Rock, o cão e a praia

Foto de Jaecy Emerenciano – Praia de Muriú

Visitando o meu feed no Instagram, visualizo uma imagem do famoso fotógrafo americano, Michael Yamashita, retratando os currais pesqueiros no Estreito de Ormuz.

Foto de Michael Yamashita, capturada no Instagram

Longe dos conflitos que explodem no Oriente Médio, em época de veraneio, me veio à lembrança os antigos currais de pesca na praia de Muriú, onde tínhamos uma casa bem na esquina da praça central, próxima à Igreja.

Do primeiro andar, avistávamos os currais no mar e seguíamos a extensa faixa de areia branca adornada por uma linha de barraquinhas de tronco de coqueiros, cobertas de palhas para proteger do sol escaldante, intercaladas de samburás com as placas de educação do personagem Sujismundo e o aviso: “Povo desenvolvido é povo limpo”; providência do visionário Prefeito Ruizinho Pereira para mantermos a praia limpa.

A praia era seu território. Rock, nosso cachorro de estimação, percorria as areias sem quaisquer amarras, demarcando seu terreno. Ele nasceu no final dos anos 70, filho de Taurus, um fox terrier, e de Damy, uma boston terrier enclausurada em canil, como se criava cachorro naquela época; todos de vizinhos/amigos/irmãos. Taurus, bem esperto, aproveitou uma escapulida de Damy e nasceu uma ninhada.

Escolhemos aquele filhote gracioso da ponta de rabo branca. Graças à ela, escapou de ser mutilado, porque o costume era deixá-lo cotó, como se dizia. A ponta branca virou o seu radar, correndo com o rabo empertigado. Foi crescendo e perdendo, em razão desproporcional, a sua beleza; mas ganhava em esperteza, vivacidade e, (por que não?), vagabundagem. Por causa da carência do belo, diziam que a mistura de fox terrier com boston terrier originara uma nova raça: bosta terrier. Um cão de porte médio para pequeno, inteligente como o pai, forte como a mãe, meio atlético devido às intensas atividades físicas que fazia.

Alheio aos comentários, Rock fazia história. Em Natal de tempos de muros baixos, ele vivia dando suas escapulidas. Corria solto nas ruas e tinha horror a barulho de carro, latindo alto quando o motor rugia mais forte. Às vezes, passava dias sumido e retornava para casa tão fedido, que era necessário usar máscara para conseguir dar-lhe um bom banho e retirar-lhe as marcas de cão vira-lata.

Mas ele gostava mesmo era da brisa marinha. Quando chegávamos para a temporada de veraneio, fartava-se como Don Juan de cidade, deixando vários descendentes com sua raça registrada – a ponta do rabo branca. Estávamos em plena efervescência dos bugres, com o criativo inventor/produtor Marcos Neves fazendo sucesso com o Selvagem desbravando dunas e praias do litoral, para desassossego de Rock, que corria latindo ferozmente ao lado daqueles que passavam na sua frente.

Nossa casa tinha um muro alto e quando Rock perturbava demais com seu latido, fechávamos o portão. Vã tentativa de prendê-lo. Ele logo descobriu a casa do botijão de gás como escada para escalar o muro e ganhar o mundo. Nessas horas, aquele cachorro de bigodes compridos mais parecia um gato.

Na festa do padroeiro São Benedito, o parque era armado bem ao lado de nossa casa. Os precários brinquedos de madeira como os botes/balanços e a onda faziam a diversão da meninada. Bem no canto, uma casinha de madeira amarela com uma janela escancarada para aqueles que desejavam oferecer música à amada, irradiada do alto-falante no topo de um poste.

Certo dia, Rock correu atrás de uma moto barulhenta, ocupada pelo motoqueiro e um carona. Amedrontados pelo cachorro que latia, mas não mordia, os dois foram ao chão. Levantaram-se irados e pegaram um porrete de madeira para bater no seu algoz. Não contavam com a esperteza do cão, que se escondeu atrás da casinha de música, ainda em silêncio. Da varanda, observávamos o desenrolar da confusão. Rock colocava o focinho de fora, perscrutando os seus perseguidores, que tentaram, sem sucesso, encontrá-lo.

Somente depois que os dois rapazes desistiram da vingança, Rock passou a circular serelepe como ele só, com um passo firme e até de uma certa elegância, um quê de malandro que tem muitas histórias para contar, longe de qualquer conflito, descansando nas sombras das jangadas escoradas na areia branca da praia.


Ana Clara feat Toquinho – Tarde Em Itapuã

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2 comments

  1. Como bom “malandro”, curtia a vida de boas, como se diz hoje em dia. Sabendo do porto seguro para refúgio e vida mansa. Muito bom ter memórias desse tempo de liberdade sem preocupações.

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