Brincadeiras de rua

Painel da Ocupação Lydia Hortélio – Itaú Cultural/SP

Entre três irmãos, sou a única mulher e a filha do meio. Tinha um quarto só para mim, apesar de conter duas camas. A janela era alta e tinha grades de proteção (coisa de pouca utilidade à época). Então, como a violência não cerceava nossa liberdade, ao invés de olhar pela janela, saia pela porta da frente para vivenciar minha infância.

Os muros das casas ainda eram baixos, serviam apenas para delimitar a propriedade, sem qualquer função de proteção. Cercas elétricas nem existiam. Morávamos numa rua tranquila de paralelepípedo, o terror para as unhas dos pés, eternamente machucadas pelas topadas. Poucos carros trafegavam pela rua, então tínhamos ela inteira só para brincadeiras.

Tica, bandeirinha, queimada, pular corda, elástico, academia, pega-pega, soltar pipa, carrinhos de lata, esconde-esconde.

Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete….(contagem apressada), trinta e um alerta, lá vou eu. Fulano atrás do poste, beltrano em cima da árvore. Sicrano por trás do fusca. Corri, mas não deu tempo. Ele chegou primeiro na mancha e salvou a todos. Volto logo o rosto para o poste e recomeço apressadamente a contagem. Dessa vez, chego primeiro.

Par ou ímpar? Par. Um, dois, três, já: dois mais três, cinco. Você escolhe. Formávamos os times para bandeirinha, polícia e ladrão, queimada. Os mais fortes eram escolhidos primeiro, os mais fracos ficavam sempre por último e ainda tinha o “café com leite”. Esse não vale, é muito pequeno, está aqui de faz de conta.

Nas peladas da rua, ficava de fora, fazendo papel de “enfermeira” para qualquer emergência. Logo eu, que quase desmaio só de ver o sangue aflorando. Futebol era só para homem. Joelhos ralados, dedos desmentidos e topadas eram frequentes, mas ninguém ficou traumatizado. Chegávamos a passar areia no machucado e continuávamos a brincadeira. Ruim mesmo era a larva migrans, caminhando sob a pele e provocando uma coceira infernal.

Mão na terra, cavávamos as covas para as bilocas. Chão riscado, vamos ver quem começa. O tilintar das bolinhas de vidro soava familiar, mas quem conseguia uma esfera de metal levava vantagem. Ah, e aquele tecão, vale não, assim é covardia! Eita, passou raspando. Minha vez. Ganhava aquele que tinha mais pontaria. Voltava para casa com um saco cheio de “bolinhas de gude”.

Naquela área, a bicicleta era nosso meio de transporte. De vez em quando, os meninos retiravam os freios para usar as chinelas “japonesas” como tal. Coisa de quem não tem o que fazer e adora inventar. Podíamos circular sem restrição pelo bairro e ainda tínhamos os carrinhos de rolimã. Pena que as ladeiras eram inexistentes na nossa rua.

O tempo passou, cresci (um pouco, ainda permaneço baixinha), casei, tive filhos. Vinte e poucos anos de diferença e a violência modificou a maneira de aproveitar a infância. Os muros cresceram, as grades tornaram-se úteis, as cercas elétricas surgiram, a cidade virou vertical, a infância passou a ser vista da janela.


Acesse também: Aero no memória e Macambira e cajás.


Carlos Drummond

Brincar na rua

Tarde?
O dia dura menos que um dia.
O corpo ainda não parou de brincar
e já estão chamando da janela:
É tarde.

Ouço sempre este som: é tarde, tarde.
A noite chega de manhã?
Só existe a noite e seu sereno?

O mundo não é mais, depois das cinco?
É tarde.
A sombra me proíbe.
Amanhã, mesma coisa.
Sempre tarde antes de ser tarde.

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8 Comentários

  1. Elzinha, muito bom ler suas crônicas, um privilégio! Elas me deixam sempre com “água na boca”… Algumas despertam a curiosidade, outras a saudade, a beleza, a arte; e em todas, a grande vontade de estar inserida em cada detalhe. PARABÉNS!

    1. Kaká, vc é suspeita para falar, kkkk. Brincadeira, seu comentário é muito importante para mim. É um prazer proporcionar tantas sensações agradáveis ao leitor e estou adorando escrever. Cada tema é uma maneira nova de me descobrir. Muito obrigada, beijão!

  2. Aaaaa como é bom recordar nossa infância!!!!
    Disse tudo com a perfeição de quem vivenciou momentos tão preciosos.
    Juro a vc que fico com pena de meus netos que não tiveram essa sorte, mas fazer o quê???? Bjs baixinha, é saudade! kkkkkkk

    1. Também morro de pena de meus filhos não terem vivenciado tudo isso. Imaginem os netos! Vou torcer para que o mundo vire de ponta cabeça e volte aos nossos tempos da infância, kkkk. Beijos.

  3. Bons tempos esses do que alguns criminosos chamam de Ditadura e eu chamo de melhores anos de pura liberdade, que jamais vivi… liberdade para ir e ficar em qualquer lugar, sem medo de assaltos ou insegurança… nossos carros ficavam na rua de noite ou de dia, totalmente abertos.. o único medo que tínhamos era da chuva que molhava os bancos…

    1. Nasci em 1964 e tive uma infância feliz, graças à possibilidade de brincar na rua, sem medo da violência, que nos dias atuais mata mais de 50.000 por ano.

  4. Ahhh!!! Quanta saudade de minha infância.
    Morei seis anos em um sitio,e além dessas brincadeiras ainda tínhamos as árvores para subir e diversas frutas para comer. Infelizmente essa felicidade fica só em minha memória…

    1. Tivemos uma infância feliz! Acabo de ver um comentário de um pediatra famoso sobre a necessidade inadiável de fazer a criança ter contato com a natureza.

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