A primeira “quebrada” a gente nunca esquece

Na véspera, o primeiro dilema foi decidir se brindava a noite na serra, iluminada pela lua cheia, desfrutando de um jantar compartilhado na feitura e na degustação, ou evitava o álcool para um rendimento melhor. Como meu espírito de atleta não é lá essas coisas, preferi não fazer sacrifício e tomei duas merecidas taças de vinho.

Fui dormir sem o nervosismo que antecede as grandes pedaladas do meu marido (acho que a dopamina ainda não foi injetada em meu corpo, rsrsrs). Ele partiu mais cedo com meu filho, porque iriam fazer a parte mais complicada do percurso, perto da Pedra da Macambira/PB e eu iria encontrá-los em Monte das Gameleiras/RN, para voltarmos juntos à Serra de São Bento/RN.

Tomei um prato de coalhada adoçada com raspa de rapadura, acompanhada de um sanduíche de pão e queijo de manteiga. Herança saborosa de quem ainda não evoluiu o bastante para seguir a dieta do atleta Gustavo Lyra.

Minha nora de prontidão para me levar até o ponto de encontro. Roupa de ciclista, filtro solar no rosto, capacete, luvas, óculos, máscara, relógio fit bit e, Ops!… Cadê os tênis? Tinha esquecido em Natal/RN. O jeito foi calçar a minha velha e companheira papete, rsrsrs.

Primeira lição: antes de pedalar, na véspera, cheque e separe todo seu equipamento, incluindo roupa e acessórios da bike. No meu caso, não tinha que me preocupar com os demais equipamentos para um pedal seguro (bomba, kit de ferramenta, selante…), pois tinha o marido e o filho com esses encargos, que privilégio!

No caminho de carro até Monte das Gameleiras bateu um friozinho na barriga. Será que conseguirei fazer o trajeto de apenas 14km? Como meu preparo para subidas ainda é muito fraco, o marido escolheu um percurso para facilitar minha vida: saía de 520m para 380m de altitude.

Foto para registrar o meu primeiro pedal no mato (ainda em pista de asfalto) e o trio partiu com o ventinho frio de junho batendo no rosto. Na rodovia estreita, um olho no asfalto e outro também, sem poder despejar o olhar de fotógrafa sobre a paisagem rural.

Procurava também seguir o conselho de uma amiga/leitora/ciclista: não olhe para longe, concentre-se no que está ao seu lado, principalmente nas subidas, para evitar o desespero. Pista sem acostamento e o mato batendo levemente no corpo, deixando um cheirinho agradável no ar.

Concentração máxima para a primeira subida. O filho de prontidão ao meu lado para um empurrãozinho, se necessário. Como instrutor, ele ainda perguntou se eu tinha mais resistência aeróbica ou força nas pernas. Com pernas curtas e grossas, optei pela força para regular a marcha. Não precisei de ajuda na primeira subida, nem na segunda, mas perto da Galinha da Serra os dois companheiros revezaram-se no empurrão.

Cérebro de mulher funcionando em tarefas variadas, pensamento na crônica que iria render, tentativa de registrar os pontos turísticos do trajeto, fotografias pensadas mas não tentadas (apesar da bela vista). Segunda lição: esvazie a mente e concentre-se no pedal; não regulei o foco e numa troca de marchas (sempre recebendo instruções) a corrente caiu. Parada técnica rapidinha e continuamos o percurso.

A cada quilômetro rodado, a coalhada, delicadamente partida ao ser saboreada no início da manhã, parecia chacoalhar no estômago. Seria a tal da congestão? Cheguei à conclusão que coalhada combina com rapadura, cuscuz, farinha, batata doce, mas, de jeito nenhum, com vinho. Esse só faz aumentar a fermentação.

Continuei firme até Serra de São Bento. Numa das ladeiras, mais familiarizada, soltei o freio e deixei a sensação de liberdade tomar conta do corpo. Mas bastou uma parada para hidratar e o enjoo veio com força, esgotando minhas forças.

Ainda subi na bike, mas pedalei poucos metros e resolvi desistir, antes de chegar às vias de fato. A palavra certa na linguagem do ciclismo é “quebrar”. Assim como o primeiro sutiã, a primeira “quebrada” a gente nunca esquece.

Nem me senti tão cansada, mas fiquei com medo do enjoo e do coração. Pedi socorro à nora e respirei aliviada quando o carro chegou. Evitei as ladeiras finais até a minha casa. O Strava registrou os 12,13km percorridos em 39min, com velocidade média de 18,6km e a máxima de 49,3km.

Adorei pedalar no mato. Da próxima vez, sacrificarei o vinho em nome do pedal e evitarei a coalhada. Terceira lição: se for pedalar, não beba; se beber, não pedale. Tempo de aprendizado, vou tomando gosto pelo riscado, me preparando melhor para o próximo pedal com paradas para registrar as belezas da região.

Pedra da Caridade em Monte das Gameleiras | RN

Ed Sheeran – Castle On The Hill [Official Lyric Video]

Acesse também: Minha ini(A)miga, a bicicleta, Bicicleta e coronavírus.

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