No Rastro das Águas – Capítulo 9

(…) Observando a roupa quarar, pensou: maio estava chegando; era mês de novena à Virgem Maria e com pouco estariam no mês de Santana. Já era tempo de se preparar para a festa; José crescia rapidamente e de repente sua roupa ficava perdida. Da próxima vez que Antônio fosse à rua, encomendaria novos tecidos para confeccionar, ela mesma, os trajes da festa da padroeira. Ritinha preparara o bisaco de seu marido. Mandara pisar a carne que, misturada à farinha, virava uma saborosa paçoca. Pusera ainda queijo de coalho e rapadura e, para matar a sede, uma cabaça com água fresca. […]

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Desvendando o gênio Leonardo da Vinci

Fotografia capturada no site do MIS – Experience Retroceda no tempo e sinta-se no continente europeu, quarenta anos antes do descobrimento da América. Mais especificamente no ano de 1452, na Itália, no pequeno vilarejo de Anchiano, na cidade de Vinci, Toscana. Um mundo sem água encanada e energia elétrica, iluminado por velas e lamparinas queimadas a óleo, onde a Igreja Católica, na sua Santa ignorância, impunha como verdade a Terra ser plana. Nem de longe pensava-se o homem poder voar, pilotar um helicóptero, saltar de paraquedas ou mesmo pedalar uma bicicleta. Em plena Idade Média, nascido filho ilegítimo, Leonardo di […]

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No Rastro das Águas – Capítulo 8

(…) O solo seridoense, embora ressecado e castigado por constantes estiagens, é um solo potencialmente fértil e suficientemente vigoroso para fazer brotar, se suas entranhas, as sementes que permanecem, por tanto tempo, adormecidas. As secas fazem-no descansar, mas o certo é que com a chegada da água tudo renasce. O tempo agora era de roçar, plantar, limpar e colher! Em janeiro ainda, caíram mais algumas poucas chuvas. Embora finas, fizeram brotar a babugem, que transformou em verde o triste cinza. O gado, acostumado a comer uma minguada porção de ração e a ralar o focinho na terra batida à procura […]

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No Rastro das Águas – Capítulo 7

(…) No retorno para casa, muito cansaço, depois de um dia de festividades. O passo marcado do cavalo embalava os sonhos do pequeno José, que se aninhara nos braços de sua mãe. Aos poucos, acostumava-se com o lombo do animal, peça fundamental na vida de todo sertanejo, pois atuava como principal meio de transporte e como importante ferramenta de trabalho, percorrendo os caminhos mais espinhosos, no encalço do gado e desbravando serras e caatingas. O dia escurecera mais cedo. As nuvens encobriram os derradeiros raios de sol. Um vento poente esfriou o final da tarde. As galinhas subiram mais cedo […]

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No Rastro das Águas – Capítulo 6

(…) Enquanto esperava pelo almoço, sentado no tamborete na porta de casa, observando o sol castigando a paisagem e acompanhado de seu fiel cachorro, Tano viu Antônio Bezerra aproximando-se ligeiro, com um sorriso nos lábios. Conhecendo aquela cara desde menino e deduzindo do que se tratava, esboçou um certo ar de sabedoria. Segurou os estribos e as rédeas do cavalo, enquanto Antônio apeava. Na cumplicidade de experiência e instinto, trataram logo de organizar as tarefas dos próximos meses, na esperança de um ano regular de inverno. Sinhá Cândida abanava o ferro a carvão, esperando as brasas esquentarem para passar a […]

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Surf nos anos 70

Quem tem o mar a lhe banhar, sempre encontra uma maneira de aproveitar os seus benefícios. Ainda bebê, começa com o pezinho nas cacimbas cavadas pelos pais na areia, vai aos poucos se familiarizando com as marolinhas, vira criança pegando cavalete (jacaré), depois quer, inevitavelmente, uma prancha. Na minha infância, começávamos com aquelas de isopor, que deixavam a barriga toda assada. Aí descobrimos que podíamos usar uma camiseta ou vestir a prancha para evitar os arranhões, que ardiam bastante no contato com a água salgada. Final dos anos 70, início dos 80, os meninos evoluíram para a prancha de fibra, […]

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Entrevista com Jadson Andre

Jadson Andre – crédito da foto: WSL / SEAN ROWLAND Cotidiano, música, viagens e fotografia são temas abordados aqui no blog. O surf é um esporte que reúne natureza, viagens e visuais incríveis. Atualmente, o Rio Grande do Norte vem se destacando no cenário mundial, com dois potiguares liderando o Championship Tour (WCT) e o Qualifying Series (WQS) da World Surf League, Ítalo Ferreira e Jadson Andre, respectivamente. Jadson Andre começou sua carreira na praia de Ponta Negra, aqui em Natal. Está há dez anos no circuito mundial, é bastante querido pelos companheiros de surf e tirou um tempinho de […]

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No Rastro das Águas – Capítulo 5

(…) Antônio Bezerra percebera esta realidade. Na expectativa de recuperar as perdas provenientes dos dois anos consecutivos de seca, já planejava a poda e limpa dos campos. Retiraria o gado dos algodoeiros e sustentá-lo-ia, até chover, com o cardeiro, vegetação resistente à seca que era encontrada com frequência na caatinga; bastava apenas cortá-lo e queimá-lo, para que os espinhos não machucassem as reses. Chegando à fazenda, apeou ligeiro do cavalo e foi tratar com Tano. Nem bem o galo cantara, Salustiano já estava de pé. O chuvisco da madrugada despertara seus ânimos. Levantou-se mais cedo para a ordenha, tomou o […]

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No Rastro das Águas – Capítulo 4

(…) Aos cafus, uma rodada de coalhada, adoçada com raspas de rapadura, encerrava o dia. O silêncio da escuridão era quebrado, ora pelo chocalho do gado, ora pelo pio da coruja. Era um momento revelador de quanto o homem rural estava interligado à natureza e de quanto o progresso iria distanciá-lo de suas origens. À medida que o mês de dezembro se desenrolava, mais ansiosos ficavam os seridoenses. Os sentidos eram aguçados à procura dos mínimos sinais exalados pela fauna, flora, ventos ou astros. Em dias de feira, quando os fazendeiros se encontravam na cidade, qualquer viajante era logo indagado, […]

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Música em poesia

Não tenho certeza se a lembrança é real ou fruto da minha imaginação, mas a cena de uma Elza pequenina, cantando “A Banda” e papai registrando tudo no gravador de fita de rolo, nunca saiu de minha memória. Não sei que destino essa fita tomou, deve ter sido perdida nas diversas arrumações da casa ao longo da vida. Ouvi as “Estorinhas de Walt Disney” – uma coleção da Abril Cultural, que saía de 15 em 15 dias nas cigarreiras –, usando uma vitrola com três opções de rotação (33rpm, 45rpm e 77rpm). De vez em quando, acelerava a reprodução só […]

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No Rastro das Águas – Capítulo 3

Já se passavam três meses desde o nascimento. A vida transcorria normalmente na fazenda. Sem energia elétrica, o sol encarregava-se de determinar o horário das tarefas diárias. Acordava-se bem cedo. Às três horas da manhã, o silêncio da madrugada era quebrado pelos primeiros mugidos dos bezerros que clamavam por um pouco de leite, não sem antes escutarem o galo que desde a uma hora da madrugada fazia seu primeiro canto ecoar pelo terreiro. Antônio Bezerra levantava-se para comandar o trabalho de ordenha no curral, pois como todo proprietário de terra da época, participava diretamente das atividades da fazenda, junto com […]

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Imaginária

Selma Bezerra, minha mãe, vem produzindo ininterruptamente para sua nova exposição, celebrando os seus trinta anos como artista plástica, desde a primeira mostra individual. Ela pediu-me um texto para o catálogo e as palavras fluíram na mesma velocidade que ela vem trabalhando seus papeis. Tentei sintetizar as palavras da artista plástica descrevendo o seu trabalho, que é contemporâneo e indefinido, deixando para cada observador imaginar o que mais lhe identifica, daí o título da exposição – Imaginária. De palpável, a herança sertaneja junto às pedras da região, que deixam marcas e permitem à artista encontrar nos passos dos transeuntes os […]

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Celebrando a vida

No início, a adaptação ao animal. A gente senta na sela e segura as rédeas com firmeza, para que o cavalo saiba quem está no domínio. Foi assim que me ensinaram. Depois vai soltando devagarzinho, um trote ligeiro até chegar ao galope baixeiro. Cavalgava com as rédeas mais ou menos soltas, o vento no rosto, inebriada pelo cheiro do verde esparramado no ar, olhar solto até onde a vista alcançava, quando ouvi um grito ao longe. Estanquei o cavalo repentinamente e olhei em direção à casa grande da fazenda Bonança. Papai estava em pé no alpendre, gesticulando muito para eu […]

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No Rastro das Águas – Capítulo 2

Há dias, Ritinha vinha sentindo algo diferente, porém não sabia se era o peso da barriga ou a aproximação do momento tão esperado, já que por suas contas não chegaria à segunda quinzena de agosto. As últimas providências tinham sido tomadas: o enxoval estava lavado, passado, desinfetado no braseiro com alfazema, guardado no baú junto à cama, deixando um cheiro agradável no quarto. A parteira estava de sobreaviso e as galinhas trancadas, sendo cevadas para o mês do resguardo. Enquanto verificava cada detalhe em sua mente, sentiu uma fisgada no pé da barriga, não era a primeira nas últimas horas. […]

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Caminho da infância

O caminho encurtando e o frio na boca do estômago acentuando-se. Silenciosamente, temia não reconhecer o traçado tantas vezes percorrido na infância. Consciência pesada pelos anos de ausência. Procurei não transparecer a incerteza quanto ao momento certo de largar o asfalto, tomar a estrada de barro e seguir pouco menos de dois quilômetros, na terra seca batida, até chegar à fazenda dos meus avós maternos. A paisagem alimenta a alma saudosa. De um lado e de outro, a caatinga entrelaçada, despida de folhagem. Nem a tristeza da estiagem afasta a alegria do retorno. Céu anil desanuviando a rocha no alto […]

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