Caixas e álbuns de fotografias

Ilustração de Andrea Ebert – Visite seu site: www.andreaebert.com

A obrigação de isolamento tem proporcionado um reencontro com cantos da casa que, por vezes, permanecem esquecidos. Além disso, objetos inanimados passam a ser melhor observados; prestigiados talvez seja a palavra correta. Tudo porque a falta de tempo nos privava de pequenos prazeres.

E para passar e voltar no tempo, nada melhor do que vasculhar caixas e manusear álbuns de fotografias. A vida vira um rolo de filme, quadros de desenhos animados em que você é o protagonista principal para compor uma história, a sua história. Mas você não está sozinho, as cenas são compostas de inúmeros personagens e cenários, que entram, saem ou permanecem em evidência.

Como tenho uma pegada meio vintage, alguns anos atrás, com as caixas ficando pequenas, mandei confeccionar duas malas de couro para guardar fotografias, tipo aquelas dos antigos viajantes (acho que trago no sangue essa vontade insaciável de viajar). Dentro dessas malas tenho um tesouro de recordações.

Além das malas, organizava álbuns de fotografias de viagens, aniversários, veraneios, passeios, batizados, primeira comunhão, formatura, datas festivas em família… Se não tinha foto suficiente para um álbum temático, elas iam direto para as malas. Lá encontrei aquela famosa fotografia da primeira formatura no colégio – acho que conclusão do Jardim da Infância –, quem não tem essa foto?!

Deixando de lado o saudosismo, melhor é apreciar e divertir-se com a mudança do corpo, da forma de se vestir, do corte de cabelo, do porte, do andar. Na inexistência do Photoshop, impossível deletar ou retocar uma foto; a vida era clicada como ela era, sem camuflagem. Resultado: muita diversão com as poses e retratos.

Nasci em 1964 e as fotos da minha infância são todas em preto e branco. Depois a cor foi chegando, meio esmaecida pela ação do tempo. Encontrei fotos 3 x 4 e 5 x 7 (tamanhos exigidos para carteira de estudante e passaporte), inúmeros negativos, antigos monóculos, slides e a famosa Polaroid – que revolução!, a câmera cuspia a foto na hora, para surpresa dos fotografados.

Só muito depois chegou a foto digital, mas essa não tem o encanto das fotografias reveladas. A instantaneidade é logo substituída. Ficam reclusas a celulares, tablets ou computadores, podem até percorrer o mundo, mas não têm a graça do papel revelado.

Voltando à diversão, dei boas risadas com as fotos colecionadas. Sorriso com um misto de surpresa e orgulho ao mostrar os primeiros dentes perdidos, banguela e de porteira aberta como dizíamos à época. Eu e depois os meus filhos.

Os cortes de cabelo dão um show à parte. Quando criança no colo da minha mãe, nem me espantava com a altura do seu penteado. Passei por fases de cogumelo (cabelo curtinho rente ao queixo), cabelos longos, curtos, médios, Chanel, Pigmaleão, permanente para encaracolar, touca para esticar, franja tipo “pasta”, bobs e ondas. Ah, teve também uma moda de lenço – uma metamorfose ambulante como diria o sábio Raul Seixas.

As roupas são um capítulo extra. Calça boca de sino, que fez as freiras do colégio estabelecerem um limite para a largura da barra (chegavam ao cúmulo de medir e só deixavam entrar se a regra fosse cumprida), tamanco, calça cocota, estilo hippie, mangas bufantes, minissaia, saia midi, balonê, são tantas modas seguidas, que muitas nem foram citadas, mas estão lá registradas.

Melhor parar por aqui, a minha história está bem registrada em fotografias. E a sua, por onde anda?


100 Years of Fashion: Gals vs. Guys ★ Glam.com

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