismo e fez nascer o país Brasil.

Hoje, vem sendo redescoberto por brasileiros – turistas ou não – ingleses, russos e até chineses. O sol, o mar e o clima (não tão rigoroso) atraem pessoas do mundo inteiro, que também degustam o sabor da culinária portuguesa.

Apesar de ser um país pequeno – sua área total, incluindo Açores e Madeira é de 92.212 km² – Portugal abriga uma rica história, tradição e sabores.

O português é a língua oficial, mas nem sempre é compreendida pelos brasileiros, pois os sotaques são bem diferentes. Por vezes, é preciso apurar o ouvido para entender a mensagem.

Vamos percorrer um pouco das ótimas estradas, sentar numa praça de uma aldeia tranquila assistindo aos mais velhos no jogo de bocha, tomar um bom vinho acompanhado do pão quentinho (patrimônio português) regado no azeite, deixar o tempo passar e descobrir alguns recantos e encantos desse país.

Évora

Começo nossa viagem pelo Alentejo. Évora, por ser a cidade mais importante da região, é escolhida como base. Do aeroporto de Lisboa até lá são apenas 135km. Em uma hora e meia de carro, chega-se à cidade considerada patrimônio mundial pela Unesco, cujas raízes datam do tempo dos romanos, foi ocupada pelos mouros e retomada pelos cristãos, sendo residência dos reis portugueses no século XV.

No caminho, os sobreiros parcialmente descascados já demonstram o porquê de Portugal ser o principal produtor mundial, respondendo por 50% de toda produção da cortiça natural do mundo. Lembrando que a colheita somente ocorre de 09 em 09 anos, sendo descascada a camada externa do tronco da árvore, que não sofre com a extração, vivendo até mais de um século.

Sobreiro – Foto de Cris Cassol

Mas de que valeria a cortiça, sem o líquido precioso para ser guardado e protegido? As videiras da região produzem o vinho alentejano e vinícolas famosas estão abertas à visitação e degustação, consolidando o enoturismo no Alentejo. Adega Cartuxa, Herdade do Esporão, Dona Maria Vinhos, Herdade do Sobroso, Herdade dos Grous e Herdade da Malhadinha Nova estão entre as melhores opções.

Se pesquisar bem, vai encontrar vinícolas com hospedagem, mas se preferir ficar dentro da muralha da cidade histórica de Évora, indico a Albergaria do Calvário. Um hotel familiar, onde o casal Peter (americano) e Nina (brasileira) acolhem os hóspedes com jeito de casa. As dicas de passeios e restaurantes são perfeitas; o carinho e a atenção deixam todos com vontade de voltar.

Se preferir algo mais luxuoso e histórico, o Convento do Espinheiro é uma excelente opção. O hotel fica fora da cidade e ocupa o antigo Convento de Nossa Senhora do Espinheiro, mesclando o edifício histórico com a parte moderna desse resort, que conta com um luxuoso Spa. As opções de quartos incluem os antigos e os modernos, enquanto os restaurantes ocupam áreas como o Claustro e a antiga cozinha do Convento. O hotel em si é uma aula de história e a Capela continua ativa onde são realizadas missas uma vez por mês. 

Capela do Convento do Espinheiro

Percorra as ruas de Évora e experimente a cozinha alentejana. O Restaurante Fialho, a Tasquinha do Oliveira e a Enoteca Cartuxa servem a saborosa comida tradicional da região. Comece pelos queijos e enchidos, se o clima permitir, experimente as sopas, mas deixe espaço para o prato principal, que inclui porco preto, caças e borrego. Tudo acompanhado por um excelente vinho. Se o pecado da gula não bater na consciência, ainda tem os doces à base de ovos.

Enoteca Cartuxa

A doçaria portuguesa é considerada conventual, porque antigamente era elaborada por freiras e monges em conventos, que utilizavam as claras para passar as vestimentas religiosas e clarificar o vinho. A sobra das gemas tornou-se a base de doces deliciosos.  

Não se restrinja à Évora, esta cidade deve funcionar como base para descobrir os outros encantos. De carro, percorra as estradas e encontre as vinícolas que lhe esperam de portas abertas, com reservas antecipadas.

Degustação de azeite

Já imaginou fazendo degustação de azeite numa vinícola? A Herdade do Esporão oferece esse serviço ao cliente e é uma ótima opção para o almoço quando estiver percorrendo as estradas da região.

Mas preste atenção à escolha da época do ano, porque o Alentejo é muito quente no verão. Se for na colheita, quem sabe pode ser presenteado com um cacho de suas uvas suculentas.

Ganhando um cacho de uvas

Abra o mapa e trace seus roteiros. Ao norte de Évora, visite a cidade de Arraiolos e descubra os tapetes que lhe deram fama. Inclua também Marvão, Castelo de Vide, Estremoz, Vila Viçosa, Elvas, Castelo de Vide, Viana do Alentejo e Monsaraz. Esta última, uma aldeia fortificada no topo de uma colina, de ruas pitorescas e uma vista deslumbrante do lago Alqueva.

São tantos caminhos que nos levam a conselhos, aldeias, vilas e cidades de paredes brancas e telhados vermelhos, temperadas com histórias, tradição na mesa, azeite da região e a bebida do Deus Baco, que é impossível passar apenas três dias no Alentejo para descobrir todos os seus encantos.

Monsaraz

Tradição portuguesa

Searinhas do Menino Jesus – No início de dezembro, os moradores do Alentejo plantam sementinhas de trigo em vasinhos com algodão embebidos em água, que são dedicados ao Menino Jesus. Após germinarem e se transformarem em pequenas searas, as plantas podem ser colocadas junto ao presépio. Segundo a crença local, as mudas postas à mesa da ceia não deixam que nela falte pão. Após o Dia de Reis, as searinhas devem ser transplantadas para a terra.


Receita de doces portugueses

Livro das Receitas de Doces e Cozinhados vários deste Convento de Santa Clara de Évora – Sóror Maria Leocádia do Monte do Carmo Abadessa18 | Santa Clara de Évora, 26 de outubro de 1729

Broas de Milho de Santa Clara
Toma-se um arrátel de farinha de milho e mais outro, um arrátel de farinha de trigo, dois arráteis de açúcar, um púcaro de bom leite, cravo-da-índia e erva doce quanto baste para aromatizar. Amassa-se tudo muito bem, tempere-se de sal e façam-se as broas e mandem-se ao forno.

Barriguinhas de Freiras
Ponha-se um arrátel de açúcar em ponto de pasta. Tomam-se seis ovos com claras e dez gemas, tudo batido com uma porção de pão ralado, que não vá além de uma chávena. Leve-se ao lume e logo que principiar a ferver, vai-se untando o tacho em calda com manteiga para não pegar e deixe-se cozer a lume brando até ganhar por baixo uma camada aloirada.

Queijinho do Céu
Um arrátel de açúcar e 24 gemas de ovos, uma quarta de amêndoas, o ponto é alto, juntam-se a amêndoa, depois aquecem-se os ovos com um poucadinho de açúcar para continuar logo; a massa quer-se mais branda do que a das castanhas; quando se fez este, cortam-se hóstias redondas; cada queijo leva duas. Molha-se a hóstia com água e deita-se a massa; põe-se a outra hóstia; depois de estar pronta vai ao forno brando, depois de fria passa-se por açúcar em ponto.

Trouxas d´ovos
Batidas com varas e levantadas uma dúzia de claras de ovos, ajuntam-se-lhe as gemas, cascas de limão, flor de laranja coberta, tudo picado, piscadelas de amêndoa, açúcar fino, sal e uma gota de leite. Estando tudo bem misturado, ponha-se a cozer em manteiga clara e bem quente, depois de cozido ponha-se no seu prato e sirva-se vidrado com açúcar fino e pá quente.

Pastelinhos de Nata
Desfeitos em açúcar fino seis covilhetes de natas e quinze gemas de ovos, engrossa-se ao lume; guarneçam-se depois umas fôrmas de massa folhada, e metida a nata dentro, meta-se a cozer no forno; em a massa estando cozida e com boa cor, sirvam-se quentes.

Alentejo, the perfect Portugal

Sobre o pão português, ouça o episódio “O Pão” de Cacaidisse: clique aqui para ouvir.


Acesse também: Encarando as ondas de Nazaré, Officina della Bistecca, Arquitetura na Rioja e Turismo em posts.

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