No Rastro das Águas – Capítulos 60 e 61

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José Bezerra assistiu a tudo entusiasmado, mesmo temeroso pelas transformações sociais; era característica sua colocar-se a par dos episódios marcantes da História. Sabia que aquele passo era grande demais para humanidade, reflexo do desenvolvimento da tecnologia. Acompanhou a volta dos heróis mundiais e se perguntou até onde o homem iria aventurar-se. Ao mesmo tempo, sentia-se diminuto em face dos acontecimentos. Se para ele, a ida do homem à Lua era um feito extraordinário, imaginem a reação dos habitantes rurais, isolados das transformações ao seu redor. Muitos deles nem acreditariam na epopeia.


Capítulo 60

Sempre que não suportava acompanhar o ritmo das mudanças, tinha um retiro sagrado onde se proteger da evolução. Tomava o carro com destino ao Seridó. Seu coração batia mais forte quando o cheiro do estrume dos currais das fazendas, à beira da estrada, relembrava-lhe o contato com a natureza. Feito cavalo selado quando volta pra casa, acelerava em direção ao sertão. Já se sentia bem ao subir a Serra do Doutor. Quando divisava, ao longe, Currais Novos, deixava a sensação de estar em casa apoderar-se de si.

Currais Novos não estava alheia ao progresso, mas seu ritmo era lento. Sem telefonia pública, os senhores Bob Assis e Radir Pereira instalaram uma pequena central que supria a demanda local. A Companhia Energética do Rio Grande do Norte – COSERN – inaugurara, em 1965, a energia elétrica na sede do município, mas a zona rural ainda permanecia às escuras.

Às escuras, mas não alheia ao desenvolvimento das comunicações. A Rádio Brejuí levava aos rincões da caatinga currais-novense as notícias da região, os avisos e recados de parentes distantes, a música sertaneja e a Santa Missa, para aqueles que não podiam se deslocar até à Igreja. Graças à ação do Desembargador Tomaz Salustino, o homem do campo dispunha, desde 1959, um novo entretenimento.

Com as guerras desenrolando-se em diversos pontos do globo terrestre e com a corrida espacial protagonizada pelos Estados Unidos e União Soviética, a demanda pela scheelita permanecia em alta e Currais Novos extraía bons lucros para seus filhos.

Embora atingido por grandes variações no preço do mercado, o algodão continuava a ser plantado na região. Se a década de 50 caracterizou-se pela consolidação das usinas algodoeiras no Estado, nas décadas seguintes elas começariam a passar por um período de instabilidade. Muitas usinas não sobreviveram às oscilações dos preços, descapitalizaram-se, recorreram aos bancos, não suportaram o custo do dinheiro e fecharam suas portas. Algumas resistiram, mas assistiram à chegada das indústrias têxteis que, indiretamente, se tornaram seus algozes, com equipamentos modernos de beneficiamento da matéria-prima. Mas a evolução mundial também atingirá este setor. Os sintéticos começarão a ser descobertos e, em breve, irão competir com os produtos de fibras naturais.

De passagem com destino à Cacimba do Meio, José Bezerra detinha-se no centro da cidade, para inteirar-se dos acontecimentos. Abandonara a política, mas não o hábito de conversar. Da casa das famílias tradicionais à feira, preservada nas segundas-feiras, local que considerava ideal para se manter a par das acontecências, parava para conversar com seus conterrâneos. Só de olhar o semblante dos currais-novenses, percebia os sinais de bom inverno. Se tivesse chegado à cidade de nariz e olhos vendados, privado do cheiro e da cor do inverno, saberia que viviam dias de fartura. Currais Novos respirava alegria e leveza.

Chegando à fazenda, foi ter com Antônio Cândido. A Cacimba do Meio também sofrera transformações. Acatando os argumentos de seu fiel escudeiro, deslocara o antigo curral anexo à casa grande e construíra um novo, com paredes grossas de alvenaria, em frente à casa de seu administrador.

Sempre valorizando a educação, José Bezerra tinha destinado uma sala, vizinha à casa de seu administrador, para que fosse ministrado o curso fundamental para as crianças da redondeza. Acompanhava, assim, a massificação do ensino público do país, que dava um passo em busca da erradicação do alto índice de analfabetismo existente no Brasil, sobretudo na região Nordeste.

O rio, que corria livre na estação das chuvas, recebeu paredes sólidas que estancaram seu curso. Desde então, a sinfonia das águas somente voltaria a encher de música os ouvidos dos seres vivos, em época de sangria. Com o inverno daquele ano, o volume acumulado permitiu a José Bezerra desfrutar deste momento. Barragem sangrando, água renovada, vida que floresce. Nas cachoeiras que se formam, banham-se os homens, afastam para longe as amarguras da alma, renovam-se, também, para enfrentar o período de estiagem que, por enquanto, mantinha-se esquecida.

A casa grande também sofreu reformas. O alpendre cresceu, aproveitando a saída dos currais para dar abrigo ao automóvel, inexistente na época da construção. O quarto de fazer queijos e o dos empregados domésticos cederam espaço para os novos integrantes da família, que não parava de crescer. Como os donos da casa não moravam mais na fazenda, os queijos passaram a ser feitos junto a Antônio Cândido. Construiu-se um banheiro dentro de casa e os passeios noturnos pelo quintal, em busca de sinal de chuva, foram trocados pelo progresso das instalações sanitárias.

No seu casulo, isolado do mundo, José Bezerra redescobre a magia do luar do sertão. Tão distante e tão perto, a Lua brilha majestosa. Para aproveitar o momento, ele desliga o motor mais cedo, abanca-se com Antônio Cândido e dão fluidez à conversa. Diferentemente de outrora, a claridade da luz elétrica denuncia a cidade de Currais Novos, mas os proseadores ignoram a intromissão artificial. Naquele instante, José Bezerra só quer se manter atrelado às suas raízes e desfrutar do contato com a natureza. Ambivalente, Antônio Cândido tenta encurtar a distância que o separa do progresso e interpela, quer saber como o homem chegou até lá, questiona, indaga, reflete e não chega a uma conclusão, permanecendo, pois, com a dúvida.


Capítulo 61

O umbigo enterrado no mourão da porteira do antigo curral da fazenda Cacimba do Meio fez valer sua profecia. O menino José Bezerra teve sorte na vida e muita prosperidade. Nascera em berço de ouro para os padrões do lugar, crescera em ambiente próspero, encontrara alguns obstáculos no caminho, mas conseguiu se recuperar.

Ainda em 1968, um suicídio abalou suas finanças. O compadre e amigo Oton Osório, com quem ele tinha depositado algumas economias, passando por uma situação de aperto, não suportou a pressão. Sua atitude fez com que José Bezerra perdesse o dinheiro que pretendia investir na compra de um apartamento no Rio de Janeiro.

À época, ele já tinha abandonado a política, mas manteve-se sempre bem informado sobre os acontecimentos. Costa e Silva sofreu uma trombose e uma junta militar assumiu o governo. O Congresso, reaberto após o “recesso” de dez meses, elegeu o General Emílio Garrastazu Médici para a Presidência da República.

A esquerda não se calava. O país vivia seus dias mais violentos. Nova onda de protestos, explosões e sequestros imperavam no Brasil e era respondida com mais violência pela linha dura dos militares. A guerrilha urbana arma-se para enfrentá-los, mas amarga as prisões, as torturas, as mortes, o exílio. As baixas ocorriam dos dois lados, incluindo a morte de inocentes pelo caminho: é o preço que se paga quando se está numa guerra.

No Rio Grande do Norte, Monsenhor Walfredo, último governador eleito diretamente, estava próximo de terminar o mandato, mas passaria o comando do Estado a um governador eleito indiretamente pela Assembleia Legislativa.

Mesmo com o susto que levou, José Bezerra começou a pensar em reduzir sua presença no mundo dos negócios. Depois de tantos anos de luta, sabia que poderia diminuir seu ritmo; ainda assim foi vice-presidente, em Natal, da Distribuidora de Automóveis Seridó, da qual era sócio.

Graças às relações que mantivera na época do comércio de minérios e à reputação que mantinha em sua cidade, foi convidado para ser Diretor-Presidente da Mineração Acauan, que acabava de ser fundada. Provinha da Mineração Sertaneja, anteriormente, Brasimet, que há vinte e cinco anos atuava no setor de mineração na região. A firma recém-fundada exploraria a scheelita da Mina Barra Verde, arrendada do Sr. José Leônidas.

O cargo que assumiu adequava-se muito bem a suas pretensões profissionais. A direção da Acauan não consumia muitas energias, as diretrizes da empresa e as ações a serem executadas estavam previamente determinadas pelos acionistas majoritários. Já passando dos sessenta, José Bezerra adaptou-se bem à nova atividade e pôde dispor de tempo para cuidar de suas fazendas. A Acauan começou a produzir no final de 1970, quando o currais-novense Cortez Pereira tinha acabado de ser eleito indiretamente para o governo do Estado do Rio Grande do Norte.


Acesse também: No Rastro das Águas – Capítulo 11, Capítulo 12, Capítulo 13, Capítulo 14 e Capítulo 15.

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