A irreverência do Estúdio Mula Preta

No sertão antigo, quando o gado corria solto em terras não demarcadas, a res era ferrada com a marca do dono, juntamente com o sinal da ribeira onde estava encravada a propriedade.

Para tocar a fazenda, cavalo, burro e jumento faziam a serventia. Do cruzamento da égua com o jumento, nascia a mula; animal híbrido, via de regra estéril, mas bastante resistente.

No escritório da casa de madeira, de frente para o mar de Natal, cercadas de livros, crianças acompanhavam a narrativa de um avô divertido, de olhos e ouvidos bem atentos. À medida que a história avançava, seres inanimados, desenhados ao sabor da aventura, ganhavam vida na imaginação infantil.

Muitos anos depois, o jovem arquiteto Felipe Bezerra começou a traçar rabiscos, que nem seu avô contando divertidas histórias. Encheu cadernos de ideias.

Ao encomendar maquetes eletrônicas ao engenheiro André Gurgel, Felipe encontrou um parceiro que também desenhava móveis em seus cadernos. A empatia e a amizade foram imediatas. A brincadeira virou negócio sério e os rabiscos transformaram-se em móveis de design, surgia a Mula Preta.

André Gurgel e Felipe Bezerra

O nome é uma referência a um dos primeiros sucessos na voz de Luiz Gonzaga, o nordestino Rei do Baião. Mula Preta marca a irreverência do estúdio dedicado à produção de móveis contemporâneos, com bastante personalidade.

Os designers natalenses resolveram demarcar território em terras distantes. São Paulo – a cidade mais cosmopolita do Brasil – foi a escolhida para abrigar o estúdio Mula Preta, justamente na Alameda Gabriel Monteiro da Silva, nº 289, endereço nobre quando se fala em arquitetura, decoração e design na capital paulista.

O estúdio abriu sua grande porta em novembro. Na frente, um jardim que remete à vegetação resistente do Sertão, autoria do paisagista Alex Hanazaki.

Na fachada preta, está ferrada a logomarca da Mula Preta, bem ao lado da Taschen, editora alemã dedicada aos livros de arte, que terá na loja um lugar exclusivo de exposição e comercialização de seu portfólio.

Dentro da loja, há espaço suficiente para o visitante respirar e surpreender-se a cada peça de um mobiliário criativo. Como toda regra tem exceção, ao contrário do animal estéril que lhe deu nome, a Mula produz, e produz bastante!

Mesa de centro Garoto

Pausa para uma boa conversa com André Gurgel, porque Felipe Bezerra já foi meu entrevistado. A alegria transparecendo na fisionomia do designer talentoso. Papo sobre o processo criativo, insights e troca de ideias de uma dupla que trabalha em completa sinergia há mais de dez anos, produzindo objetos sem paternidade exclusiva. E os caderninhos continuam cheios de rabiscos.

Desses processos, brotam centopeia, cavalete, tetris, kichute, cacto, sanfona, garoto, falésia, vitória régia, ping x pong, pebolim, apito, duna, basquete. Nomes de bancos, aparadores, mesas, sofás, poltronas e objetos. Peças lúdicas, irreverentes e funcionais, que remetem aos contadores de suas próprias histórias.

Banco Cavalete
Poltrona Basquete e Aparador Cavalete
Pebolim Pulse
Banco Kichute

Trabalho árduo e persistente da dupla Felipe Bezerra e André Gurgel, que chegou em São Paulo com a garra, ousadia e arrojo de quem acredita no que faz, resgata suas raízes e prova que sua identidade pode ser sinônimo de contemporaneidade.

Além dos móveis, os livros da Taschen estão estrategicamente dispostos na estante K7. A editora alemã mesclando-se ao design nordestino com envergadura contemporânea. Estante coberta de arte, no ambiente que respira design e funcionalidade.

O que mais me chamou à atenção foi o livro sobre David Hockney. Amei folhear sua obra em catálogo gigante. Vontade de levar para casa e pendurar na parede. Sou fã de suas cores límpidas como a água de suas piscinas.

Hockney | Taschen

No canto estratégico da loja, o oratório Padim Ciço. A peça reúne as linhas retas da madeira, a cruz em ferro, o vaso delicado e o apoio para vela. A ausência de imagem abençoa o local de devoção da dupla de designers talentosos.

Oratório Padim Ciço

Deus o livre e guarde o Sertão; Deus o livre e guarde os nordesters!

Como diz a letra da música, oh mulão de qualidade!


Acesse também: Entrevista com Felipe Bezerra, Entrevista com Gracita Lopes, A surpreendente arquitetura de Roterdã e Mestre Espedito Seleiro.

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