Fazenda em festa

Fazenda Pitombeira | Acari/RN

Verdes, brancas, azuis, amarelas, vermelhas. Os dedos, impregnados de cores e sujos de cola, pregavam, uma a uma, as bandeirinhas coloridas no cordão esticado entre um pilar e outro do alpendre. Sentadas no chão, recortávamos revistas velhas, com fotos bem coloridas, em formato de bandeirinhas ou de pequenos balões.

No alpendre lateral, mãos não vadeavam. Quebravam a ponta da vagem, puxavam o fio até o final e, com a ajuda da unha afiada do polegar, retiravam todos os grãos da vagem. Enquanto a conversa corria solta, as bacias grandes de alumínio aparavam a debulha do feijão bem verdinho. A chuva daquele ano garantira a fartura da mesa do sertanejo.

De véspera, a máquina de costura já se ocupara em fechar as palhas do milho, deixando aberta a extremidade do alto. Sobre a mesa grande da cozinha, mãos enchiam cuidadosamente aqueles pequenos sacos verdes com o líquido saboroso. Dobravam a extremidade e arrematavam com o fiapo da palha dando um nó bem seguro, para garantir que nada escapasse durante o cozimento da pamonha. Despejadas delicadamente no caldeirão em ebulição, cozinhavam até adquirir consistência firme.

Apoiado na bancada, girando incansavelmente a sua manivela, o velho moinho vermelho triturava os grãos do milho, enquanto uma travessa grande aparava a massa amarela, que seguia direto para a panela grande, misturada ao leite e ao açúcar. No fogão, permanentemente alimentado, a lenha crepitava para permitir o cozimento correto. Com uma colher grande de pau, a massa era mexida até atingir o ponto certo da canjica.

Na cozinha auxiliar, que dava para a cisterna, braços fortes e ritmados subiam e desciam a mão do pilão de madeira, enquanto a carne seca era dilacerada juntamente com a farinha de mandioca, para dar o sabor da paçoca.

Naquele dia, a parede da cozinha ganhava novos tons, enegrecida pelas labaredas expelidas incessantemente do fogão a lenha. Sabores diversos nos bolos de milho, de macaxeira e de batata doce, e no pé de moleque – impossível eleger o preferido. Muitos dos quitutes preparados com os presentes dos moradores que ofertavam a melhor produção do seu roçado.

O terreiro já estava devidamente varrido. As toras de lenhas, de espessuras variadas, eram arriadas dos cambitos do jumento e cuidadosamente arrumadas numa grande fogueira para permitir que o fogo durasse a noite toda, restando apenas as cinzas traiçoeiras no começo da manhã.

O movimento da casa grande era intenso. Conversas e cochichos nas confabulações para o forró, imperceptíveis aos inocentes ouvidos infantis. Os risos denunciavam a alegria presente. Por todos os lados da casa, mãos solidárias trabalhando sob a rígida disciplina dos meus avós.

Ao cair da noite, os moradores iam chegando aos poucos. Mulheres vestidas de chita, homens em trajes de mescla, crianças em roupas de festa, famílias inteiras se achegavam. Vinham a pé, a cavalo, de burro, de carroça ou de charrete. Para aqueles que moravam em fazendas mais distantes, meu avô disponibilizava o transporte de camionete. A casa logo se encheu de gente, festejando o bom ano de inverno.

Os tocadores afinaram os instrumentos. O resfolego da sanfona foi seguido pela batida marcante da zabumba e pelo tilintar vibrante do triângulo. As duas folhas de lixa não foram necessárias para arremedar os pés do povo dançando ao som da sanfona. Logo o alpendre lateral encheu-se de passos ritmados. Casais de todas as idades dançando forró, xaxado, xote e baião.

De vez em quando, alguém mais ousado apagava a luz para dar mais privacidade aos namoros. Feliz no cangote da morena, chamego roendo o coração, um passo lá, o outro cá, o vaqueiro relembrava a légua tirana nas quebradas do sertão, ao som de Luiz Gonzaga. Tava danado de bom, mas meu avô não permitia tamanho atrevimento e logo mandava acender as luzes.

O arraiá só estava completo com a marcação da quadrilha. Os noivos, seguidos por damas e por cavalheiros, animavam o balancê, o galope, os cumprimentos, a troca de pares, o caracol e o passeio na roça. En avant tous et en arrière.

No terreiro, a meninada aproveitava para soltar fogos de artifício, utilizando as brasas da fogueira para acender as estrelinhas, os peidos de velha, os vulcões e os foguetões. Os chumbinhos empolgavam a criançada menor, e o mijão afugentava os dançarinos do salão. No auge da alegria, um grande balão multicor subia aos céus, iluminando a noite estrelada do Seridó.

Em torno da fogueira, as adivinhações para as moças casadoiras duravam a noite toda, apontando nomes de pretendentes, prevendo casamentos em breve, frustrando esperanças ou calculando o tempo de espera. Compadrios se formavam.

As comidas eram servidas pela janela da cozinha, distribuídas entre os moradores emparelhados em filas ordeiras. A música continuava até a ordem do meu avô, que muitas vezes cedia aos apelos para estender mais um pouco a festança, mas não deixava varar a madrugada. Na fazenda, os trabalhos começavam cedo, pois a vacaria tinha leite a ordenhar.

Esgotados e felizes, fomos derrubados pelo cansaço. Noite de sono reparador, sonhos tranquilos da infância, lembranças de uma alegre noite da festa de São João.

Crônica publicada originalmente no livro Sertão, Seridó, Sentidos.


Acesse também: Invernada

Isabela Serpa e Waldonys – Anjo Querubim

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20 comments

  1. Desconheço uma descrição mais perfeita que essa!! Vivenciei tudo isso em minha infância! Quem tempos!! Que vida!! Parabéns pela sensibilidade! Obrigada por me proporcionar uma viagem espetacular ao passado!! Viva São João! Viva a nós!!

    1. Viva São João! Resgatando momentos prazerosos na fazenda. Navegue à vontade no blog, em Livros estão muitos riscados de nossos costumes sertanejos. Compartilhe à vontade. Muito obrigada.

  2. Oi Elza. Que descrição primorosa!nao nasci no sertão, mas sou cearense da capital. Por momentos vivi, com você essa festa belíssima. Não me conformo com essas quadrilhas modelo “Sapucaí”.considero uma profanação que deu adeus à nossa mais pura tradição!

    1. Oi Rocha, também não aprecio essas quadrilhas modernas, perderam toda a espontaneidade de nossa tradição. Se gostar de sertão, navegue no meu blog. Clique em livros e acesse os livros Sertão, Seridó, Sentidos e No Rastro das Águas sobre a temática do sertão totalmente gratuitos. Muito obrigada pelo comentário.

  3. Elzinha muito bom reviver estes momentos únicos. E certamente quem não os viveu, encanta-se com sua tão genuína descrição.

  4. Tinha esquecido das bandeirinhas recortadas das revistas e de como eram reparadores os sonhos da infância. (Essa fazenda é a de Marcos?) 😘

      1. Que saudade senti! Com sua descrição consegui me transportar para Assu, sentir o cheiro e ver os alfinins da minha tão esperadas férias.
        Obrigada por nos proporcionar reviver preciosos momentos.

    1. Me transportei p a fazenda, para as festas do interior no mês de junho… que descrição perfeita, Elza!! Deu p ouvir o som das vozes e da música… o cheiro da comida vindo da cozinha… ouvi o barulho gostoso da lenha ardendo na fogueira… 👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻

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