No Rastro das Águas – Capítulo 1

Faíscas saltavam das brasas; labaredas eram atiçadas ao abano; a lenha estalava espalhando cinzas ao redor do fogão; terrinas eram trocadas num vai-e-vem ligeiro, que refletia a agitação da casa da fazenda. Não era pra menos, o primeiro filho de Antônio Bezerra estava a caminho. Ritinha esforçava-se, com a ajuda da parteira, para dar à luz a seu primogênito.

Por pouco não dera à luz no mês de Santana; teria sido uma graça, mas o importante era nascer com saúde. Aquele não tinha sido um bom ano de inverno; na realidade, eram dois anos seguidos de seca, mas a alegria da chegada de um rebento ao mundo, fruto daquela união que ainda nem bem completara um ano, compensava as amarguras da estiagem.

Na casa da sala, Antônio aguardava ansioso a chegada do filho. O primeiro, como era de se esperar, deveria ser, com certeza, um varão. O nome já estava escolhido. Como todo neto primogênito, iria chamar-se José Bezerra de Araújo, em homenagem ao avô, Coronel José Bezerra, da Aba da Serra. Pensativo, refletia sobre o futuro: nem parecia que em 27 de setembro do ano próximo passado, ele, Antônio Bezerra de Araújo, tomara por esposa Rita Alzira de Araújo.

Numa época em que a família patriarcal ainda predominava com todas as suas forças, os interesses da figura dominadora do pai prevaleciam sobre qualquer aspiração de seus membros – mulher ou filhos. Estes estavam rigorosamente subordinados ao chefe maior. O filho era a finalidade básica do casamento; o filho homem garantiria a continuidade do nome e honra da família: era o herdeiro; assim sendo, levaria aos seus descendentes os ensinamentos adquiridos e transmitidos de pai para filho. A filha mulher não tinha voz ativa, quase sempre não podia falar, nem mesmo escutar; ao contrair núpcias, interrompia a continuidade do sobrenome familiar. Do primeiro nascimento, esperava-se sempre por um filho homem. Assim, estaria assegurada a continuidade da estrutura básica da sociedade.

Enquanto aguardava, Antônio pensava. A fazenda Cacimba do Meio, situada no município de Currais Novos, tinha sido doação de seu pai, quando do seu casamento. Aquela criança aguardada iria crescer ali, aprendendo um manejo do solo e, sobretudo, aprendendo a amar a terra que, associada à água, representava o maior patrimônio de um seridoense. Naquela região, onde era praticada principalmente a pecuária extensiva e a cultura do algodão, consorciada com os produtos de subsistência, a terra era o principal fator econômico. Desde cedo, o sertanejo aprendia a amá-la e valorizá-la.

Filho de um importante chefe político local, senão o mais importante, Antônio era o caçula de uma família de oito irmãos. A chegada do novo herdeiro era motivo de alegria e apreensão para esse jovem, então com dezenove anos, que tinha agora a responsabilidade de sustentar e educar a família que começava a crescer. Era costume, à época, que os casamentos se realizassem bem cedo, entre jovens que acabavam de sair da adolescência, ou ainda se encontravam nela. Como a finalidade do ser humano era nascer, crescer, casar, ter filhos, educa-los e transmitir-lhes o que foi assimilado durante a vida, quanto mais cedo o ciclo se completasse, melhor seria. Nem de longe, imaginava-se as profundas transformações que modificariam as relações sociais do século XX e que incluiriam entre os anseios do ser humano tantos valores diferentes daqueles em vigor.

Aquela era uma época marcada por transformações no campo político, econômico e social. A República tinha chegado nem bem fazia vinte anos; a Revolução Industrial, mesmo acontecendo com um certo atraso, ia de vento em popa no Sudeste do Brasil e se refletia diretamente na economia daquele município. Aos poucos, as relações sociais começavam a dar sinais de mudanças; enfim, era início de século, época em que os ânimos estavam exaltados, cheios de esperanças e com sede de transformações.

O município de Currais Novos situa-se na região Seridó, sertão do Estado do Rio Grande do Norte, zona semiárida da Região Nordeste do Brasil. Como o próprio nome diz, sua fundação deu-se em razão da pecuária, que representou e ainda hoje representa sua mais importante atividade econômica, excetuando-se os períodos em que o algodão e a scheelita detiveram a hegemonia.

Em 1908, a região urbana do município limitava-se a uma vila e a população concentrava-se basicamente no campo. A vila servia apenas como pequeno centro de comércio e administração pública, para onde os moradores da zona rural convergiam em dias de feira, missa ou festas religiosas. O algodão já se firmara como principal produto econômico da época e, como tudo o que era produzido na região, dependia essencialmente das condições climáticas.

Com seu pai, Antônio aprendera os segredos do manejo do gado e do plantio do algodão e, em breve, despontaria como excelente comerciante. Tudo isso era passado e repassado em sua mente.

Eram oito horas da manhã, quando seus pensamentos foram interrompidos por um grito rasgado de criança. Seu choro era forte, como se quisesse anunciar aos quatro cantos a sua chegada. Terça-feira, 04 de agosto de 1908. Seu pai disparou em sua direção, a fim de ver o rebento. Sua previsão fora confirmada, sua angústia apaziguada; podia, enfim, comemorar: tinha em casa o primogênito!

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2 Comentários

  1. Não canso de ler esse livro. Tenho como os escolhidos para delektar-me. Agora mesmo estou aproveitando a brisa deste final de tarde e repassando-o. Que bom.!!! Um abraço de agradecimento por fazer de seus dotes está ocasião.
    ..

    1. Oi Marly, o prazer que vc tem em ler, eu tive em escrever esse livro e me descobrir como uma autêntica sertaneja. Agora trago ele em formato digital, para ser lido pedacinho por pedacinho, uma vez por semana. Para quem tem o exemplar, pode ler todo de uma vez. Muito obrigada 😘

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