Celebrando a vida

No início, a adaptação ao animal. A gente senta na sela e segura as rédeas com firmeza, para que o cavalo saiba quem está no domínio. Foi assim que me ensinaram. Depois vai soltando devagarzinho, um trote ligeiro até chegar ao galope baixeiro.

Cavalgava com as rédeas mais ou menos soltas, o vento no rosto, inebriada pelo cheiro do verde esparramado no ar, olhar solto até onde a vista alcançava, quando ouvi um grito ao longe. Estanquei o cavalo repentinamente e olhei em direção à casa grande da fazenda Bonança. Papai estava em pé no alpendre, gesticulando muito para eu voltar. Virei as rédeas e o cavalo acelerou o passo, como sempre fazia no retorno para casa.

Quando apeei do animal, levei um carão inesquecível. Papai me viu no galope apressado, ficou preocupado e gritou para eu voltar, mas o vento não me deixou ouvi-lo. Estava em plena adolescência, destemida, aproveitando a sensação de liberdade.

Vivia a época de não ter medo de nada, muito menos de queda de cavalo. É sempre assim na adolescência: um olhar inquietante, um nariz empinado (como se tudo soubesse), uma vontade de quero mais, uma postura de desbravadora, uma irresponsabilidade anunciada. Os anos vão passando e a vida encarrega-se de equilibrar a balança.

Nós seguramos as rédeas no arrancar e no estancar, desviamos obstáculos, mudamos de direção, levamos gritos, aceleramos o passo, recuamos, avançamos e assim seguimos, traçando nossos caminhos. Hoje chego aos 55 anos de vida. Por mais que minha mãe peça para não revelar a idade (para ninguém ousar calcular a dela), não tenho nenhum problema em lidar com o passar dos anos.

Ao contrário, em muitos aspectos, sinto-me como uma adolescente na busca incansável do inatingível. Não obedeço à ordem cronológica, prefiro ditar minha idade mental. Aposto na longevidade da família. Tenho uma vontade insaciável de descobrir novos horizontes, de me reinventar.

Olhando para trás, sinto que virei a curva da vida, estou quase como o cavalo de volta para casa, acelerando o passo, sem ter que respeitar aquele instrumento que conta os minutos, multiplica as horas e acrescenta os dias ao calendário.

Sigo firme, relatando fatos, descrevendo acontecimentos, revelando lugares por onde cavalguei. Descobri esse dom para escrever e estou adorando compartilhar meus escritos com os leitores. Uma verdadeira forma de celebrar a vida!


Cora Coralina – Saber viver

Não sei…
se a vida é curta
ou longa demais para nós.
Mas sei que nada do que vivemos
tem sentido,
se não tocarmos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser:
colo que acolhe,
braço que envolve,
palavra que conforta,
silêncio que respeita,
alegria que contagia,
lágrima que corre,
olhar que sacia,
amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo:
é o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela
não seja nem curta,
nem longa demais,
mas que seja intensa,
verdadeira e pura…
enquanto durar.

The Piano Guys – Over the Rainbow/Simple Gifts

Acesse também: Um novo dia, Voos largos e Pausa para recarregar.

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18 comments

  1. “Celebrando a vida”está maravilhosa. Quando lemos, sentimos as sensações do viver. Cora Coralina e Rainbow, completam. “Fã de carteirinha”. bjs.

  2. Parabéns Elzinha. Fiz uma analogia na sua crônica enxergando através dos olhos de tio Haroldo sobre o alpendre da Fazenda Bonança. Os ensinamentos da vida desenhados na crônica através do preparo da monta e cavalgada, liberdade da adolescência no galope preocupante do cavalo e o passar das rédeas(responsabilidade) de um pai para um filho seguir a vida segurando as rédeas antes guiadas por ele. Feliz pelo belo ciclo vivido

  3. Mais uma linda crônica, Elzinha! Um prazer a leitura agradável desta cavalgada “intensa, verdadeira e pura”. “PARABÉNS!!!

  4. Nossas cavalgadas são sempre à frente…e as boas lembranças nos fazem retornar no tempo. Continue compartilhando suas lembranças e experiências com seus lindos
    textos.

  5. Viva Elzinha!!! Nos presenteia com esse texto que nos leva a(nossa) cavalgada. Para você desejo muito mais ciclos floridos e com bons deleitos de escrita.

  6. Que presente nos, os leitores, ganhamos com suas crônicas… uma melhor que a outra! Me transporto para o campo e posso sentir cada sensação vivida por você… pena que sai curtinhas… mas, da pra ficar com gostinho de quero mais a cada uma que termina….parabéns! 55? Não pode ser..

  7. Parabéns, Elzinha. Pela bela bela crônica e por seu aniversário. Você nos presenteia cada vez que escreve. É sempre um prazer visitar seu blog.

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