No Rastro das Águas – Capítulo 23

(…)

Na esfera familiar, Antônio Bezerra alcançava o ápice de sua carreira de comerciante, tendo acumulado uma fortuna considerável. Em 1924, construiu uma nova casa no lugar da antiga, de arquitetura arrojada para os padrões do município. Bem-humorado e conversador, sua casa logo virou ponto de parada para os ilustres seridoenses, em passagem por Currais Novos. Viajava constantemente, mas, quando estava em casa, primava pelas boas normas de educação e valorizava objetos refinados. Em suas constantes viagens, já afortunado, passou a gastar em jogos e em algumas escapulidas, entremeados de alguns goles para enaltecer os ânimos. Ritinha, muito vaidosa, chegou a acompanhá-lo em diversas viagens e, descobrindo suas escapulidas, passou a evitar determinados lugares, restringindo-se a dar uma boa educação a seus filhos.


José estava concluindo o preparatório em Natal, no Colégio Santo Antônio, mas nas férias retornava para Currais Novos. A viagem entre a capital e seu município já não era tão demorada quanto há dez anos antes, quando percorriam quase todo o trajeto no lombo de um animal, demorando até três dias e meio. O automóvel encurtara as distâncias, porém provocava muito enjoo, tamanha a precariedade da estrada, os buracos e os solavancos; ao longo do caminho, muitos viajavam cheirando limão, para amenizar o sofrimento. Lembrando-se da primeira vez que avistara um carro, deu uma gargalhada, pois seu sonho já tinha se realizado. Seu pai adquirira um Ford Bigode, como chamavam o Ford 25. Nos seus dezessete anos, ensaiava os primeiros treinos na direção.

Divertindo-se nas estancadas e nas trocas de marcha no pedal, quando tinha que apelar para a manivela para que o carro pudesse pegar, achava que era mais fácil domar um animal. Não tinha encontrado tanta dificuldade, na infância, para aprender a montar. Mas quando conseguia percorrer os primeiros metros, seu desânimo cedia lugar à empolgação. Percorrendo as ruas de Currais Novos, no esplendor de sua juventude, enchia o peito, achando-se homem feito. O moleque, que antes circulava livremente entre a sede do município e as fazendas, tornara-se um rapagão alto e bonito, com um temperamento mesclado pela sensatez de sua mãe e o espírito brincalhão de seu pai, sendo considerado um promissor partido para as moças casadoiras. Ainda bem que os casamentos já começavam a se realizar um pouco mais tarde, assim teria tempo para alçar voos mais longos.

Numa cidade pequena como Currais Novos, onde todos se conheciam, formando uma grande família, e onde a calmaria se perpetuava nas conversas nas calçadas, a vida social era pouco movimentada. Para agitar a calmaria e aproveitando o retorno dos estudantes nas férias, quando alguns meses fora da terra natal provocavam transformações nos adolescentes de então, promoviam-se concursos para escolha das moças mais belas e dos rapazes mais elegantes. Apesar dos recatados e discretos namoros, casais trocavam bilhetinhos escondidos, que levavam a rompantes apaixonados, tão comuns à idade.

Ainda como diversão, possuíam um cinema, que funcionava desde 1920. Alguém, cheio de má intenção, alimentava-se de um cardápio caprichado, repleto de batata-doce e cebola, apenas para divertir-se no escuro do salão. Quando a fita começava a rodar, odores exalados afugentavam até os mais resistentes pagantes. Ninguém suportava o mau cheiro, o protesto era geral, para alegria do protagonista.

Mês de férias, mês de Santana. A cidade modificava-se, toda direcionada para o lado religioso e social da festa de sua padroeira. Quantias significantes eram doadas pelos mais afortunados, em busca da remissão dos pecados e de um lugar no céu. Os mais humildes continuavam com a fé inabalável, destinando os melhores exemplares de seus roçados à Santana. Moças e rapazes tiravam rezas nas novenas com olho nos leilões e bailes que eram promovidos. Também era época das vaquejadas, com o gado gordo correndo no mourão e cavaleiros a disputar as mais bravas corridas. José aproveitava para também participar. Não encontrava o verde frondoso de abril, pois o pasto já começava a secar, mas o encontro com os vaqueiros da fazenda e com os amigos de infância, junto com o contato com os animais, revigorava sua alma e alimentava seu amor à terra.

Tomado pela impulsividade da juventude, retornava à rua para desfrutar da curta temporada das férias. Divertia-se com os casos contados na praça. Seu Ernesto, um jardinense que chegara a Currais Novos no início da década, era um dos principais protagonistas. Possuía um Ford Bigode, com o qual ganhava a vida transportando pessoas. Dono de um senso de humor satírico, variava a conversa de acordo com o estado do interlocutor. Quando, certa vez, estava pendurado no alto de uma escada consertando o telhado, foi indagado se estava tirando goteiras, ao que negou, pela lógica de sua ação, dizendo que estava cavando uma cacimba. Um dia, quando carregava duas panelas de barro, indagaram qual delas era mais forte. Para solucionar a questão, Seu Ernesto bateu uma panela contra a outra, espatifando-as, e ele respondeu: – “as duas são iguais”. José divertia-se com essas histórias, pois também gostava de pregar umas peças de vez em quando.

Uma novidade que tomava conta da rua girava em torno da realização de um plebiscito com vistas à mudança do nome do município de Currais Novos para Galvanópolis, em homenagem a seu fundador, Capitão-Mor Cipriano Lopes Galvão. Porém o intento não obteve êxito, pois no Seridó não se costumava realizar homenagens dessa natureza a seus filhos ilustres. Assim a tradição prevaleceu e o nome de origem foi mantido.

As férias estavam acabando e José tinha que planejar seu futuro. Os estudos ainda não eram muito bem aceitos pelos fazendeiros, mas as viagens constantes de seu pai tinham permitido que ele desfrutasse de uma visão mais progressista. Sob a influência de amigos e comerciantes, Antônio não teve dificuldade em convencer José a estudar Agronomia, em Belo Horizonte. Sua futura profissão contribuiria para levar à frente as atividades de seu pai e o manteria em contato com a terra. Escolheram uma profissão bem atualizada para a época, tendo em vista que o próprio governo estadual investia na melhoria da cotonicultura.


Acesse também: No Rastro das Águas – Capítulo 19, Capítulo 20, Capítulo 21 e Capítulo 22.

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