Surf nos anos 70

Quem tem o mar a lhe banhar, sempre encontra uma maneira de aproveitar os seus benefícios. Ainda bebê, começa com o pezinho nas cacimbas cavadas pelos pais na areia, vai aos poucos se familiarizando com as marolinhas, vira criança pegando cavalete (jacaré), depois quer, inevitavelmente, uma prancha.

Na minha infância, começávamos com aquelas de isopor, que deixavam a barriga toda assada. Aí descobrimos que podíamos usar uma camiseta ou vestir a prancha para evitar os arranhões, que ardiam bastante no contato com a água salgada.

Final dos anos 70, início dos 80, os meninos evoluíram para a prancha de fibra, surfando na praia dos Artistas, enquanto as meninas ficavam fora d’água, biquíni de crochê, só na paquera daqueles parafinados dentro do mar. O Boy percorrendo a praia, avisando para todo mundo que estava na área.

O surf chegou como moda entre a moçada. Todo mundo queria uma prancha, para desespero dos pais, que enxergavam a fama de malandros e maconheiros dos surfistas. Mesmo com toda rejeição da geração mais velha, a turma encontrou no surf a maneira de pegar as ondas da Praia dos Artistas.

Parafina na prancha e nos cabelos, queimados por longas horas expostos ao sol, um jeito maneiro de se movimentar, fala arrastada, cheia de gírias, cabelos mais longos, muita remada e altas ondas. Aqui em Natal, nem tão altas assim.

Os mais afoitos descobriram as praias de Pipa e Baía Formosa, levados por Luruca, familiarizado com a praia de veraneio dos senhores de engenho de Goianinha. Depois de enfrentarem estrada de barro e areia, os surfistas acampavam ou dormiam nas casas dos pescadores, o importante era aproveitar as ondas que quebravam por lá.

A roupa também sofreu modificações. A loja “Love” no edifício Barão do Rio Branco vendia pranchas, parafinas, estrepes, calções mais compridos no lugar das sungas, calça unissex “Cocota” (cintura baixa, com três botões e boca de sino), tênis All Star, camisa “Hang Ten”. Novas cores e estampas incorporadas ao visual. Um jeito de menino do Rio, calção corpo aberto no espaço, coração de eterno flerte.

Sem transmissão na TV, sem mídias sociais, YouTube ou celular, as notícias e imagens do Surf eram muito escassas. Chegavam apenas por meio de revistas, vendidas em cigarreiras, como a “Fluir”, “Brasil Surf” e a “Visual Esportivo/Surf”. As manobras e tubos eram curtidos em material impresso. Quando alguém dificilmente viajava para fora do Brasil, era certeza receber encomendas de revistas, pôsteres e fitas Vhs de campeonatos mundo afora, especialmente no Havaí, sempre famoso por suas ondas.

Pegando carona na onda, surfistas começaram a despontar em Natal. Ronaldo Barreto, Felipe Dantas, Ivo, Serginho Testinha e muitos outros com apelidos inusitados passaram a fazer história. Se dava para chamar de profissionais, tenho dúvidas, mas viviam dedicados ao esporte.

As histórias, as pranchas, as manobras e o estilo daquela época, tão diferentes da atualidade, valem uma crônica à parte.

Hoje o esporte mudou, o surfista virou atleta profissional, as mulheres entraram no mar e estão no circuito mundial. O surf vai estrear nas Olimpíadas em 2020 no Japão. O Brasil certamente estará presente, em razão do desempenho dos surfistas brasileiros no Circuito Mundial da World Surf League e do ISA World Surfing Games.

O barateamento do transporte aéreo, a globalização e a comunicação em tempo real facilitaram bastante a vida dos atletas, que hoje percorrem o mundo em busca da onda perfeita. Os praticantes, espectadores e amantes do esporte agradecem o show de belas imagens.


Best Rides Ever in Surfing


Acesse também: Entrevista com Jadson Andre e Não nasci passarinho.

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6 comments

  1. Parabéns pela crônica !!! Apenas como informação a revista se chamava “Visual Esportivo” naquela época contemplava matérias sobre, Surf, Skate, Vôo Livre e Windsurf.

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