No Rastro das Águas – Capítulo 21

(…)

Seus estudos prosseguiram no grupo escolar, entremeados pelas brincadeiras de que fazia parte. Certa vez, José resolveu participar da banda municipal, cujo presidente de honra era seu pai. A meninada reunida (Antônio Othon Filho, Sílvio Bezerra, Minéo, Antônio Chacon, Bila e Chico de Moisés Preto) resolveu fazer uma homenagem a um currais-novense peculiar. Seu Galvão era um pouco esquisito, só andava pelo meio da rua para não pisar na calçada de ninguém e com esse pensamento construiu sua calçada inclinada, que era para, também, ninguém passar por lá. Mas a banda, que nem se se poderia ser chamada assim, tamanho o barulho que fazia, foi até a casa de Seu Galvão, para prestar-lhe uma homenagem. Um sobrinho dele, que fazia parte da banda, proferiu um rápido discurso, seguido pela tocata, ao que Seu Galvão ficou muito satisfeito e para agradecer mandou servir vinho aos meninos. José animou-se com a bebida, extrapolou os limites e, como consequência, teve que ser socorrido em casa, contrariando os ensinamentos rigorosos de sua mãe.


O barulho e o chacoalhar do trem, cortando os canaviais, embalavam os pensamentos de José, que estava a caminho da capital paraibana. Tinha vindo a cavalo até Guarabira, onde tomara o trem para seu destino. Junto com ele, estavam os amigos Luiz e Antônio Assunção e seus pais. Por influência dos amigos negociantes, Antônio Bezerra tinha decidido levar seu filho para estudar no Colégio Pio X, em regime de internato.

Estavam próximos a João Pessoa e José observava o verde relaxante da cana, tão diferente do cinza seridoense. A paisagem passava rapidamente pela janela e confundia-se com as lembranças dos últimos quatro anos, que formavam um turbilhão em sua mente. Suas primeiras letras foram completadas no Grupo Escolar Capitão-Mor Galvão, em Currais Novos. Sua cidade progredia a olhos vistos e, em 1920, fora elevada de vila à cidade.

A 1ª Guerra Mundial acabara em 1918. Antes disso, em 26 de outubro de 1917, em decorrência do torpedeamento de navios brasileiros, o então presidente Venceslau Brás assinou – após aprovação no Congresso – a declaração de guerra contra a Tríplice Aliança. As consequências para o Seridó ficaram restritas ao campo econômico. Com a suspensão das exportações para o mercado mundial, dirigiu sua produção de algodão para o mercado consumidor da indústria têxtil paulista, suprindo desta feita a lacuna deixada pela inexistência das importações de manufaturados. O preço do algodão subiu e a qualidade de nosso produto garantiu o seu mercado. Os negócios de seu pai progrediam rapidamente. A cidade de Currais Novos já dispunha de estrada ligando-a ao litoral, desde o ano anterior, 1919, quando, em decorrência de outra seca, o IFOCS concluiu o trecho até Santa Cruz. Os automóveis estavam chegando e alguns currais-novenses começavam a adquiri-los.

Mas um acontecimento triste se fez presente nesse intervalo. Sua mãe dera à luz outra menina, que veio fazer companhia a Amália. No entanto, as condições da medicina de então, bastante atrasada, resultavam no alto índice de mortalidade infantil. Os males eram curados com remédios extraídos das plantas, chazinhos e com muita reza, para afastar o mau olhado. A influenza espanhola assolou a região na seca de 1919, matando muita gente. O crupe chegou à casa de Antônio Bezerra, vitimando sua pequena filha. A tristeza tomou conta da casa, mas se confortaram na vontade divina. José lembrou-se abatido do ocorrido.

O apito do trem, informando a próxima parada, despertou-o de seus pensamentos. Aos doze anos incompletos, seu horizonte abria-se para novas descobertas. Estava criando asas para voos mais altos. No internato, não teria os mimos carinhosos de Sinhá Cândida, nem a proteção maternal, muito menos contaria com a importância do sobrenome familiar; teria que criar seus próprios mecanismos de defesa. Os bons modos e a boa educação doméstica, assegurada pelos ensinamentos rigorosos de sua mãe, deveriam ser demonstrados. Dava um frio na barriga só de pensar no que lhe aguardava. O menino traquino, criado no ambiente rural, livre, apegado às coisas da terra, aos animais e à natureza, transformava-se prematuramente em rapaz, com responsabilidade de adulto, restrito aos muros do colégio, por boa parte do ano.

Pegaram seus pertences e dirigiram-se ao colégio, onde ficariam sob a responsabilidade da Direção. Despediu-se do pai com um nó na garganta, pois, segundo a educação que recebera, homem não podia chorar. Estaria a quilômetros de distância e qualquer problema deveria ser resolvido por lá mesmo. Receberia uma pequena mesada para eventuais despesas e o retorno à casa paterna somente se daria nas férias. Ao penetrar no interior do estabelecimento de ensino, sentiu um momentâneo desamparo, mas foi encorajado por Luiz Assunção, aluno veterano.

Acomodado em seus aposentos, necessitou ir ao banheiro. Depois de terminar o serviço, deduziu que aquela cordinha se encarregava de fazer a limpeza do sanitário. Foi tomado de surpresa com a quantidade de água que começou a jorrar e resolveu, então, colocar as mãos dentro do vaso, para tentar impedir o desperdício, que estancou de repente. Com um misto de espanto e curiosidade, descobriu, tarde demais para evitar a sujeira em suas mãos, o funcionamento da descarga.

Os anos no internato serviram para solidificar seus ensinamentos de disciplina, que incluía, entre outras coisas, a aceitação da comida que lhe era servida, sem direito de escolha e nos horários rigorosamente determinados. Além do aspecto disciplinador, podia praticar suas noções de economia, ganhando fama de “pão-duro”, pois conseguia economizar a minguada mesada que recebia.

Nas férias, o retorno a Currais Novos era sinônimo de muita alegria. Podia rever os primos e amigos e, especialmente, revigorar suas raízes no contato com a fazenda. No meio do ano, podia fartar-se da mesa seridoense. Na fazenda Cacimba do Meio, o primeiro lugar em que o deveriam procurar era no quarto dos queijos, observando sua mãe comandando os trabalhos, aguardando a derradeira etapa, para deliciar-se com as raspas dos tachos de cobre. Só depois tinha tempo para as outras atividades.

Percorria o trajeto da Cacimba do Meio aos Macacos, tangendo o gado, enquanto para lá se dirigia a fim de passar alguns dias na casa de Santina, onde aproveitava para matar as saudades da paçoca com rapadura e da coalhada com batata. Preferia essa casa à do vaqueiro, Antônio Eduardo de Santana, responsável pela fazenda, mas um tanto quanto exigente.

Num desses retornos para casa, em meados de 1920, teve a grata surpresa de encontrar Manuel Bezerra Galvão, mais conhecido por Janot, seu irmão caçula, com pouco mais de dois meses, que trouxe ânimo para sua mãe, ainda não bem recuperada do sofrimento causado pela perda de sua filha, anos antes. A alegria voltava a fazer parte daquela casa.

Findos os anos no internato do Colégio Pio X, transferiu-se para concluir o preparatório em Natal, no Colégio Diocesano Santo Antônio, que funcionava no convento Santo Antônio, sendo, posteriormente, encampado pelos Irmãos Maristas. Não estranhou sua chegada à Capital; seu impacto maior já tinha sido anos antes, em João Pessoa, bem mais novo e inexperiente. Tanto que no colégio Santo Antônio começou a despertar seu lado político. Foi escolhido Prefeito do colégio, responsável pelo salão de estudo. Nessa oportunidade, chegou a colocar seu amigo, Elísio Galvão, de castigo, por desobedecer às normas do referido salão.


Acesse também: No Rastro das Águas – Capítulo 17, Capítulo 18, Capítulo 19 e Capítulo 20.

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