No Rastro das Águas – Capítulos 54 e 55

(…)

Nesse meio tempo, um acontecimento histórico no futebol brasileiro veio amenizar o sofrimento causado pela seca. A Seleção Brasileira deslumbrou os torcedores que lotaram os estádios suecos, durante a realização da Copa do Mundo. Nos pés de Vavá, Didi, Garrincha, Newton Santos, Zagalo, Belini, e no jovem prodígio, Pelé, a bola traçava o caminho certo para o gol. Do lado brasileiro, Gilmar esbarrava a pretensão dos adversários. Jogando com muita arte, o futebol brasileiro alcançou um lugar definitivo na galeria dos campeões, derrotando, na final, por cinco gols a dois, a seleção anfitriã. A Suécia rendeu-se à superioridade adversária e aplaudiu entusiasmada os finalistas. Em retribuição, a seleção brasileira desfilou abraçada à bandeira sueca. Era a primeira vez que o Brasil conquistava o título de campeão mundial. Satisfeito, José Bezerra veio com ânimo novo para enfrentar a eleição.


Capítulo 54

As longínquas estradas do Rio Grande do Norte encurtavam-se nas andanças do novo candidato. O piçarro, a poeira, o sol, o suor, a seca e a sede entranhavam em seu corpo. Em cada canto que chegava, a cada palavra dirigida, a cada olhar esperançoso em si depositado, mais aumentava a certeza do caminho escolhido e a vontade de eleger-se.

A candidatura tinha sido homologada em julho, na convenção da UDN, que consolidou a coligação com o PR, formando a Frente Popular Democrática. Sua liderança em Currais Novos e municípios vizinhos, sua coerência política e seu trabalho junto ao partido e à frente da Secretaria de Governo, permitiram não só a candidatura a Deputado Estadual, mas a suplência ao Senado. O Governador Dinarte Mariz achou por bem unir o Seridó com o Oeste potiguar. A chapa para o Senado, com Dix-Huit Rosado pelo PR e, na suplência, José Bezerra pela UDN, arregimentava as forças políticas das duas regiões. Traçadas as estratégias políticas, os candidatos rumaram aos rincões potiguares.

A fascinação que José Bezerra sentia, quando criança, pelo entra e sai de pessoas buscando apoio em seu avô, aflorou novamente. Os antigos habitantes de Currais Novos multiplicaram-se por todo o Estado, dessa feita para ouvi-lo e aos demais candidatos.

Como sertanejo, acostumado a viver as agruras da seca impiedosa e devastadora, sem a eloquência dos grandes oradores, costumava pronunciar palavras simples, em busca do apoio de seu povo, ressaltando: “sempre fui fiel à tradição dos meus antepassados, que se firmaram pelo trabalho e pela probidade. Assim, continuarei, com a ajuda de Deus, a palmilhar o caminho da honra e do dever, atuando na política para servir aos meus conterrâneos e não auferir proveito pessoal de qualquer espécie. Esta é a vossa terra, que também é minha, à qual estou vinculado por toda sorte de interesses legítimos, inclusive por laços de família; tendo obrigação de ajudá-la para evitar que ela seja presa de aventureiros que procuram tirar o máximo das vossas energias sem nenhuma retribuição”.

Sua campanha concentrou-se no Seridó e na zona Oeste do Estado. Lá, além de ser reduto eleitoral de Dix-Huit Rosado, podia contar com a ajuda do amigo Jacó Pires, dono de terras no município de Janduís. Em Currais Novos e nas proximidades, a bordo de sua camioneta, contava com a direção de Luiz Lino, filho de seu compadre João Lino, para percorrer a caatinga. Muito jovem, o motorista prontificava-se para qualquer serviço, aproveitando a oportunidade de treinar no volante.

Chegou o dia da eleição e Cacimba do Meio transformou-se num Quartel General. Dirigindo a camioneta do candidato, Luiz Lino transportava os eleitores até os locais de votação. Yvete comandava os trabalhos na cozinha, repleta de ajudantes, para fornecer refeições para tanta gente. José Bezerra coordenava as tarefas de cada um, enquanto aguardava ansioso pelo término da votação. Se fosse hoje a eleição, nada disso seria possível. A legislação eleitoral mudou bastante de lá para cá.

O ritmo do início das apurações era lento. O resultado das urnas vinha dos mais variados pontos do Estado. Consolidados, os votos traçavam o novo mapa político estadual, confirmando a projeção de alguns profetas políticos, afastando de vez a esperança de alguns candidatos e aumentando a expectativa daqueles que continuavam na disputa. A espera, tensa e angustiante, fazia lembrar uma parada dura de baralho, com a diferença de que estava em jogo o futuro não só dos candidatos, mas de todo o eleitorado que neles tinham depositado o voto de confiança. Aos poucos, a tendência foi ganhando forma e, finalmente, veio o resultado final: o cidadão José Bezerra de Araújo, registrado pela Frente Popular Democrática, foi eleito Deputado à Assembleia Legislativa Estadual, com 2.967 votos e suplente de Senador da República pelo Rio Grande do Norte, derrotando o candidato do PSD, o vice-Governador José Varela, que tinha como suplente o ex-Governador Sílvio Pedroza. Aluízio Alves, Deputado Federal pela UDN, conseguia sua reeleição, como o candidato mais votado da coligação.

Para o novo Deputado Estadual, a conquista da vitória trouxe-lhe alegria e tranquilidade. O ano de 1958 tinha sido muito atribulado. Quando pensava que poderia, enfim, descansar da longa jornada, sua saúde pregou-lhe uma peça: as tensões por que passara, a angústia da seca, a expectativa da eleição e as preocupações acumuladas nos anos do comércio de minério desencadearam uma doença que lhe acompanharia pelo resto da vida: o diabetes viera excluir, de sua alimentação, o doce açúcar dos engenhos.

Maria, que chegara a sua casa nem bem fazia cinco anos, mas que já adquirira a confiança de todos, teria que fazer milagres na cozinha para garantir o sabor das comidas. A cebola, por opção, e o açúcar, por imposição, fariam parte de sua restrição alimentar.


Capítulo 55

Sábado, 31 de janeiro de 1959, os Deputados eleitos em outubro passado tomaram posse na Assembleia Legislativa Estadual. A UDN elegeu dezesseis Deputados: Vingt-Rosado, Moacir Duarte, Valdemar Veras, Carvalho Neto, Carlos Borges de Medeiros, Cortez Pereira, José Bezerra, Luiz de Gonzaga Barros, Márcio Marinho, José Fernandes, Gastão Mariz, Antônio Morais Neto, Onésimo Maia, Manoel de Brito, Edgard Montenegro e Roberto Varela. O PTN, dois Deputados: Luís Maranhão Filho e José Rocha. O PSD, doze Deputados: Aluísio Bezerra, João Aureliano, Israel Nunes, Newton Pinto, Mota Neto, José Venício, Jocelin Vilar, Manoel Avelino, Manoel Torres, Valmir de Freitas Targino, Jácio Fiuza e Olavo Montenegro. O PDC elegeu Ângelo Varela e o PTB, três Deputados: Ramiro Pereira, Floriano Bezerra e Radir Pereira.

José Bezerra, novo na Casa, acostumado às ações do executivo, com experiência na Prefeitura de seu município e na Secretaria de Governo, onde prevalecia a vontade de um só, achou melhor ir com cautela. Chegara ao templo da democracia estadual, onde estavam representados interesses variados e prevalecia a vontade da maioria. Para se chegar a um consenso, era necessária muita negociação; mas com a bancada majoritária, o Governador Dinarte Mariz não teria muitas dificuldades em governar.

Ainda em regime de conhecimento do terreno, ele viu o ano de 1959 transcorrer pacificamente. O Brasil vivia o surto da industrialização e já produzia o carro nacional: o DKW rodava nas ruas brasileiras. Firmando-se como novo estilo musical, a Bossa Nova revelava novos talentos na música brasileira, enquanto que a televisão, ainda em preto e branco, presente em número reduzido nos lares brasileiros, lançava os programas de auditório sob o comando de Chacrinha, o velho guerreiro, e de Flávio Cavalcanti.

Mas o crescimento do país dava-se à custa de alta concentração de renda, de uma inflação elevada e do empobrecimento das camadas mais baixas. O custo de vida provocava ondas de protestos e a democracia brasileira, ainda engatinhando, aqui e acolá corria riscos de golpes, prontamente abafados. As diferenças acentuavam-se. Para tentar encurtar a distância que separava o Nordeste brasileiro do desenvolvimento da região Centro-Sul do país, o Presidente Juscelino criou a Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste – SUDENE.

O final do ano chegou com as negociações em torno dos prováveis nomes para disputar a sucessão presidencial. Os candidatos deveriam levar em conta a conjuntura econômica e social. A UDN, opositora ao governo federal, realizou sua convenção. Entre Juracy Magalhães, tenente de 1930, candidato do partido, e Jânio Quadros, político carismático e de carreira vertiginosa, a convenção preferiu uma coligação com este último. A questão ficou na escolha do vice, que recaiu em Milton Campos. Após alguns conflitos internos no partido, Jânio da Silva Quadros deu início à campanha, pregando a moralização, usando como símbolo a vassoura, que iria varrer para longe a corrupção administrativa.

Desencadeada a campanha presidencial, as lideranças estaduais voltaram-se para a escolha de seus candidatos ao governo do Estado, cuja eleição se realizaria juntamente com a de Presidente da República, em outubro de 1960.

No Rio Grande do Norte, a UDN enfrentava dificuldades na escolha de seu candidato. O partido estava dividido. Tarcísio Maia, José Bezerra e Coronel João Medeiros foram a Dinarte, defendendo que o candidato natural deveria ser Aluízio Alves, Deputado Federal mais votado na última eleição. Dinarte, defensor da candidatura de Djalma Marinho, fez valer sua vontade. Tarcísio Maia e José Bezerra acataram sua decisão, mas o Coronel João Medeiros e Aluízio Alves, assim como outras lideranças políticas que formavam o bloco aluizista, romperam com a UDN e migraram para o PDC. Aluízio Alves saiu candidato a Governador numa coligação com o PSD, que tanto combatera nos anos anteriores em seu jornal Tribunal do Norte. Junto com outros partidos, formou a Cruzada da Esperança.

A campanha radicalizou-se. A política deixava de lado as propostas partidárias e passava a defender a pessoa do candidato. Com seu carisma pessoal, Aluízio conseguia arregimentar multidões. Vestidas de verde, portando galhos de árvores, as pessoas empinavam o polegar, símbolo de sua campanha, que pregava a esperança. Do outro lado, os dinartistas, trajando vermelho, empunhavam o “V” da vitória, em defesa do candidato Djalma Marinho. O radicalismo era tanto, que as passeatas dos dois candidatos não podiam se encontrar; caso isso ocorresse, o verde e o vermelho podiam terminar em luta corporal. O Estado nunca enfrentara campanha política tão acirrada, mas, por fim, as urnas deram como vencedor o candidato Aluízio Alves.

O radicalismo da campanha contaminou a todos e estendeu-se à Assembleia Legislativa. O clima era tenso, os oradores pronunciavam discursos inflamados, que despertavam a ira dos opositores. Em novembro de 1960, com os ânimos exaltados, as questões políticas deram lugar a ofensas pessoais, envolvendo a vida particular dos parlamentares, de modo que nem a intervenção do Presidente da Mesa era suficiente para conter os ânimos. Os Deputados, Ângelo Varela e Olavo Montenegro saíram feridos do plenário, depois de trocarem tiros dentro do recinto. A turma do “deixa-disso” teve que intervir; avesso à confusão, José Bezerra manteve sua postura moderada e conciliadora.

O Vice-Governador do Estado, que também era o Presidente da Assembleia, alegando falta de garantias para seus membros, cerrou as portas do Legislativo até que fossem restabelecidas as condições normais para seu funcionamento. Não satisfeitos com o fechamento da Assembleia, os Deputados entraram com um mandado de segurança contra seu Presidente e a maioria reuniu-se no prédio do Museu e Arquivo Público do Estado para reinício dos trabalhos legislativos e aprovação da prorrogação das atividades até à posse do novo Governador. Em 31 de janeiro de 1961, Aluízio Alves assumiu o governo do Rio Grande do Norte, transformando o palácio do governo em Palácio da Esperança. José Bezerra continuava na UDN e na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte, passando a fazer parte da bancada da oposição.

Em Brasília, a nova Capital Federal, inaugurada no ano anterior por Juscelino, o Presidente Jânio da Silva Quadros recebeu a faixa presidencial na mesma data. Numa vitória avassaladora, a UDN, finalmente, saíra vencedora nas urnas. Como a legislação eleitoral permitia, o Vice-Presidente eleito foi o petebista, João Goulart, ex-Ministro do governo Vargas, que disputou o cargo em outra coligação.


Acesse também: No Rastro das Águas – Capítulo 6, Capítulo 7, Capítulo 8, Capítulo 9 e Capítulo 10.

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