No Rastro das Águas – Capítulo 30

(…) Os carcarás da política tinham subtraído do Seridó um filho forte. Dr. Otávio foi enterrado de peitoral, traje típico daqueles que campeiam nas matas retorcidas do sertão, protegendo-os dos espinhos do caminho. Junto foi seu habeas corpus, inútil para conseguir sua liberdade. De combinação, dando os últimos retoques para colocar o vestido branco estendido sobre a cama, a cabeça de Yvete funcionava a mil por hora. Ao mesmo tempo, checava os detalhes do vestido, procurava saber a hora, perguntava pelo fotógrafo, pelo juiz e se estava tudo sob controle. Muito prática e cumpridora dos horários, não queria deixar ninguém […]

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Soltador de pipa

Jogávamos conversa fora na barraca da praia, quando um elemento estranho sobrevoa nosso habitat de verão. Um zunindo característico – nem de abelha, nem de aeromodelo – mais parecido com um disco voador em miniatura, que já chegou a assustar a população de interior. Em algum lugar próximo, alguém manuseia remotamente o controle e o objeto de tecnologia moderna capta visuais sob perspectivas até então nunca vistas, olhando o mundo de cima. Como a imaginação anda fértil, logo me transporto para o tempo em que o objeto a alçar voos era a pipa ou coruja, como a chamávamos na época […]

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No Rastro das Águas – Capítulo 29

(…) Chegou o dia de Yvete retornar a Ceará-Mirim e ele a Currais Novos. O moço elegante, viajado e conservador do sertão norte-rio-grandense provocou um interesse crescente na jovem senhorita. E ela, com seus ideais avançados, posto que vinha de uma região onde as transformações se processavam mais rápido, despertou admiração recíproca. O encantamento de José Bezerra pelos canaviais, que permaneceu tanto tempo adormecido, veio aflorar na pele de Yvete. Os encontros passaram a ser nos finais de semanas, quando ambos estavam na Capital. Rapidamente, em 11 de janeiro de 1935 selaram o compromisso de noivado. O dia estava bonito, […]

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Futuro que se faz presente

Quando era criança, adorava o desenho animado “Os Jetsons” de Hanna-Barbera. Não perdia um episódio e me divertia com os personagens da família – George, sua esposa Jane e seus filhos Elroy e Judy, além, é claro, da babá robô Rosie e do cão Astro – moradores de Orbit City. Na infância/adolescência, meus filhos jogavam Sim City, administrando uma cidade fictícia que pipocava progresso de acordo com as decisões tomadas. Agora o futuro bate às portas do Japão. Aos pés do Monte Fiji, distante aproximadamente 100km de Tóquio, a Toyota decidiu criar uma cidade protótipo (tudo a ver com a […]

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No Rastro das Águas – Capítulo 28

(…) Decidiu levantar a cabeça e os negócios. Seu pai era uma figura muito querida em seu meio e ainda podia contar com vários amigos influentes. Depois da estiagem de 1932, José foi convidado a trabalhar como agente da firma de exportação de algodão, Lafayette & Lucena, mantendo a antiga freguesia de seu pai, com quem se associava. A época coincidiu com a retomada da valorização do algodão, que passou a ganhar terreno no mercado externo. Devido à grave crise americana, os Estados Unidos criaram o plano de revitalização, “New Deal”, que limitou a produção agrícola, fazendo subir, artificialmente, os […]

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No Rastro das Águas – Capítulo 27

(…) No último mês do ano, em plena efervescência política, Jose Bezerra foi diplomado. Terminou o curso de Agronomia, mas não retornou imediatamente à sua terra. Devido ao desempenho verificado no decorrer do curso, e também por influência da família de sua noiva, foi nomeado para um patronato agrícola no interior de Minas Gerais. De passagem para fazenda Macacos, parou para observar o trabalho dos homens. Peles queimadas, braços fortes em corpos esqueléticos suados. Pouco a pouco o açude tomava forma. O IFOCS tentava garantir a permanência do homem na região, construindo o Totoró para armazenar água na invernada, com […]

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Só sei que foi assim

O personagem Chicó do Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, ao ser questionado sobre as lorotas inventadas, encerrava a conversa dizendo: Não sei, só sei que foi assim. Longe das estórias inventadas por esse personagem inesquecível, percorrendo as estradas nordestinas, fui dar no agreste paraibano, mais especificamente no Planalto da Borborema, serra de Boturité, para celebrar a união de um natalense e uma campinense. O local escolhido para a celebração veio estampado na gravura que acompanhou o convite. O baobá em destaque, vestido de verde, na frente da casa de fazenda, agora transformada em casa de recepções Celebre La Vie, […]

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No Rastro das Águas – Capítulo 26

(…) O acontecido foi manchete nos diversos jornais do Estado e José Bezerra lia cada linha com muita atenção, envaidecido com a coragem dos potiguares. Relatando o acontecido à sua noiva, pôde perceber o crescente entusiasmo de sua interlocutora. Atenta a cada palavra, Dulce deu asas à imaginação e viu-se em meio ao tiroteio, fantasiando cenas de mocinhos e bandidos, como nos filmes de faroeste americano, em que travavam um duelo para desfrutarem da simpatia da mocinha. Despertou ao chamado de José Bezerra, que a trazia de volta do sonho distante. O curso já estava prestes a acabar. Os anos […]

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Rock, o cão e a praia

Foto de Jaecy Emerenciano – Praia de Muriú Visitando o meu feed no Instagram, visualizo uma imagem do famoso fotógrafo americano, Michael Yamashita, retratando os currais pesqueiros no Estreito de Ormuz. Longe dos conflitos que explodem no Oriente Médio, em época de veraneio, me veio à lembrança os antigos currais de pesca na praia de Muriú, onde tínhamos uma casa bem na esquina da praça central, próxima à Igreja. Do primeiro andar, avistávamos os currais no mar e seguíamos a extensa faixa de areia branca adornada por uma linha de barraquinhas de tronco de coqueiros, cobertas de palhas para proteger […]

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No Rastro das Águas – Capítulo 25

(…) A viagem pelo litoral brasileiro serviu para incrementar seu amor à praia. Durante o percurso, a rapaziada não pôde deixar de presenciar, dia-a-dia, a disputa pela beleza de cada pôr-do-sol. Incrementavam o repertório para o romantismo das declarações de amor às jovens de então. Fotos foram tiradas e, com toda a energia da idade, planejavam as ações para os próximos quatro anos na capital mineira. A viagem no vapor prosseguiu até à capital da República. Extasiados, descobriram a beleza natural do Rio de Janeiro e de lá tomaram o trem com destino a Belo Horizonte. A adaptação a Belo […]

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No Rastro das Águas – Capítulo 24

(…) As férias estavam acabando e José tinha que planejar seu futuro. Os estudos ainda não eram muito bem aceitos pelos fazendeiros, mas as viagens constantes de seu pai tinham permitido que ele desfrutasse de uma visão mais progressista. Sob a influência de amigos e comerciantes, Antônio não teve dificuldade em convencer José a estudar Agronomia, em Belo Horizonte. Sua futura profissão contribuiria para levar à frente as atividades de seu pai e o manteria em contato com a terra. Escolheram uma profissão bem atualizada para a época, tendo em vista que o próprio governo estadual investia na melhoria da […]

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Ano começando

Fim de tarde do início de uma nova década. Tarde com cara de ressaca de Revéillon. Dos festejos da noite anterior, restam as boas energias espalhadas no ar. Um desejo mútuo de um novo ano repleto de alegria, realizações e paz, muita paz. As nuvens encobrindo o abraçar do sol poente. Vento invertido traz cheiro de chuva no sertão. Mesmo em tempo de notícia imediata, ela demora a chegar, mas os sinais da natureza são irrefutáveis.  No Oeste, as chuvas chegaram encharcando o chão. Sinal de inverno que se achega. Começar o ano assim é sinal de bom presságio; para […]

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No Rastro das Águas – Capítulo 23

(…) Na esfera familiar, Antônio Bezerra alcançava o ápice de sua carreira de comerciante, tendo acumulado uma fortuna considerável. Em 1924, construiu uma nova casa no lugar da antiga, de arquitetura arrojada para os padrões do município. Bem-humorado e conversador, sua casa logo virou ponto de parada para os ilustres seridoenses, em passagem por Currais Novos. Viajava constantemente, mas, quando estava em casa, primava pelas boas normas de educação e valorizava objetos refinados. Em suas constantes viagens, já afortunado, passou a gastar em jogos e em algumas escapulidas, entremeados de alguns goles para enaltecer os ânimos. Ritinha, muito vaidosa, chegou […]

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No Rastro das Águas – Capítulo 22

(…) Findos os anos no internato do Colégio Pio X, transferiu-se para concluir o preparatório em Natal, no Colégio Diocesano Santo Antônio, que funcionava no convento Santo Antônio, sendo, posteriormente, encampado pelos Irmãos Maristas. Não estranhou sua chegada à Capital; seu impacto maior já tinha sido anos antes, em João Pessoa, bem mais novo e inexperiente. Tanto que no colégio Santo Antônio começou a despertar seu lado político. Foi escolhido Prefeito do colégio, responsável pelo salão de estudo. Nessa oportunidade, chegou a colocar seu amigo, Elísio Galvão, de castigo, por desobedecer às normas do referido salão. No campo político, o […]

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Zefa, a flor da paixão

Toda cidade de interior tem personagens marcantes. Chegando o veraneio, muitos deles chegam junto para ajudar no trabalho de uma casa de praia, que carece sempre de mão-de-obra, diante do movimento multiplicado em época de descontração e diversão no litoral. As conversas de alpendre trazem à tona pessoas marcantes do nosso cotidiano. Ela era mulher disposta para o trabalho. Alta, pele clara, cabelos tingidos de ruivo, rosto marcado por histórias diversas, uma boca escancarada em sorriso, tanto assim que ganhou o apelido: Zefa bocão. A vida lhe fez assim, não lhe faltava disposição, principalmente para o amor. Zefa nasceu junto […]

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