No Rastro das Águas – Capítulo 25

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A viagem pelo litoral brasileiro serviu para incrementar seu amor à praia. Durante o percurso, a rapaziada não pôde deixar de presenciar, dia-a-dia, a disputa pela beleza de cada pôr-do-sol. Incrementavam o repertório para o romantismo das declarações de amor às jovens de então. Fotos foram tiradas e, com toda a energia da idade, planejavam as ações para os próximos quatro anos na capital mineira. A viagem no vapor prosseguiu até à capital da República. Extasiados, descobriram a beleza natural do Rio de Janeiro e de lá tomaram o trem com destino a Belo Horizonte.


A adaptação a Belo Horizonte foi rápida. Em pleno vigor da juventude, José Bezerra engajou-se em diversas atividades comuns aos jovens. Na pensão onde viviam, fundaram a República Nordestina, e, procurando botar ordem no local, estabeleceram que cada mês um morador seria responsável pelas finanças da república. Entre seus ocupantes ilustres estavam, além de José Bezerra, Sílvio Bezerra e Odorico Ferreira, Segundo Saldanha e Valdemar Santiago. Reuniam uma porção das mesadas enviadas por seus pais, para as despesas comuns. No mês em que ele era escolhido presidente, sempre sobrava algum dinheiro em caixa, enaltecendo a sua fama de pão-duro. Gastando suas energias, descobriu a paixão pelo futebol e chegou a jogar no antigo América da capital mineira.

Os jovens do sertão nordestino, com seus bons modos e educação severa, logo fizeram sucesso entre as mineiras. A semelhança entre os costumes deve ter contribuído para a situação. O tradicionalismo mineiro era bem parecido com o do sertão norte-rio-grandense, pois ambos se situavam no interior, distantes da modernidade do litoral. Minas tinha passado, bem antes, pelo surto do ouro e vivia do gado leiteiro; o Seridó passava pelo surto do ouro branco, o algodão, mas tinha sido desbravado graças aos currais. Deixando de lado as conjecturas, o certo é que os rapazes, tomados de rompantes de paixão e espírito romântico, preencheram os corações de belas moças. Bilhetes e cartas amorosas eram trocadas, enquanto serenatas soavam junto às janelas dos casarios. Em agradecimento, recebiam quitutes apetitosos da mesa mineira, que variavam o repetido cardápio da república.

Entre um flerte e outro, com uma troca de olhares mais demorada, José Bezerra descobriu a jovem senhorita Dulce Verneck de Carvalho, de importante família mineira. Os corações palpitaram mais forte e logo estavam namorando. Na despedida do final de ano, promessas recatadas de amor infinito. Na curta temporada de férias, cartas e mais cartas eram trocadas com saudades, convidando a um regresso prematuro.

Por causa da distância, o retorno à terra natal somente acontecia nas férias de final de ano. José Bezerra não encontrava a fartura dos meses verdes, mas a expectativa das primeiras chuvas para alegrar os sertões. Revia os amigos e revigorava-se no contato com a natureza, para regressar aos braços de sua amada. O namoro prosseguiu e resultou em noivado, assegurando assim suas melhores intenções.

A comunicação com o Seridó era feita por cartas e exemplares de jornais locais que alguns amigos lhe enviavam. Através deles, podia tomar conhecimento das novidades de sua terra.

Lendo as últimas notícias, lembrou-se do episódio na fazenda Alívio, de seu avô Manuel Salustino, quando ainda era criança. Conhecera o famoso cangaceiro Antônio Silvino, preso em Pernambuco, desde 1914. Aliás, numa de suas vindas a Belo Horizonte, passara, junto com Sílvio, na Casa de Detenção do Recife, em visita ao Capitão. Prosearam um pouco e lembraram-se dos queijos de sua avó materna, D. Ananília. Comparando-se ao terror que assolava os sertões, as ações de Antônio Silvino não se aproximavam nenhum um pouco das do Capitão Virgulino Ferreira, o Lampião; ao contrário, o primeiro sempre visitou o Rio Grande do Norte pacificamente.

Desde 1922, quando assumiu o bando de Sinhô Pereira, Virgulino Ferreira da Silva, nascido em Serra Talhada/PE, espalhava o terror pelo sertão nordestino. Em 1926, quando se dispôs a combater a Coluna Prestes no Ceará, recebeu de Padre Cícero a patente de Capitão, mas o exército e a polícia militar não a reconheceram e ele voltou ao banditismo, mais armado e poderoso do que nunca, espalhando sangue, sequestros, surras, saques, tortura, fogo e morte. Tornara-se cada vez mais audaciosos e, naquele ano, aproximava-se do litoral, sem temer as volantes em seus encalço. Se, no Sul, os movimentos revolucionários organizavam-se contra as oligarquias dominantes, no interior do Nordeste os coronéis armavam-se em defesa de seus patrimônios contra o famoso bandido.

Correu o boato que Lampião pretendia invadir Mossoró – cidade localizada no noroeste do Estado, entre Natal e Fortaleza –, que então se caracterizava como importante entreposto comercial, classificada como o mais importante depois de Natal. Na verdade, ele penetrara no Estado pela Zona Oeste, demonstrando toda sua força nas fazendas, vilas e povoados por onde passava, com destino a Mossoró. Ciente de que o terror se aproximava, o então presidente da Intendência Municipal, Coronel Rodolfo Fernandes, tratou de armar sua resistência. Traçou um plano e armou a resistência com a coragem dos mossoroenses, distribuindo trincheiras nos principais pontos da cidade.

Dia de Santo Antônio, 13 de junho de 19274, Lampião mandou um bilhete exigindo a quantia de quatrocentos contos de réis para não entrar na cidade e caso não fosse atendido, iria haver muito estrago. Rodolfo Fernandes manteve-se intransigente e respondeu que estavam preparados para defender Mossoró. À tarde, o cangaceiro e seu bando invadiram a cidade, sendo recebidos à bala. Lampião perdeu alguns homens, entre os quais Jararaca, que foi baleado, preso e morto, tendo que recuar e evadir-se para o Ceará. O povo mossoroense saiu vitorioso. Esperavam que o Capitão tivesse aprendido a lição e não retornasse àquelas paragens.

O acontecido foi manchete nos diversos jornais do Estado e José Bezerra lia cada linha com muita atenção, envaidecido com a coragem dos potiguares. Relatando o acontecido à sua noiva, pôde perceber o crescente entusiasmo de sua interlocutora. Atenta a cada palavra, Dulce deu asas à imaginação e viu-se em meio ao tiroteio, fantasiando cenas de mocinhos e bandidos, como nos filmes de faroeste americano, em que travavam um duelo para desfrutarem da simpatia da mocinha. Despertou ao chamado de José Bezerra, que a trazia de volta do sonho distante.


Acesse também: No Rastro das Águas – Capítulo 21, Capítulo 22, Capítulo 23 e Capítulo 24.

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