Herança saborosa

Imagem da exposição sobre Câmara Cascudo

Cresci ouvindo meu pai repetir a história de meu avô materno, quando dizia que minha mãe só gostava de “comida de artista de cinema”. Nem sei o que isso significava, mas suspeito que fosse uma comida mais refinada, como a própria “gulosa”. Os termos gourmand e gourmet ainda não estavam presentes no nosso vocabulário, apesar de o francês ser a segunda língua ensinada nas escolas antes da Segunda Guerra Mundial.

Minha bisavó paterna era baixinha e “cheinha” como eu. Sua cozinha estava sempre em atividade, com doces e bolos para os convidados, mantendo a tradição da cultura canavieira onde nascera, muito bem estudada pelo Mestre Câmara Cascudo em “História da Alimentação no Brasil”.

No Seridó, região dos meus avós, crescemos tomando leite espumando no copo na hora da ordenha e coalhada com raspa de rapadura, comendo queijo de coalho e de manteiga, tapioca, paçoca de carne de sol, canjica, pamonha, milho cozido e assado em tempos de colheita. Cada sertanejo esmerando-se na arte de bem receber com mesa farta, exceto alguns poucos que possuíam gavetas sob o tampo da mesa para esconder a comida, caso chegassem visitas inesperadas.

Com tanta carga genética, não poderia ser diferente. Gosto de comer e apreciar uma boa culinária. Tenho o paladar aberto, apesar da restrição ao açúcar por causa da resistência à insulina. Sou obediente e respeito as recomendações médicas, mas encaro bem a comida rústica e tradicional, sem recusar a alta gastronomia.

Casei aos vinte e dois anos de idade e era zero na cozinha. Mal sabia fritar um ovo. Nos primeiros dias, comprei um livro que ensinava o básico, tipo feijão com arroz, carne moída, bife à milanesa e tudo que o brasileiro costuma se alimentar.

O tempo foi passando e eu me aprimorando no manejo do fogão. Não sou nenhuma “chef”, mas gosto de uma boa mesa e até “arranho” alguns pratos.

Certo dia recebi de minha tia paterna um texto do famoso chef argentino, Francis Mallman, publicado no jornal La Nacion. Nunca provei seus pratos, mas desde então saboreio seus escritos maravilhosos, expressando o mundo apaixonante da alquimia culinária, o prazer e a beleza de compartilhar a mesa.

Não tenho a formação do argentino, nem sua experiência e conhecimento gastronômicos, mas pretendo compartilhar com o leitor as sensações que a comida pode proporcionar ao indivíduo.


Feitio do queijo de manteiga no sertão
Queijo de manteiga

Apenas mineiros e sertanejos nordestinos, do ciclo pastoril, comem o queijo solitário. Melhor dizer, comiam, porque de muitos anos para cá, o queijo pede complemento direto e não pode constituir oração completa. Há mesmo o mineiro com botas, goiabada, queijo e bananas. Mas no sertão o queijo era, quase sempre, assado e, nas fazendas de fortuna mediana em diante, saboreado com farofa de ovos duros, sal, manteiga da terra, meio insossa. O estrangeiro ainda pode comer o queijo e depois beber o copo de vinho. Um bom brasileiro jamais o fará.” – Câmara Cascudo em História da Alimentação no Brasil.


“Foi assim que abracei a cozinha, onde, sem me dar conta, passo a passo fui encontrando ferramentas para expressar minha paixão pela vida. Assim, aquela pequena janela parcamente iluminada, que envolvia o universo do sabor e alquimia, que parecia uma saída de trabalho apenas digna nos meados dos anos 60, foi somando contrastes, cores, batalhas e alegrias. Nunca imaginei, quando comecei, que os caminhos da alimentação terminariam comunicando-me e levando-me a estudar, como autodidata, todas as expressões da arte, da história, da geografia e das ciências, uma vez que a história da própria humanidade está imbuída do amor pelo comer e pelo beber. É, foi e será, à mesa, onde transcorre grande parte do nosso passatempo em compartilhar e celebrar, independentemente de raças ou credos, regiões ou países. Além disso, a beleza de sentar-se evoca democraticamente os mesmos sentimentos de participação em todas as mesas, das mais simples às mais luxuosas.” – Francis Mallmann

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6 Comentários

  1. sobre Arte Culinária:tenho un pequeno stick na minha geladeira
    “COCINAR ES ABRIR UNA HELADERA Y PRODUCIR ALGO
    GOSTOSO EN 20 MINUTOS.”
    Esa es la verdad de cocinar,
    esa es lá delicia de cocinar!!!

    1. Você me ensinou que a verdadeira arte de cozinhar está na simplicidade. Se consegue trabalhar com os ingredientes da geladeira e produzir algo em 20 minutos, então tem talento de sobre na gastronomia. Beijão Tia.

  2. Minha amiga Elzinha, estou achando que vc encontrou um bom passa tempo para saborear sua aposentadoria, e eu bastante tempo para acompanha-la em suas crônicas……como diz meu irmão Márcio: “temos talento para aposentadoria” kkkkkk

    1. Pois é Mirna, minha aposentadoria está sendo bastante produtiva, kkkk. Como você também cria e inventa, está no mesmo barco, kkkk. Hora de aproveitar a vida!

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